Internacional

Enchentes no Nepal viram teste crucial para governo de geração Z

Tragédia que deixou centenas de mortos colocam à prova a liderança do primeiro-ministro e ex-rapper Balendra Shah. Críticos apontam falhas na coordenação e demo

5 min

31/08/2026 11:58 • Atualizado há 3 horas

Enchentes no Nepal viram teste crucial para governo de geração Z

O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, um ex-rapper popularmente conhecido como "Balen", enfrenta a enorme tarefa de reconstruir comunidades e infraestruturas essenciais após as violentas enchentes que atingiram o país na semana passada.

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A enxurrada, que continha rochas, gelo, lama e detritos, varreu áreas próximas à fronteira com a China, devastando cidades inteiras e causando danos a usinas hidrelétricas.

Mais de 900 pessoas morreram e quase 4,8 mil estão desaparecidas, informaram as autoridades nesta segunda-feira (31), quando os esforços de resgate entraram no sexto dia.

As enchentes atingiram o país do Himalaia poucos dias antes do aniversário dos protestos anticorrupção liderados pela Geração Z, ocorridos entre 8 e 9 de setembro do ano passado, que derrubaram o governo anterior e levaram Shah ao poder.

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Agora, o primeiro-ministro de 36 anos e seu gabinete, em grande parte inexperiente, enfrentam a primeira grande crise nacional, naquele que parece estar se tornando o pior desastre do país na última década.

Ansiedade entre parentes de vítimas

As equipes de resgate, incluindo especialistas chineses e indianos, acreditam que centenas de trabalhadores estejam presos em túneis de usinas hidrelétricas em construção que foram soterradas pela lama devido às inundações.

Sushila Giri aguardava notícias do filho, Sishir, um estudante da Universidade de Katmandu que estava realizando um estágio em um dos projetos hidrelétricos.

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"Fiquei sabendo que meu filho, junto com outras pessoas, estava no alojamento do projeto hidrelétrico quando ocorreu o desastre", conta ela à DW. "Por favor, me ajudem a descobrir onde ele está."

Raksha Bam, ativista da Geração Z, expressou preocupação com os atrasos no resgate dos trabalhadores presos em obras de hidrelétricas e instou o governo a buscar assistência especializada da comunidade internacional.

Em todos os distritos afetados, familiares se reuniram em hospitais e centros de assistência temporária na esperança de receber notícias de parentes desaparecidos.

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Indra Adhikari perdeu nas enchentes sua casa e seus arrozais, e quatro dos parentes dela estão desaparecidos. Ela reclamou que os esforços de resgate e assistência pareciam estar concentrados em áreas acessíveis por estrada e onde a imprensa estava presente, especialmente ao longo da margem do rio Trishuli.

"A maioria das pessoas que vieram para Trishuli Bazar não são socorristas, mas sim curiosos", afirma ela à DW. "Os povoados remotos, mais a montante e do outro lado do rio, continuam de difícil acesso."

Crise pega nova liderança do país de surpresa

O próprio governo reconheceu que não estava totalmente preparado para um desastre dessa magnitude – o mais mortal do Nepal desde o terremoto de 2015.

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"No primeiro dia, ficamos um pouco confusos sobre como lidar com a crise", disse o ministro da Informação e Comunicação, Bikram Timilsina, à DW após visitar a área atingida pelas enchentes. "[A partir do] segundo dia, temos dedicado todos os nossos esforços às rápidas operações de busca, resgate e assistência humanitária."

As agências de segurança foram elogiadas pela capacidade de reação, especialmente pelos esforços para chegar às pessoas em áreas de difícil acesso por meio de helicópteros. No entanto, o desastre também levantou questões sobre a capacidade da liderança nepalesa de gerenciar crises e sua relação com os governos provinciais e locais do Nepal.

"Dada a magnitude da tragédia, os esforços e a rapidez do governo para lidar com a crise são louváveis", afirma Madhu Raman Acharya, ex-secretário de Relações Exteriores do Nepal, à DW. "Os esforços preliminares de busca e resgate, especialmente a coordenação entre as agências de segurança, são louváveis."

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Govinda Pokharel, ex-diretor executivo da Autoridade Nacional de Reconstrução, que supervisionou os trabalhos após o terremoto, no entanto, tem uma visão diferente.

Segundo ele, o governo federal tentou administrar a crise basicamente por conta própria, sem envolver adequadamente os governos locais e provinciais. Isso é particularmente significativo porque o Partido Rastriya Swatantra, do presidente Shah, não tem representação nos governos locais ou provinciais.

Pokharel também questionou se a falta de experiência do governo teria afetado a capacidade de avaliar a magnitude da resposta necessária.

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"Nossos países vizinhos, como a China e a Índia, estavam dispostos a oferecer ajuda para o resgate, especialmente para o resgate no túnel, desde o início", pontua ele à DW, acrescentando que o governo não conseguiu decidir a tempo se permitiria que eles entrassem em ação, o que custou três dias cruciais.

Será que Balen cumprirá o que prometeu?

O Nepal afirmou inicialmente que suas próprias equipes de resgate eram capazes de conduzir a operação.

Mas, na sexta-feira (28/08), o ministro das Relações Exteriores, Shishir Khanal, declarou à imprensa que o governo havia decidido recorrer a especialistas internacionais, inclusive da China e da Índia, para os resgates no túnel, testes de DNA e exames forenses.

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Essa mudança apontou uma das principais dúvidas sobre o novo governo: se a gestão de Balen é capaz de agir com rapidez e eficácia durante uma emergência nacional.

De acordo com Pokharel, a capacidade do governo de arrecadar recursos substanciais no país para o auxílio às vítimas demonstrou que há confiança da população.

"Uma coisa positiva é que o governo está arrecadando uma quantia enorme de dinheiro público no país por meio do Fundo de Assistência a Desastres do primeiro-ministro", lembra ele. "Isso demonstra a confiança da população no governo, que não faz uso indevido dos recursos arrecadados em nome da assistência a desastres."

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Até sábado, mais de 5 bilhões de rúpias nepalesas (R$ 179 milhões) haviam sido arrecadados pela gestão de Balendra Shah para as vítimas das enchentes, de acordo com o gabinete do primeiro-ministro e o conselho dos ministros.

Prabha Bogati, vice-prefeita do município de Bidur, no distrito de Nuwakot, afirmou que as autoridades locais tiveram margem de manobra limitada para agir durante a crise, pois o governo federal adotou uma abordagem centralizada do tipo "balcão único", exigindo que as atividades de assistência fossem coordenadas por meio de uma única estrutura de comando.

"Em crises anteriores, comunidades locais e voluntários costumavam ser mobilizados para as operações de busca, resgate e assistência humanitária", conta ela à DW.

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Para Bogati, os resgates por helicóptero têm sido eficazes, mas as partes interessadas locais não foram envolvidas na reação e não tiveram permissão para recuperar os corpos ou realizar rituais fúnebres.

O porta-voz do governo e ministro da Educação, Sasmit Pokharel, defendeu a resposta do governo, afirmando que todos os recursos disponíveis estavam sendo mobilizados para as operações de resgate, assistência e reabilitação.

"Na primeira fase, nossa prioridade foi salvar a vida dos cidadãos, utilizando os recursos humanos e os meios disponíveis”, disse Pokharel aos repórteres. "Também demos início a um processo para organizar melhor a mobilização dos voluntários."

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Autor: Lekhanath Pandey (em Katmandu)

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