A 'série de erros' que causou o acidente de trens na Espanha
Segundo o governo espanhol, as instruções dadas pelo operador do centro de controle aos maquinistas são uma cadeia de erros
A Espanha inicia nesta quinta-feira (29) três dias de luto oficial pela morte de dezenas de pessoas na colisão de dois trens ocorrida na véspera, na província de Toledo, na comunidade autônoma de Castela-Mancha. Enquanto isso, equipes de resgate continuam procurando vítimas entre os vagões destruídos do segundo grande desastre ferroviário do ano no país.
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O número de mortos subiu para 69, além de cerca de 200 feridos. Desses, 53 permanecem internados em hospitais da região de Castela-Mancha, enquanto 56 já receberam alta. Além disso, hospitais de Madri atenderam 98 passageiros feridos, segundo o governo regional. A Guarda Civil espanhola recebeu, até o momento, 64 registros de familiares procurando informações sobre desaparecidos após o acidente.
Os serviços de emergência, auxiliados por dois enormes guindastes brancos, trabalharam durante toda a noite sob potentes refletores de iluminação e continuam procurando vítimas entre os destroços dos vagões.
Os guindastes conseguiram remover de um barranco um dos vagões dos dois trens acidentados. "Não podemos considerar esse trabalho concluído", explicou na manhã desta quinta-feira Esther Padilla, porta-voz do governo regional de Castela-Mancha. Durante a noite, mais um corpo foi encontrado nos escombros, elevando para 69 o total de mortos.
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A principal entidade sindical dos maquinistas da Espanha, o Semaf, realiza nesta quinta-feira uma greve de 24 horas na Renfe, reivindicando melhorias estruturais de segurança. A paralisação já havia sido anunciada há vários dias e foi mantida apesar da tragédia desta quarta-feira.
Como aconteceu o acidente
O acidente aconteceu às 8h53 (horário local), quando, segundo o Ministério dos Transportes, um trem de alta velocidade (AVE) da companhia estatal Renfe colidiu na traseira de outro trem, da empresa Iryo, que estava parado próximo à cidade de Urda, na província de Toledo, cerca de 150 quilômetros ao sul de Madri.
O trem da Renfe transportava 378 passageiros e havia partido da capital em direção a Sevilha. O trem da Iryo havia saído alguns minutos antes no mesmo trajeto e estava parado nos trilhos com 147 passageiros. Devido ao impacto extremamente violento, alguns vagões despencaram pela encosta ao lado da ferrovia.
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Segundo os primeiros indícios, por volta das 8h30 ocorreu uma falha de informática num trecho de aproximadamente 60 quilômetros. Como prevê o protocolo, cerca de seis trens, incluindo os dois envolvidos na colisão, foram obrigados a parar, disse o ministro dos Transportes, Óscar Puente.
No entanto, pelo menos um deles, o AVE da Renfe, retomou a viagem poucos minutos depois em condições normais e sem as restrições de velocidade previstas para esse tipo de situação. O trem percorreu cerca de 25 quilômetros antes de atingir a parte traseira do Iryo.
Série de decisões "inexplicáveis" e "erradas"
Segundo gravações divulgadas pelo jornal El País, o acidente ferroviário ocorreu após a falha técnica e uma sequência de erros cometidos pelo centro de controle da circulação da rede de alta velocidade.
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Os áudios revelam conversas entre os maquinistas dos dois trens e um operador do centro de controle, localizado na estação de Atocha, em Madri.
Os contatos ocorreram após a falha do sistema automático de segurança conhecido como LZB, às 8h30. Com a interrupção do sistema, todos os trens que circulavam numa extensão superior a 60 quilômetros foram obrigados a parar. A partir daí, como previsto pelos protocolos, o centro de controle passou a coordenar manualmente o tráfego ferroviário.
Foi nesse momento que, segundo o ministro dos Transportes, aconteceu uma sequência de decisões e instruções "inexplicáveis" e "erradas". "Foi o centro de controle, por meio de seus operadores, que tomou a decisão de autorizar o retorno à circulação em circunstâncias que, do nosso ponto de vista, são inexplicáveis", declarou Puente.
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De acordo com as gravações, o maquinista do trem da Renfe recebeu às 8h36 a orientação para retomar a "circulação com marcha normal", embora houvesse outro trem parado na mesma linha, cerca de 25 quilômetros à frente.
