Internacional

Peru: país que moldou o caminho de Leão até a liderança da Igreja Católica

Religioso viveu mais de 20 anos no país sul-americano, do qual escolheu se tornar cidadão. Passagem por cidades peruanas marcam sua vida e fé

5 min

06/11/2026 09:41 • Atualizado há 2 horas

Peru: país que moldou o caminho de Leão até a liderança da Igreja Católica

Papa Leão XIV

Reuters

O papa Leão XIV inicia nesta sexta-feira (6) uma grande viagem à América Latina. Menos de um mês depois de passar por uma cirurgia para tratar um câncer de pulmão, terá uma agenda cheia de compromissos em 12 dias de viagem pela região que concentra o maior número de católicos do mundo.

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Serão 15 cidades em três países: Argentina, Uruguai e Peru. Neste último, a expectativa da visita começou desde as primeiras palavras de Leão XIV como papa, na Basílica de São Pedro, em 8 de maio de 2025. Na ocasião, saudou em espanhol sua "querida diocese de Chiclayo", cidade peruana onde exerceu o episcopado entre 2015 e 2023, após obter a cidadania peruana.

O líder religioso de 71 anos viveu no Peru por mais de duas décadas, primeiro como missionário e depois como bispo. Lá, ele esteve envolvido com iniciativas sociais voltadas para comunidades mais vulneráveis, como programas para redução da desnutrição infantil, e desenvolveu sua consciência ambiental.

"Eu amo muito o Peru, o povo peruano, e isso faz parte de quem eu sou", disse o pontífice à jornalista Elise Ann Allen, autora de uma biografia sobre o religioso americano naturalizado peruano.

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Mesmo com a descoberta da doença, o "papa peruano" não alterou em nada o itinerário. Estão previstos 36 discursos, todos em espanhol, idioma que o papa utilizará nos encontros com comunidades e autoridades dos três países. Ele realizará no total 14 voos, dois deles de helicóptero.

Ele tem compromisso inclusive em Cusco, cidade peruana na Cordilheira dos Andes, localizada a mais de 3.400 metros de altitude, o que torna a respiração mais difícil. Ainda no Peru, está prevista a primeira missa presidida por um papa na Amazônia.

Quando Robert virou Roberto

Robert Prevost tinha cerca de 30 anos quando chegou ao Peru, em 1985, como missionário enviado pela ordem agostiniana. Sua tarefa era iniciar a transformação em diocese da pequena prelazia de Chulucanas, então uma região marcada pela pobreza em Piura, no norte do país.

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"Sua aproximação com a pobreza teria sido diferente sem conhecer o Peru e colocar os pés na lama, porque não é igual aos Estados Unidos", disse à AFP a teóloga Véronique Lecaros, autora de um livro sobre a trajetória de Prevost no Peru.

Em Chulucanas, a população o acolheu com carinho e adaptou seu nome para o espanhol, passando a chamá-lo de "padre Roberto".

Dois meses após chegar, ele contraiu febre tifoide e foi hospitalizado pela primeira vez na vida, segundo relatou a Allen. Em 1986, retornou aos Estados Unidos, onde passou a cuidar de sua ordem religiosa.

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Trujillo e os anos de violência

Prevost voltou ao país andino em 1988, desta vez para a cidade agroindustrial de Trujillo, cerca de 550 quilômetros ao norte de Lima. Foi sua permanência mais longa no Peru, estendendo-se até 1999.

Ali dirigiu a formação de religiosos agostinianos e deu aulas em um grande seminário local voltado à formação de futuros sacerdotes. Também atuou como pároco e responsável pelo tribunal eclesiástico da diocese.

Naquele período, o Peru atravessava uma das fases mais turbulentas de sua história recente devido à violência do Sendero Luminoso, guerrilha maoísta responsável por massacres e atentados. Em agosto de 1991, o grupo assassinou três sacerdotes estrangeiros, dois poloneses e um italiano, na região de Áncash, também no norte do país.

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A ordem agostiniana sugeriu que os religiosos estrangeiros deixassem o Peru. A Prevost foi oferecida até mesmo a proteção de um guarda-costas. "Eu disse que não. Não pareço o típico americano (...), tenho a pele um pouco mais escura", afirmou o papa a Allen, em 2025. "Era muito importante permanecer ao lado das pessoas que servíamos."

Em 1999, retornou aos Estados Unidos para assumir a liderança dos agostinianos em Chicago, sua cidade natal.

Chiclayo, "minha querida diocese"

Após um intervalo de 15 anos, o Peru voltou a cruzar seu caminho. E, mais uma vez, no norte do país.

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Em novembro de 2014, o papa Francisco o elevou à condição de bispo e o nomeou administrador apostólico de Chiclayo.

Prevost assumiu oficialmente a diocese em 2015 e, para isso, adquiriu a nacionalidade peruana no mesmo ano.

Um de seus primeiros compromissos foi participar da missa de beatificação dos três sacerdotes assassinados em 1991, que a Igreja Católica considera "mártires do catolicismo".

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Ele criou em Chiclayo uma Comissão de Ecologia Integral, alinhada à encíclica "Laudato Si'", de Francisco, que pede o cuidado com o planeta diante dos riscos do consumismo. Como bispo, também enfrentou o poder político. Em 2017, instou o ex-presidente Alberto Fujimori, julgado e preso por violações dos direitos humanos, a pedir "perdão pessoalmente" às vítimas.

Sua missão em Chiclayo terminou em 2023, quando Prevost foi nomeado por Francisco prefeito do Dicastério para os Bispos em Roma, um dos cargos mais elevados no Vaticano, e, posteriormente, cardeal titular da Basílica de Santa Mônica. Exercia essas funções quando foi eleito papa, em maio de 2025.

A Diocese de Chiclayo anunciou que pretende servir ao papa seus pratos favoritos durante a visita, entre eles arroz com pato e ceviche. Também existe a intenção de colocá-lo novamente sobre uma mula para recriar uma famosa fotografia de seus tempos de jovem missionário no interior do norte peruano.

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"Ele volta para casa, e em casa vai encontrar tudo. O que ele deseja é a fé, a simplicidade e a gratidão de um povo que lhe ensinou tanto", afirmou o atual bispo de Chiclayo, Edinson Farfán.

sf (RT, AFP, EFE)