Envelhecer... o medo que ninguém admite ter...
Há um assunto que atravessa gerações, mas que raramente aparece nas conversas de forma sincera. Falamos de política, futebol, economia, tecnologia, saúde, mas e

Há um assunto que atravessa gerações, mas que raramente aparece nas conversas de forma sincera. Falamos de política, futebol, economia, tecnologia, saúde, mas evitamos admitir um medo que, em algum momento, alcança praticamente todos nós... o medo de envelhecer... o medo da finitude, o medo de estar sem o controle de absolutamente nada a respeito da nossa longevidade, mesmo que você já tenha sido iludido de que pode acrescentar dias à sua vida...
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É curioso perceber que esse medo nem sempre existiu da forma como o conhecemos hoje. Nossos avós queriam viver bastante para ver os netos crescerem, acompanhar a família e aproveitar o tempo que lhes fosse concedido. Não havia algo concreto ou sedimentado na mente deles de que um dia isso tudo chega ao fim e de que vamos mudar nossa aparência e ter certas dificuldades motoras e cognitivas... Queríamos passar nossos dias apenas vivendo as nossas rotinas... Pensávamos menos... Tínhamos mais apreço pelo agora... Estávamos mais inteiros no hoje, e isso nos levava a uma vida longa... Quantos de nós tivemos boas lembranças com nossos avós, e alguns mais afortunados puderam ter boas lembranças até com seus bisavós... Hoje continuamos querendo uma vida longa, mas com uma condição... que ela não deixe marcas. Queremos acrescentar anos à vida, desde que o espelho não denuncie essa passagem... Queremos estagnar esteticamente na casa dos 30 anos...
Talvez nunca a humanidade tenha investido tanto dinheiro para parecer mais jovem. Cremes, suplementos, cirurgias, harmonizações faciais, tratamentos capilares, academias abertas vinte e quatro horas por dia, dietas milagrosas, canetas das mais variadas possíveis e uma indústria inteira construída sobre uma promessa sedutora... convencer das formas mais desonestas e espúrias, e garantir às pessoas que é possível negociar com o tempo.
E o tempo, esse parceiro de humor que eu tenho comigo, adora rir das nossas negociações.
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A cada aniversário, parece que ouvimos a mesma frase... "Nossa, como o tempo passou rápido!". Mas será que passou rápido ou fomos nós que deixamos de prestar atenção nele? Talvez a correria da vida tenha roubado a percepção de que envelhecer não acontece de uma hora para outra. É um processo silencioso, quase imperceptível, até que um dia encontramos uma fotografia antiga e nos perguntamos quando aquele jovem deixou de existir.
As redes sociais também mudaram completamente nossa relação com a idade... E, na minha opinião, para pior... Nunca estivemos tão expostos. Nunca nos comparamos tanto com pessoas que já não são reais, porque elas próprias já são cópias de outras pessoas, gerando um efeito cascata irreversível... Um aplicativo suaviza rugas, outro afina o rosto, outro clareia a pele. Aos poucos, deixamos de mostrar quem somos para exibir uma versão editada de nós mesmos. O problema é que o espelho da vida real e o seu porta-retrato interno não possuem filtro.
E talvez seja justamente aí que nasça boa parte da angústia e o que eu chamo de histeria da longevidade...
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Vivemos cercados por mensagens que associam juventude ao sucesso, à beleza, à felicidade e até à competência. Como se envelhecer significasse perder valor. Como se os cabelos brancos apagassem a inteligência. Como se algumas rugas fossem capazes de diminuir uma história inteira... Temos visto o etarismo, na sua pior forma, crescer cada vez mais...
Mas basta observar as pessoas que mais admiramos para perceber que quase nunca admiramos a aparência delas. Admiramos suas experiências, sua serenidade, sua coragem, a forma como enfrentaram dificuldades e transformaram cicatrizes em sabedoria, admiramos seus abraços, seus afetos, sua proximidade, sua preocupação conosco... coisas e sentimentos que começaram a figurar apenas em lembranças...
Há uma diferença enorme entre cuidar da saúde e fugir desesperadamente da idade. Cuidar do corpo é um gesto de respeito consigo mesmo... e, às vezes, até mesmo de punição, mas vou deixar esse viés para uma outra oportunidade... Já viver tentando impedir o tempo de passar pode se transformar em uma prisão. Quando isso acontece, cada aniversário deixa de ser uma celebração para virar um lembrete de algo que gostaríamos de esconder.
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É uma guerra injusta. E perdida antes mesmo de começar... Não comece!
Mas talvez estejamos olhando para o problema errado.
Talvez o medo da velhice não seja exatamente das rugas, dos cabelos brancos ou das limitações do corpo. Talvez tudo isso seja apenas um lembrete de algo muito mais difícil de encarar... nossa própria finitude.
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Cada aniversário, por mais alegre que seja, nos lembra que o tempo não anda para trás. Cada fotografia antiga nos mostra uma pessoa que já não existe exatamente daquela forma. O espelho muda. O corpo muda. Os planos mudam. E, aos poucos, percebemos que a vida é uma estrada de mão única, e com um único destino... Um único!