"Marcha normal" significa que o trem pode andar a até 200 km/h. Nessa velocidade, esse tipo de trem precisa de cerca de quatro quilômetros para frear completamente. É impossível fazê-lo a tempo se a operação depender apenas do olho humano.
Cinco minutos depois, às 8h41, a maquinista do Iryo recebeu a mesma instrução de andar em "marcha normal". Às 8h48, a maquinista do trem da Iryo voltou a entrar em contato com o centro de controle para dizer que não conseguia retomar a marcha devido a problemas técnicos e que continuava parada nos trilhos, próximo à estação de Urda.
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Sua comunicação deu à central de controle de Atocha uma oportunidade para tomar medidas corretivas e evitar o acidente. Mas não há registros, nas gravações conhecidas, de que tenha ocorrido qualquer comunicação com o trem da Renfe após o aviso de que o Iryo continuava parado na mesma linha, e o trem da Renfe seguiu a toda velocidade por cerca de 25 quilômetros. Então, às 8h53, aconteceu a colisão.
Segundo as gravações divulgadas por El País, ninguém sugeriu que os trens passassem a circular sob "marcha à vista", ou seja, a uma velocidade máxima de 40 quilômetros por hora, o que permitiria aos maquinistas frear caso avistassem algum obstáculo nos trilhos.
Segundo o governo espanhol e especialistas em circulação ferroviária, as instruções do centro de controle configuram uma cadeia de erros. O trem da Renfe andou mais de 15 minutos antes da colisão, tempo considerado suficiente para evitar o acidente, como reconheceu o ministro dos Transportes.
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Relatos dos passageiros
"Eu acordei e estava no ar", relatou Josimar Medina, turista peruano de 31 anos que viajava com a namorada. Os dois descansavam no trem da Renfe quando foram surpreendidos pelo impacto.
Foi "uma batida muito forte, que pareceu durar muito tempo", contou, por sua vez, Pablo Mejía, de 42 anos. Segundo ele, a decisão de procurar um assento mais confortável em outro vagão acabou salvando sua vida. "Acho que nasci de novo", afirmou, com ferimentos no rosto e o suéter manchado de sangue.
A Guarda Civil instalou quatro postos em Madri, Toledo, Córdoba e Sevilha para que familiares das vítimas possam fornecer amostras de DNA que ajudem na identificação dos mortos. Também foram criados pontos de doação de sangue em Castela-Mancha e Madri.
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Os reis da Espanha, Felipe 6º e Letizia, visitarão nesta quinta-feira os feridos internados num hospital de Toledo, localizado a cerca de 70 quilômetros do local da tragédia, comunicou a Casa Real.
Dois acidentes ferroviários graves no mesmo ano
A nova tragédia reacendeu dúvidas sobre a segurança da rede ferroviária espanhola, que já havia sofrido um duro golpe em janeiro, quando outra colisão envolvendo trens de alta velocidade em Adamuz, na Andaluzia, deixou 46 mortos.
O novo acidente ocorre apenas um mês antes das eleições gerais antecipadas convocadas para 29 de novembro pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez. O governo já vinha sendo alvo de duras críticas da oposição após o acidente de Adamuz, ocorrido em 18 de janeiro.
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Sánchez garantiu que as autoridades irão "até o fim" para determinar as causas da tragédia ferroviária. "E, se houver negligências, elas serão conhecidas", prometeu Sánchez na quarta-feira, no local do acidente.
Além de anunciar três dias de luto oficial, o premiê afirmou que não é aceitável para um país como a Espanha sofrer dois acidentes na rede de alta velocidade no mesmo ano.
No acidente de 18 de janeiro, um trem da Iryo descarrilou e invadiu a via por onde circulava outro trem, provocando 46 mortes e mais de 120 feridos em Adamuz, na província de Córdoba.
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O líder do Partido Popular (PP), Alberto Núñez Feijóo, exigiu uma investigação governamental imediata, além de uma apuração judicial independente sobre o acidente. Segundo Feijóo, a investigação deve ocorrer "com todos os meios disponíveis e sem interferências". Ele acrescentou que ainda não é momento para discutir responsabilidades políticas, por respeito às vítimas, embora tenha defendido o esclarecimento completo dos fatos.
as/cn (Efe, AFP, Lusa, OTS)
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Autor: Redação DW
