
Coco Gauff durante o Aberto da Austrália
Edgar Su/Reuters
O assunto veio à tona nas coletivas de imprensa do Aberto da Austrália, primeiro Grand Slam da temporada, após a eliminação da americana Coco Gauff (#3), completamente dominada por Elina Svitolina nas quartas de final, perdendo com parciais de 6/1 e 6/2. Visivelmente frustrada após a partida, a estrela de apenas 21 anos foi sozinha até o vestiário para extravasar e liberou sua raiva quebrando a raquete com diversas pancadas no chão. Minutos depois, canais do mundo inteiro que tem os direitos de transmissão publicaram o íntimo momento de raiva da atleta. Na coletiva após a derrota, ela foi questionada sobre a atitude e explicou que tentou ir até um lugar onde não haveria câmeras.
“... eu tenho algumas questões com a transmissão. Sinto que eles não precisam divulgar isso. Tentei ir para um lugar onde não seria transmitido, mas obviamente foi.”
A grandeza do jogo de Gauff nos faz esquecer alguns detalhes importantes: ela é uma mulher de apenas 21 anos disputando os maiores torneios do mundo, com uma transmissão global e prêmios milionários. Não sucumbir à pressão é um processo diário que pode passar por pequenos momentos de desequilíbrio. A estadunidense demonstra, na grande maioria das vezes, uma sabedoria e sensatez incomuns para sua idade.
“Então, sim, talvez possamos ter algumas conversas, porque sinto que, neste torneio, o único lugar privado que temos é o vestiário.” completou a estadunidense.
O clima desconfortável com o torneio foi o bastante para trazer outros grandes nomes para a discussão.
“É muito triste que você não possa se afastar de qualquer lugar e se esconder para descarregar sua frustração e a sua raiva de uma forma que não será capturada por uma câmera”, disse Novak Djokovic, também em coletiva após sua partida pelas quartas de final.
A lenda sérvia também ressaltou que vivemos em um tempo em que conteúdo é tudo e que tem dificuldade de enxergar essa tendência indo na direção oposta, com a diminuição do alcance das câmeras. Djokovic ainda ironizou o “próximo passo” das transmissões como sendo câmeras que filmam os atletas tomando banho.
A número 2 do mundo, Iga Swiatek, também comentou: “Nós somos jogadores de tênis ou animais no zoológico, sendo observados até quando fazemos cocô?”. Ela reconheceu o exagero na fala seguinte, mas reforçou o pedido por privacidade, citando outros torneios que têm quadras de treino sem transmissão e sem a presença de fãs, por exemplo.
É claro que a demanda comercial existe: os fãs também querem ver seus atletas preferidos fora das quadras, seus aquecimentos, conversas com a equipe e momentos curiosos que revelam mais sobre a personalidade dos jogadores. E, para isso, o Aberto da Austrália, como todos os outros campeonatos, realiza diversas ações programadas com os jogadores, visando as redes sociais do torneio. Não me parece nem um pouco cuidadosa com os atletas a ausência de uma área de privacidade completa.
Ser pego de surpresa com o mundo assistindo ao seu momento de grande frustração fora das quadras, logo após uma derrota dolorosa, é um exagero que não podemos normalizar.
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