A morte do acaso
Há uma morte silenciosa acontecendo diante dos nossos olhos. Não é a morte da informação , nem da tecnologia , muito menos da liberdade de expressão . É a morte

Há uma morte silenciosa acontecendo diante dos nossos olhos. Não é a morte da informação, nem da tecnologia, muito menos da liberdade de expressão. É a morte do acaso.
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Ela não vem pela censura, nem pela falta de opções. Pelo contrário. Ela chega disfarçada de liberdade.
Nunca houve tantas vozes, tantas possibilidades, tanta gente querendo dizer alguma coisa ao mesmo tempo. E, ainda assim, nunca fomos tão parecidos.
A internet, através das redes sociais e dos algoritmos, começou a padronizar gostos, pensamentos, conceitos e até decisões. O curioso é que isso acontece justamente quando mais se fala em diversidade. Porque até a diversidade entrou em um padrão estético. O diferente ficou igual.
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Achamos que decidimos o que vamos assistir, ouvir, comprar ou pensar. Mas será que decidimos mesmo?
Você acorda, abre o celular e ele já entrega aquilo que acredita que você quer ver. Não aquilo que você escolheu procurar, mas aquilo que um cálculo matemático concluiu que prenderá sua atenção por mais alguns minutos.
Depois vem outro vídeo, outra notícia, outra opinião, outra música, outro produto. E assim seguimos, acreditando que fazemos escolhas, quando muitas delas já chegaram escolhidas.
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Sinto falta de uma experiência que muita gente jamais conhecerá. E quem viveu talvez entenda exatamente a dimensão dessa perda.
Lembro-me de mim e do meu pai, o saudoso senhor Artur Migliari, nos cafés da manhã dos finais de semana. O jornal impresso aberto sobre a mesa fazia parte daquele ritual.
Havia algo quase sagrado em folhear suas páginas e decidir por onde começar. Política? Cultura? Esportes? Economia? Internacional? A escolha era nossa.
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Mas o mais bonito não era apenas escolher. Era ser surpreendido.
Entre uma página e outra, uma reportagem sobre um assunto que jamais procuraríamos chamava nossa atenção. Um tema desconhecido despertava curiosidade. Um ponto de vista diferente nos fazia pensar.
A descoberta não dependia de um algoritmo, mas da nossa disposição de explorar. Talvez tenha sido ali que aprendemos que o mundo é muito maior do que aquilo que imaginamos procurar.
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Hoje o inesperado quase desapareceu.
O acaso sempre foi um dos maiores professores da humanidade. Foi ele quem nos apresentou livros que nunca procuraríamos, músicas que jamais ouviríamos e ideias que mudaram nossas vidas.
O algoritmo, ao tentar acertar sempre, pode acabar nos privando justamente daquilo que mais nos transforma: o inesperado.
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Hoje o algoritmo acredita conhecer nossos gostos e passa a nos devolver apenas versões ampliadas deles. Só que existe uma diferença enorme entre conhecer quem somos e determinar quem continuaremos sendo.
Estamos vivendo uma época curiosa. Somos uma sociedade profundamente polarizada, dividida em grupos, tribos e bolhas.
Ao mesmo tempo, vivemos todos dentro de um mesmo padrão. Repetimos formatos, reproduzimos discursos, consumimos conteúdos parecidos e seguimos caminhos desenhados por sistemas que aprendem conosco apenas para depois nos ensinar o que devemos continuar consumindo.
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A liberdade de pensamento não desaparece de uma vez. Ela vai sendo substituída, lentamente, pelo conforto de não precisar escolher.
Sem perceber, nosso cérebro vai se acostumando. Vai exercitando cada vez menos a dúvida, a curiosidade e a decisão.
Vai deixando que outros escolham por ele.
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Às vezes me vem a imagem de um cérebro acuado, amedrontado diante da própria liberdade, encolhido não pela falta de inteligência, mas pela falta de exercício.
Porque decidir dá trabalho. Pensar exige coragem. E toda capacidade humana que deixa de ser exercitada acaba, aos poucos, perdendo sua força.
Precisamos resgatar um processo quase empírico de viver.
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Voltar a descobrir sem que alguém descubra antes por nós.
Ler o que não apareceu na nossa tela.
Ouvir quem discorda da gente.
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Entrar em uma livraria sem saber qual livro comprar.
Permitir que a curiosidade tenha mais força do que a recomendação.
Porque viver a própria vida exige escolhas. E escolhas de verdade nunca sairão de um algoritmo. Elas nascem da dúvida, do acaso, da curiosidade e da coragem de seguir um caminho que nenhuma máquina poderia prever.
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Talvez a grande liberdade do nosso tempo não seja ter acesso a tudo. Talvez seja recuperar o direito de nos surpreendermos, de mudarmos de ideia e de encontrar, por conta própria, aquilo que jamais um algoritmo imaginaria nos oferecer.
No fim, a pergunta que fica é simples:
Ainda estamos vivendo a nossa própria vida ou apenas a versão dela que alguém programou para nós?
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Porque, quando alguém escolhe tudo por nós, a única coisa que deixamos de escolher é justamente quem queremos ser.
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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
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