É curioso. Quase ninguém diz que tem medo da morte. Eu digo! Falamos dela como se fosse um assunto distante, reservado aos outros. Evitamos pronunciar a palavra. Mudamos de assunto quando ela aparece. Agimos como se ignorá-la fosse suficiente para mantê-la longe, e falar sobre ela abreviasse nossos dias...
Mas basta observar nosso comportamento. Escondemos a idade. Lutamos contra qualquer sinal do tempo. Compramos promessas de juventude. Buscamos parecer eternamente jovens. Talvez não estejamos fugindo da velhice. Talvez estejamos tentando esquecer que somos passageiros.
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O filósofo francês Michel de Montaigne escreveu que "filosofar é aprender a morrer". A frase pode soar dura, e é, de fato, um soco na cara, mas talvez carregue uma enorme sabedoria. Aceitar que a vida tem fim não torna a existência mais triste. Ao contrário. Faz com que cada momento tenha mais valor.
Porque é justamente a finitude que torna a vida preciosa.
Se soubéssemos que viveríamos para sempre, nessa dimensão chamada Terra, talvez nunca disséssemos "eu te amo" hoje. Talvez deixássemos para viajar no ano que vem, para pedir perdão no mês seguinte, para abraçar nossos pais na próxima visita ou brincar com nossos filhos "quando sobrasse tempo". A eternidade aqui na Terra nos faria protelar todas essas atitudes...
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É a consciência de que o tempo é limitado que transforma um café com um amigo em algo especial, um almoço de domingo em família em uma lembrança eterna e um simples pôr do sol em um espetáculo, um novo aprendizado em algo para se saborear... um recomeço depois de uma queda em algo que nos revigora...
Talvez o maior problema não seja a morte. Talvez seja viver como se nunca fôssemos morrer e, por isso mesmo, desperdiçar dias, anos e oportunidades que jamais voltarão.
Também existe um preconceito silencioso contra a velhice. Em muitos ambientes profissionais, pessoas mais experientes são vistas como ultrapassadas antes mesmo de demonstrarem sua capacidade. Em alguns círculos sociais, parece existir uma obrigação permanente de acompanhar todas as tendências, conhecer todas as tecnologias e agir como alguém vinte anos mais jovem. E isso eu conheço bem, faz parte do meu dia a dia. Como se a maturidade fosse sinônimo de atraso...
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Entretanto, basta conversar alguns minutos com alguém que realmente viveu para entender que a idade oferece presentes que nenhuma juventude consegue comprar. Nenhum!
Os anos ensinam que quase tudo passa. Ensinam que algumas discussões nunca valeram a pena. Ensinam que pedir desculpas é mais inteligente do que insistir em ter razão. Ensinam que dinheiro resolve muitos problemas, mas não compra tempo. E talvez essa seja a maior lição de todas.
A juventude nos dá velocidade. A maturidade nos dá direção para seguir em frente...
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Conheço pessoas de oitenta anos cheias de curiosidade, bom humor e vontade de aprender. E conheço gente de trinta que já desistiu de sonhar. O que envelhece primeiro nem sempre é o corpo. Às vezes, é a esperança... Muita gente com obstinação por um rosto jovem, por um corpo "sarado", amarga, algumas vezes, o mais profundo vazio e, quando se dá conta de que está buscando algo inalcançável, já é tarde demais...
Como humorista, tenho algumas referências de grandes personalidades da escrita do humor, como Luiz Fernando Verissimo, que foi cirúrgico em uma de suas crônicas, chamada "A Outra". Ele é bastante irônico sobre a obsessão por parecer jovem... Ele conta a história de uma mulher que fez tantas cirurgias plásticas para evitar o envelhecimento que acabou sendo trocada pelo marido por uma mulher mais velha, de cabelos grisalhos, que nunca havia feito plástica. A provocação é clara, as tentativas desesperadas de vencer o tempo podem acabar nos afastando justamente da beleza da autenticidade natural de quem se é verdadeiramente...
Talvez o verdadeiro desafio não seja impedir que o rosto mude. O desafio seja impedir que o coração endureça, que a curiosidade desapareça e que a capacidade de se encantar com a vida seja levada pelo tempo.
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No fim das contas, talvez a pergunta correta não seja "como evitar envelhecer?", mas "como envelhecer bem?". Como chegar ao fim da vida olhando para trás com gratidão, e não apenas com arrependimentos.
Não existe creme que devolva o tempo. Não existe cirurgia capaz de apagar uma vida mal vivida. Não existe caneta mágica que vá reescrever e remontar momentos que ficaram para trás e nos quais você não estava lá inteiro, porque estava preocupado com as medidas da sua cintura, com seu transplante capilar, com sua lipo de papada, com sua remodelada de maxilar, com sua barriga seca e chapada...
Mas existe algo que pode tornar qualquer idade bonita... viver intensamente, amar sem economia, cultivar amizades, construir lembranças, aprender coisas novas e nunca perder a capacidade de se emocionar.
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Porque envelhecer não é o oposto da juventude.
É o privilégio de quem continuou vivendo.
E talvez o verdadeiro oposto da vida não seja a morte.
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Seja o medo de viver envelhecendo enquanto ainda há tempo.
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