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Beth Goulart revive Clarice Lispector e relata momento espiritual com a mãe

No espetáculo "Simplesmente eu, Clarice Lispector", a atriz descobre novas camadas sobre perdas, feminilidade e a morte

Guilherme Machado
GUILHERME MACHADO

05/06/2026 • 07:00 • Atualizado em 05/06/2026 • 08:55

Poucas escritoras desmembraram o mistério feminino e da alma humana como um todo como fez Clarice Lispector, autora de obras como “A Hora da Estrela” e “A Paixão Segundo G.H". Agora, a obra da artista ganha vida nova no espetáculo “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, estrelado e criado pela atriz Beth Goulart, que mergulhou fundo na obra literária e na vida da romancista para montar a peça, que está em cartaz em São Paulo.

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A montagem estreou originalmente em 2009 e fez grande sucesso durante seis anos. A produção, inclusive, garantiu a Beth prêmios como o Shell de Melhor Atriz. Entretanto, ela precisou parar após a morte de seu pai, o ator Paulo Goulart, em 2014.

“Quando ele faleceu, eu deixei Clarice dormindo um pouquinho e criei um outro espetáculo para minha mãe [a atriz Nicette Bruno], que foi a adaptação e direção do Perdas e Ganhos, que é um texto da Lia Luft que falava sobre isso, sobre o processo da perda. Então, foi muito importante para a minha mãe. Naquele momento, trabalho era vida, era um chamado para a vida, e ela podia, de alguma forma, dar um depoimento lindíssimo sobre a perda que ela havia sofrido, e ajudou muitas pessoas em seus processos de perda”, conta a artista em entrevista ao Band.com.br.

Os anos passaram e Beth novamente sofreu uma perda: sua mãe morreu de Covid-19 em 2020, durante a pandemia.

Em 2024, quando completou 50 anos de carreira, a intérprete decidiu celebrar trazendo de volta o espetáculo que foi um dos grandes marcos de sua trajetória.

Curiosamente, mesmo 10 anos depois, ela percebeu que ainda sabia cada detalhe do texto. Além disso, o contato renovado com a obra de Clarice a fez descobrir mais nuances sobre si mesma, e sobre a própria morte da mãe.

"No Dia das Mães eu fiz esse espetáculo. Nós fizemos uma sessão às 11h da manhã e outra às 19h, que era o horário normal. Essa das 11h era para mães com crianças de colo. Era justamente alguma coisa para que as mães possam assistir ao espetáculo também. Nessa sessão, a minha irmã foi assistir, minha irmã está em cena também fazendo outro espetáculo. E no final do espetáculo eu falo: ‘que eu perca o pudor de desejar que na hora da minha morte haja uma mão humana para apertar a minha’", relata a artista.

Neste momento, Beth sentiu a presença da mãe no palco. E também reviveu a dor da perda mais uma vez.

Quando eu falei isso, haja uma mão humana para apertar a minha, eu lembrei que eu não pude segurar a mão de minha mãe. Naquele momento, no Dia das Mães. Provavelmente ela devia estar perto da gente, ela devia estar presente, porque a minha irmã também estava lá, eu dediquei a ela o espetáculo, dediquei a minha irmã também, mas nesse momento, eu senti uma dor tão profunda na minha alma, porque eu falei: Puxa, eu não pude dar isso à minha mãe, eu pude fazer isso com meu pai, mas com a minha mãe não pude, porque foi Covid

Para atriz, falar sobre a morte no espetáculo, de certa maneira, a faz ganhar camadas mais profundas de uma compreensão sobre o que ela significa.

Força feminina

Em “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, Beth Goulart interpreta a própria escritora e também encarna algumas das personagens dela. Por meio disso, ela mostra não apenas as muitas dimensões de Clarice, mas também da própria ideia do que é ser uma mulher.

A obra da autora está repleta desse encontro com o feminino e sobre a força das mulheres, algo com o que Beth se identifica intensamente.

“A mulher historicamente passou por um processo muito difícil de abafamento, de cerceamento, de aprisionamento. Então a Clarice mostrava uma mulher livre, uma mulher independente, uma mulher dona de si mesma. Eu me identifico com essa mulher. Eu sempre fui assim. Eu sempre fui independente. Eu comecei a trabalhar muito cedo, com 13 anos, quando eu comprei meu carro, comprei minhas coisas, eu pagava minhas aulas, mesmo morando com os meus pais. Eu sempre quis conquistar a minha vida”, destaca a artista.

Beth espera que essas mensagens e outras sejam transmitidas pela peça, para que literatura de Clarice seja ainda mais potente.

Eu espero que essa semente do amor, que vem através das palavras de Clarice, ganhe espaço no coração das pessoas, porque é através da experiência, da troca, dessa valorização do sentir, que a gente vai melhorar nas nossas relações, que a gente vai perceber o outro, que a gente vai se dar melhor para o outro, que a gente vai se dar melhor para a gente mesmo. Através do amor próprio, a gente vai amar melhor o próximo.

Serviço

  • Espetáculo: "Simplesmente eu, Clarice Lispector"
  • Atuação: Beth Goulart
  • Temporada: De 8 de maio a 26 de julho de 2026
  • Horários: Sextas, às 20h; sábados e domingos, às 19h
  • Local: Teatro Moise Safra - Rua Prof. Walter Lerner, 315 – Barra Funda, São Paulo -
  • Vendas online: Plataforma Sympla (Sympla Bileto)
  • Bilheteria física: Abre no local do evento 1 hora antes de cada sessão (pagamento via PIX ou aproximação)

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