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O caso Silvio Tini: entenda a polêmica envolvendo pai e filho

Existem empreendedores que criam o que não existe, outros que escalam o que ninguém escalou.

5 min

28/10/2026 14:17 • Atualizado há 40 min

O caso Silvio Tini: entenda a polêmica envolvendo pai e filho

Arquivo pessoal

Existem empreendedores que criam o que não existe, outros que escalam o que ninguém escalou. João Araújo é de um terceiro tipo: o que entra justamente onde a conta não fecha.

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Ouso dizer que todo empreendedor é movido pela mesma ambição de inovar. A diferença, no entanto, está no que cada um entende por inovação.

Tem quem só reconheça essa vocação ao criar do zero aquilo que o mundo ainda não tinha visto. Tem quem a reconheça ao pegar um produto já existente e escalá-lo a um patamar nunca antes alcançado.

E tem quem a encontre no lugar mais improvável de todos: dentro de um negócio quebrado, que todo mundo já desistiu de salvar.

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A história de hoje é sobre um empresário que, nos últimos anos, escolheu esse terceiro caminho.

João José Oliveira Araújo (mais conhecido apenas como João Araújo) é engenheiro pela FAAP, com formação em economia pela FGV, metalurgia pela Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM) e mineração em Toronto, no Canadá.

Hoje comanda o Grupo Buritipar, conglomerado nascido dentro da Mineração Buritirama e que reúne negócios em manganês, cobre, potássio e logística. Antes de chegar lá, porém, ele era o diretor financeiro de um negócio que praticamente ninguém apostava que fosse sobreviver.

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É difícil separar essa disposição de assumir risco da figura do pai, Silvio Tini de Araújo – hoje o maior acionista individual do Grupo Pão de Açúcar, com 25,8% de participação na companhia. Silvio Tini de Araújo também construiu carreira apostando em negócios que outros consideravam arriscados demais para entrar.

A ironia é que essa mesma característica, compartilhada entre pai e filho, parece ter sido também o que os colocou um contra o outro. Um rompimento que não ficou restrito ao jantar de família. Chegou à Justiça, e segue lá até hoje.

E talvez isso explique por que o próprio João trata a palavra “herança” com tanta reserva: “Nunca recebi nada do meu pai, nem mesmo um real sequer emprestado”, já afirmou. Não herdou capital. Herdou só o instinto de entrar onde ninguém mais quer entrar. Inclusive, comprando do próprio pai, Silvio Tini de Araújo, o direito de provar isso.

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A primeira aposta

A história comercial começa em 2015. A Buritirama carregava um passivo de cerca de R$ 350 milhões, bancos desconfiados e um mercado de commodities em queda livre. Não havia patrimônio pessoal relevante para servir de colchão, nem garantia de que a empresa sobreviveria.

João, então diretor financeiro, assumiu uma dívida para comprar 10% da companhia – o que, proporcionalmente ao passivo da empresa, o tornava corresponsável por algo em torno de R$ 35 milhões.

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Convenhamos: não é o tipo de aposta que se faz pensando em cenário perfeito. É o tipo que se faz quando se decide colocar o próprio futuro na mesma equação do futuro da empresa.

A segunda (e maior) aposta

No fim de 2018, com a Buritirama já em outro patamar, veio o momento que de fato definiu a trajetória. Sílvio Tini comunicou a intenção de vender sua participação de 90% na empresa e sugeriu que o filho também vendesse a dele e seguisse outro caminho.

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João recebeu a mensagem por volta das 22h, numa sala cheia de gente, e, em vez de aceitar a saída, fez uma contraproposta para comprar tudo. O pai, Silvio Tini de Araújo, fixou o valor da empresa em R$ 500 milhões.

João aceitou.

Detalhe: ele não tinha os R$ 500 milhões disponíveis. Precisou convencer os bancos, em pouco tempo, de que aquele negócio ainda tinha futuro.

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Quando o Bradesco executou dívidas de cerca de R$ 100 milhões no meio do processo, João recorreu ao Itaú, apresentou um plano de crescimento, antecipou vendas futuras e conseguiu estruturar a operação. A aquisição saiu do papel.

Entre 2015 e 2018, o faturamento da Buritirama saltou de R$ 80 milhões para R$ 750 milhões, quase dez vezes em três anos. Depois, já com João no controle total, a empresa foi preparada para alcançar R$ 1,5 bilhão em faturamento nos anos seguintes.

É uma curva que, contada isoladamente, pareceria exagero de apresentação de investidor. Mas está documentada na trajetória da própria companhia.

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Depois da aposta

O interessante é o que João fez depois de consolidar esse resultado. Em vez de tratar a recuperação da Buritirama como ponto final, usou a experiência como base para diversificar.

Comprou 38,5% da Paranapanema, até então sob controle de fundos de pensão como Previ e Petros, entrando no setor de cobre. Avançou também para potássio, mirando a dependência estrutural do Brasil por fertilizantes.

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E, em 2021, fechou com a estatal chinesa Minmetals um contrato de fornecimento de manganês com pré-pagamento de US$ 400 milhões, reduzindo a dependência comercial que o grupo tinha de um único grande comprador.

Cada um desses movimentos repete a mesma lógica da aposta original: entrar onde existe um problema concreto, não onde existe apenas uma oportunidade confortável.

Essa trajetória segue com algumas páginas ainda em aberto. A relação com o pai, Silvio Tini de Araújo, permanece em discussão na Justiça.

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E a Buritirama atravessa, também no campo jurídico, um processo relacionado a uma fase mais delicada de sua história, decorrente de disputas comerciais acumuladas ao longo dos anos.

Prefiro mencionar isso com cuidado, porque é um assunto que ainda está sendo decidido nos tribunais, e não cabe a uma coluna de opinião antecipar esse desfecho.

Enquanto isso, João segue adicionando frentes à própria biografia. Em 2025, foi anunciado como novo integrante do conselho consultivo da Salus Optima, healthtech britânica que usa inteligência artificial para otimizar performance humana e mantém parceria técnica de longa data com a McLaren Racing, com clientes como Bayer, PepsiCo e DuPont.

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Para o CEO da Salus Optima, Rodrigo Jesus, o valor de ter João no conselho está na capacidade de conectar tecnologia e ambientes empresariais de grande escala. É uma leitura que faz sentido para quem acompanhou o restante da trajetória.

O que fica

A parte mais interessante dessa história, para mim, não é o bilhão.

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É tudo que veio antes dele: a decisão de comprar 10% de uma empresa endividada quando o risco pessoal era real, a disposição de contrapropor numa sala cheia quando a saída mais fácil era aceitar e ir embora, a capacidade de convencer banco atrás de banco de que um negócio quase morto ainda tinha futuro.

A história de João Araújo não termina num balanço trimestral. Termina, por enquanto, na mesma pergunta que o move desde 2015: onde está o problema que ninguém quer resolver, e o que dá para construir a partir dele?

Conteúdo: Infomoney