A escravidão do "tem que"
Não me lembro de quem nos entregou essa lista. Talvez ninguém tenha feito isso de propósito. Talvez ela tenha sido escrita por milhares de mãos, ao longo de séc

Não me lembro de quem nos entregou essa lista. Talvez ninguém tenha feito isso de propósito. Talvez ela tenha sido escrita por milhares de mãos, ao longo de séculos, até deixar de parecer uma imposição e passar a ser confundida com a própria vida.
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Desde cedo aprendemos que temos que.
Temos que estudar. Temos que entrar na faculdade. Depois descobrimos que a faculdade já não basta. Temos que fazer uma pós-graduação. Um MBA. Um mestrado. Um doutorado. Depois outro curso. Outra especialização. Outra certificação. Como se o conhecimento deixasse de ser uma ferramenta para se tornar uma corrida sem linha de chegada.
Temos que trabalhar muito.
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Temos que guardar dinheiro.
Temos que formar uma família.
Temos que comprar uma casa.
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Temos que comprar um carro. Mas não qualquer carro. O carro precisa dizer aos outros quem somos. E, quando finalmente conseguimos comprar o carro de cem mil reais, descobrimos que agora temos que trocá-lo pelo de duzentos.
Temos que viajar.
Temos que conhecer lugares que rendam boas fotografias.
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Temos que investir.
Temos que ter uma reserva para emergências.
Temos que contratar um excelente convênio médico.
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Temos que subir de cargo.
Temos que produzir mais.
Temos que envelhecer com aparência de juventude.
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Temos que ser interessantes.
Temos que ser produtivos.
Temos que ser felizes.
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Percebe como o verbo nunca descansa?
Em algum momento deixamos de viver para administrar obrigações. E o mais perverso é que muitas delas nem nasceram dentro de nós. Foram plantadas. Regadas. Aplaudidas. Compartilhadas. Até que passaram a parecer desejos pessoais.
Talvez não sejam.
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Vivemos numa época em que o fracasso ganhou novos nomes. Se você está cansado, dizem que lhe falta disciplina. Se está angustiado, dizem que é uma trava emocional. Se não suporta mais correr, afirmam que você tem um bloqueio. Se as coisas não aconteceram no tempo esperado, alguém sempre aparecerá para dizer que é trauma, crença limitante, energia ruim, maldição, falta de propósito ou qualquer outro rótulo que transforme sofrimento humano em defeito de fabricação.
Poucos perguntam uma coisa muito mais simples... e se a pessoa estiver apenas esmagada?
Porque estamos.
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Espremidos entre boletos, expectativas, metas, algoritmos, comparações e um mercado que descobriu uma forma brilhante de lucrar com a nossa eterna sensação de insuficiência.
Nada nunca basta.
Quando você conquista alguma coisa, imediatamente nasce uma nova obrigação. É como diz um texto milenar da Bíblia "É como correr atrás do vento" o cansaço é real, mas não se chega a lugar algum.
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Essa talvez seja a escravidão mais sofisticada que a humanidade já construiu.
Não há correntes.
Não há senzalas.
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Não há feitores carregando chicotes.
A vigilância agora mora dentro da nossa cabeça.
Somos ao mesmo tempo prisioneiros e fiscais de nós mesmos.
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Acordamos cobrando produtividade. Dormimos sentindo culpa porque poderíamos ter feito mais. Descansar virou pecado. Contemplar virou perda de tempo. Dizer "já é suficiente" quase soa como um ato de rebeldia.
E a liberdade?
Talvez ela nem esteja sendo vendida.
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Porque até quando imaginamos que finalmente seremos livres, aparece outro "tem que" esperando na esquina.
Depois que quitar a casa...
Depois que os filhos crescerem...
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Depois da promoção...
Depois da aposentadoria...
Depois que emagrecer...
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Depois que juntar mais dinheiro...
Depois que...
A carta de alforria nunca chega.
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Ela não chega porque o sistema depende exatamente da nossa sensação permanente de que ainda falta alguma coisa.
Não estou defendendo a acomodação. Sonhos continuam sendo importantes. Crescer continua sendo bonito. Construir patrimônio, estudar, viajar, cuidar da saúde e buscar estabilidade fazem sentido.
O problema começa quando tudo isso deixa de ser uma escolha e passa a ser uma obrigação moral. Quando o valor de uma pessoa é medido pelo currículo, pelo saldo bancário, pela quantidade de bens, pelos destinos que visitou ou pela velocidade com que sobe uma escada que talvez nem desejasse subir.
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Há uma pergunta que fazemos pouco, justamente porque ela assusta.
E se eu parar?
Não desistir da vida.
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Parar de obedecer cegamente à lista.
Parar de perseguir expectativas que nunca foram minhas.
Parar de acreditar que felicidade é um prêmio entregue apenas para quem cumpre todas as tarefas.
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Talvez a verdadeira liberdade não seja conquistar tudo.
Talvez seja recuperar o direito de escolher o que realmente merece ocupar a nossa existência.
Porque, no fim, o maior risco não é morrer sem ter conseguido tudo o que diziam que você tinha que fazer.
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O maior risco é descobrir, tarde demais, que viveu uma vida inteira cumprindo uma lista escrita por outras pessoas.
E isso, convenhamos, é uma forma de escravidão para a qual ainda não inventaram carta de alforria.
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