Resumo
Crianças de 9 e 10 anos enfrentam pressão e hostilidade nas arquibancadas, muitas vezes vindas dos próprios pais, transformando a experiência em um cenário de tensão.
Relatos incluem pais que gritam ameaças e ofensas durante jogos, com mais de 30 casos de violência registrados em competições de base em São Paulo neste ano, levando à recomendação de jogos com portões fechados.
A Federação de Futebol do Rio de Janeiro implementou um protocolo que pode paralisar ou encerrar jogos em caso de ofensas verbais, com uma redução significativa no número de clubes punidos após a implementação das medidas.
Eles sonham em ser craques, mas o que encontram nas arquibancadas é medo. Crianças de apenas 9 e 10 anos, que deveriam brincar e aprender com o esporte, estão enfrentando um ambiente de pressão e hostilidade — muitas vezes vinda dos próprios pais. Gritos, palavrões e cobranças desmedidas transformam o futebol infantil em um cenário de tensão. “Ele falou um monte de palavrão pra mim. Fiquei triste, com medo de briga”, relatou um dos meninos entrevistados.
Ofensas e medo dentro de campo
Em partidas das categorias de base, as pequenas pernas contrastam com o tamanho do campo e o peso da responsabilidade imposta por adultos. Um dos garotos contou que chorou após ser chamado de “ruim” por torcedores. Outro, goleiro, revelou que o pai precisou ficar atrás do gol para protegê-lo de xingamentos. “Foi como uma proteção viva”, explicou. As ofensas, em muitos casos, partem de adultos que deveriam ser exemplo.
Pais e torcidas que ultrapassam o limite
Brigas entre familiares, ameaças e ofensas verbais se tornaram comuns. Há relatos de pais gritando “quebra a perna dele” ou discutindo com árbitros durante jogos de meninos de 10 anos. De acordo com dados da Federação Paulista de Futebol, somente neste ano foram registrados mais de 30 casos de homofobia, injúria racial e violência em competições de base no estado. Como medida de contenção, o Tribunal de Justiça Desportiva recomendou que 144 jogos fossem realizados com portões fechados.
Quando o silêncio traz alívio
Para os próprios garotos, o jogo sem torcida foi um respiro. “Dá mais alívio, a gente joga mais leve, sem tanta pressão”, disse Lorenzo, atacante do Sub-11 do São Paulo. A sensação confirma o impacto que o comportamento dos adultos causa no desempenho e na saúde emocional das crianças. Ex-jogadores como Edu Dracena também reconhecem o problema. “A criança não entende a cobrança, mas nós, adultos, entendemos — e às vezes reagimos de forma agressiva. Isso pode acabar em briga”, alertou o ex-zagueiro.
Federações tentam reagir
A Federação de Futebol do Rio de Janeiro implementou um protocolo contra violência verbal nas arquibancadas. O regulamento prevê paralisação ou encerramento de partidas em caso de ofensas. Segundo o órgão, 16 clubes foram punidos em 2024, número que caiu para três após o início das ações preventivas. “Queremos zerar esses casos”, afirmou o presidente da federação.
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