Povoado italiano onde mulheres chegam aos 100 anos intriga cientistas
Idosas de Bolotana, na Itália, têm mais chances de se tornarem centenárias do que mulheres em outras "zonas azuis" do mundo.

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A Sardenha, na Itália, há décadas é conhecida por seus centenários. E não por acaso. Foi justamente nessa ilha que surgiu o conceito das chamadas "zonas azuis", regiões do planeta com concentração excepcional de idosos que atingem essa marca. Entre estas localidades estão Okinawa (Japão), Nicoya (Costa Rica), Ikaria (Grécia) e Loma Linda (Estados Unidos). Todos inspiraram pesquisas, documentários e um amplo movimento dedicado ao estudo da longevidade.
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A fama, porém, também traz questionamentos. Não é novidade que alguns pesquisadores colocam em dúvida a confiabilidade dos registros de nascimento e de óbito utilizados para documentar casos de longevidade extrema.A controvérsia chegou a levar parte da comunidade científica a reavaliar as evidências que sustentam o fenômeno das "zonas azuis".
Ainda assim, o tema continua a despertar interesse. Agora, um estudo novo aponta para outro possível foco de longevidade excepcional, também localizado na Sardenha, mas fora da área tradicionalmente reconhecida como "zona azul". Trata-se de Bolotana, um vilarejo em uma área montanhosa com pouco mais de 2,2 mil habitantes. Ali, as chances de alcançar os 100 anos parecem ser muito superiores às observadas em outras partes do mundo, especialmente entre as mulheres.
Bolotana, a nova candidata à "zona azul"
Segundo estudo publicado na revista científica Frontiers in Aging, mulheres de Bolotana que chegam aos 70 anos têm uma probabilidade estimada de 13,8% de atingir os 100 anos. A base da pesquisa está nos dados de mortalidade analisados entre 2021 e 2025. Para comparação, essa taxa é de 3,5% na Itália e 3,6% nos Estados Unidos.
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Mas isso não é o único dado que torna Bolotana excepcional. De acordo com o site Science Alert, uma mulher de 70 anos em Bolotana tem expectativa de viver, em média, mais 20,85 anos, contra 18,06 anos para a média italiana. Entre as populações internacionais analisadas no estudo, as mulheres do vilarejo só ficam atrás das de Hong Kong nesses dois indicadores de longevidade.
A descoberta também representa uma novidade para a própria Sardenha. "Pela primeira vez em mais de 25 anos, encontramos um local de longevidade fora da zona azul convencional", afirmou o pesquisador Giovanni Mario Pes, principal autor do estudo e um dos criadores do conceito de "zona azul", ao jornal The Guardian.
A diferença é que, enquanto a ilha italiana se destacou pela longevidade masculina, em Bolotana são as mulheres que lideram os indicadores.
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Os números são confiáveis?
A questão é importante, considerando as dúvidas que cercam pesquisas sobre longevidade extrema. Em Bolotana, porém, os cientistas contaram com uma vantagem significativa: o vilarejo preserva arquivos históricos que remontam a vários séculos, permitindo a verificação das idades dos centenários por meio do cruzamento de registros civis e religiosos. "Não há qualquer ambiguidade", afirma S. Jay Olshansky, coautor do estudo e epidemiologista da Universidade de Illinois, em Chicago.
Com base nessa documentação, os pesquisadores identificaram 38 centenários entre as 3.060 pessoas nascidas em Bolotana entre 1900 e 1925, segundo a universidade.
E os exemplos continuam visíveis até hoje. De acordo com o The Guardian, em 2025 a localidade tinha 12 moradores com 100 anos ou mais, em uma população de 2.266 habitantes. Desde então, seis idosos morreram. Na época em que a reportagem foi publicada, as seis sobreviventes eram mulheres. As duas mais velhas tinham 102 anos.
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Isso não significa, porém, que os homens da região tenham baixa expectativa de vida. Segundo dados citados pelo Science Alert, a probabilidade estimada de um homem de Bolotana alcançar os 100 anos após completar 70 anos é de 4,92%, mais que o triplo da média italiana, de 1,41%. Ainda assim, é o desempenho das mulheres que torna o caso impressionante para a comunidade científica.
O segredo para viver 100 anos
O estudo não oferece uma resposta definitiva, e os próprios autores reconhecem isso. Entre as possíveis explicações estão: fatores genéticos, alimentação, atividade física e fortes vínculos familiares. Segundo Olshansky, os moradores caminham mais do que dirigem, grande parte dos alimentos é produzida localmente e as famílias costumam viver próximas umas das outras. Além disso, o isolamento social parece ser raro.
Esse último aspecto foi o que mais chamou a atenção de Pes, cujo bisavô viveu até os 110 anos e cuja mãe atualmente tem 101 anos. Embora evite especulações sem respaldo nos dados, ele destaca as relações sociais "muito intensas e muito reais" das centenárias locais como um fator decisivo.
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Como exemplo, Olshansky citou Giovanna Marras, de 101 anos, que vive com a irmã: as duas cozinham juntas, conversam diariamente e, segundo o pesquisador, não apresentam sinais aparentes de comprometimento cognitivo.
O prefeito de Bolotana, Francesco Manconi, também tem hipóteses próprias sobre a razão de as mulheres ali viverem tanto tempo. Embora reconheça não ser cientista, ele atribui parte da longevidade a uma alimentação fresca e equilibrada, sem renunciar a especialidades locais como a seada — uma sobremesa recheada com queijo — e os mustazzolus — biscoitos condimentados tradicionalmente consumidos no café da manhã.
Manconi também destaca o ambiente natural e o hábito de percorrerem longas distâncias a pé. Segundo ele, alguns idosos, especialmente mulheres, chegam a caminhar até 20 quilômetros por dia em uma cidade que sequer possui academia de ginástica.
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Título de "zona azul" ainda é sonho
Mesmo entusiasmados, os pesquisadores recomendam cautela antes de atribuir a longevidade da população a esses hábitos.
O número reduzido de habitantes gera incertezas estatísticas relevantes, e as estimativas variam de acordo com o período analisado. Segundo o Science Alert, entre 2015 e 2019 a probabilidade estimada de uma mulher de 70 anos chegar aos 100 era de apenas 1,46%, muito distante dos 13,83% calculados para o período de 2021 a 2025. Os autores observam ainda que diferenças metodológicas limitam comparações diretas entre os dois intervalos.
Por isso, o estudo se refere a Bolotana apenas como uma "candidata" a zona azul e defende a realização de observações por mais tempo, antes de confirmar a existência de um padrão consolidado.
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Mesmo com registros confiáveis, ainda será necessário verificar se essa vantagem extraordinária na longevidade se mantém ao longo dos anos.
Para Dan Buettner, coautor do estudo e fundador da Blue Zones Inc., o próximo passo é entender as razões de isso acontecer e se algumas das lições observadas em Bolotana podem ajudar pessoas de outras regiões do mundo a viver mais e melhor.
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