O plano secreto da Alemanha para um possível ataque russo
Documento da Bundeswehr estabelece como agir caso Alemanha seja atacada e faz parte dos planejamentos de defesa da Otan

As ruas estão silenciosas e vazias num bairro residencial de Hamburgo, à meia-noite. De repente, o barulho toma conta do local. Vários helicópteros sobrevoam o céu noturno, luzes azuis de emergência iluminam a escuridão.
Continua depois da publicidade
Uma longa coluna de veículos percorre as ruas. Sobre veículos blindados das Forças Armadas alemãs (Bundeswehr), soldados permanecem posicionados com metralhadoras em punho. Para os moradores, é uma cena incomum e até assustadora para uma cidade portuária que costuma ser pacífica.
Red Storm Charlie é o nome do exercício militar que paralisou partes da cidade de Hamburgo por três dias. Bundeswehr, polícia e organizações civis testaram conjuntamente o grau de preparação para uma situação real de crise.
O cenário simulado prevê um agravamento da ameaça na fronteira oriental da Otan. No porto de Hamburgo, o maior porto marítimo da Alemanha, tropas da Otan, representadas durante o exercício por soldados da Bundeswehr, desembarcam e seguem em direção ao leste através da cidade hanseática.
Continua depois da publicidade
Atos de sabotagem e manifestações, também previstos na simulação, dificultam o avanço. Com cerca de 1.700 participantes, entre eles 500 militares, trata-se da maior operação desse tipo já realizada pela Bundeswehr.
O exercício Red Storm Charlie está inserido num plano secreto: o Plano Operacional Alemanha (Operationsplan Deutschland). Com esse documento, a Bundeswehr se prepara para um possível ataque da Rússia ao território da Otan. O plano operacional integra-se diretamente aos planejamentos de defesa mais amplos da aliança militar.
Num cenário de guerra ou crise, não apenas Hamburgo, mas toda a Alemanha desempenharia um papel especial: o de centro logístico para centenas de milhares de soldados da Otan, além de armas e equipamentos pesados.
Continua depois da publicidade
"Trata-se de um plano extremamente detalhado e rigorosamente sigiloso que determina exatamente onde os aliados da Otan teriam de desembarcar na Alemanha, especialmente em quais portos, e quais rotas seriam necessárias para o trânsito pelo país", explica a especialista em segurança Aylin Matlé, do think tank Conselho Alemão de Política Externa (DGAP).
País de trânsito para tropas da Otan
A Otan considera os países bálticos a região mais provável para um eventual ataque russo. Numa situação de emergência, a aliança concentraria ali grandes contingentes militares de seus 32 países-membros. Para isso, soldados vindos do sul e do oeste da Europa precisariam atravessar a Alemanha.
"Isso significa concretamente que, num período de seis meses, cerca de 800 mil soldados e 200 mil veículos precisariam atravessar nosso país. Esse é o cálculo", afirma o oficial da Bundeswehr Marcel Bohnert, que participou da elaboração da primeira versão do plano operacional. Na entrevista à DW, ele falou como indivíduo, e não como representante oficial das Forças Armadas alemãs.
Continua depois da publicidade
"Precisamos garantir que os soldados possam utilizar nossas estradas e portos com segurança. Por isso, cuidamos de todas as suas necessidades: providenciamos locais para pernoite, alimentação, garantimos sua segurança e os conduzimos pela nossa rede viária."
O plano também prevê medidas para o transporte no sentido inverso, de leste para oeste, como a passagem de soldados feridos ou de civis em fuga.
A ordem para elaborar o plano foi dada pelo inspetor-geral [chefe] da Bundeswehr, Carsten Breuer, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022. Breuer é o militar de mais alta patente da Alemanha e não é o único preocupado com a possibilidade de novos ataques russos a outros países. A Alemanha já enfrenta diversas provocações atribuídas à Rússia, que vão desde ataques cibernéticos até atos de sabotagem contra a própria Bundeswehr.
Continua depois da publicidade
"Moscou está testando nossa reação"
Uma nova dimensão da ameaça surgiu no início de agosto, com uma tentativa de atentado no Aeroporto de Leipzig-Halle. Uma aeronave não tripulada carregando explosivos foi utilizada no ataque e só não explodiu por sorte.
O governo alemão responsabilizou a Rússia pelo incidente. "A ameaça está se tornando mais concreta. Ela é séria, é imediata e está cada vez mais visível. É exatamente isso que o presidente russo deseja. Moscou está testando nossa reação", declarou o ministro alemão da Defesa, Boris Pistorius, ao Bundestag, em 23 de setembro.
A Bundeswehr enfrenta esse cenário de ameaça também por meio do Plano Operacional Alemanha, que vem sendo continuamente aprimorado. As lições aprendidas em exercícios como o Red Storm Charlie são incorporadas ao documento.
Continua depois da publicidade
Segundo Bohnert, o plano também tem uma função dissuasória. "Esperamos impedir a agressão russa demonstrando nossa força, por meio da rápida expansão das capacidades militares e da movimentação altamente organizada e veloz de tropas para as fronteiras."
Estradas e pontes precisam ser renovadas
Outra questão é se a Alemanha está preparada para desempenhar um papel de centro logístico militar. Na visão da especialista Aylin Matlé, um dos pontos fracos é a infraestrutura do país, em parte deteriorada.
Segundo ela, a Alemanha precisa investir "muito mais rapidamente e de forma mais abrangente" na manutenção e reparação de pontes, estradas e vias de transporte por onde passariam os deslocamentos militares.
Continua depois da publicidade
Ela avalia que muitas dessas estruturas remontam à época da Guerra Fria e não foram projetadas para suportar o transporte de cargas pesadas ou equipamentos militares.
Outro desafio é manter o equilíbrio entre o sigilo do plano e o envolvimento da sociedade. Por receio de atos de sabotagem, informações sensíveis, como as rotas exatas de trânsito das tropas da Otan, não devem cair nas mãos da Rússia.
Mas o plano só funciona se houver cooperação entre as Forças Armadas e a sociedade civil, incluindo autoridades municipais, polícia e organizações de ajuda humanitária.
Continua depois da publicidade
"Partes do plano precisam ser acessíveis ao público, pois dependemos da participação da sociedade, dos ministérios e dos governos", afirma Bohnert.
AfD poderia repassar informações à Rússia?
O debate sobre o sigilo do documento, que possui mais de mil páginas, voltou à tona recentemente após o partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) tornar-se a força política mais votada no estado da Saxônia-Anhalt, no leste do país.
Especialistas em segurança manifestaram preocupação de que o partido, considerado em parte de extrema direita e favorável à Rússia, pudesse transmitir informações do plano ao Kremlin caso viesse a liderar o governo do estado.
Continua depois da publicidade
O Ministério alemão da Defesa afirmou que nenhum estado alemão recebe o documento completo e que as partes mais sensíveis do Plano Operacional Alemanha são compartilhadas apenas de forma parcial e estritamente direcionada.
Segundo observadores, o aumento das ameaças híbridas reforça ainda mais a necessidade de sigilo. Durante o exercício Red Storm Charlie, em Hamburgo, os jornalistas credenciados permaneceram sem informações precisas sobre rotas e locais das operações até o último momento devido ao receio de interferências e possíveis atos de sabotagem.
