Faixa Azul aumenta mortes de motociclistas em cruzamentos, aponta estudo
Pesquisa da USP e parceiros indica que acidentes fatais subiram até 120% após sinalização; prefeitura de São Paulo contesta dados e cita redução.

A implantação da Faixa Azul em São Paulo aumentou, em média, de 100% a 120% os acidentes fatais com motociclistas em cruzamentos. A conclusão é de um estudo realizado por um consórcio entre USP, UFC e Instituto Cordial, em parceria com a organização Vital Strategies. O levantamento aponta que a sinalização especial, criada em 2022, gerou um aumento expressivo na velocidade média das motos, que subiu de 58,3 km/h para 72,2 km/h.
Continua depois da publicidade
De acordo com a pesquisa, o projeto-piloto paulista — que já soma 233,3 quilômetros em 46 vias — criou um "corredor de aceleração". Os dados revelam que 96% dos motociclistas trafegam acima de 50 km/h e 81% superam os 60 km/h nesses trechos. Em vias sem a intervenção, apenas 35% ultrapassam a marca dos 60 km/h.
O paradoxo da segurança
O coordenador do estudo e professor da Escola Politécnica da USP, Mateus Humberto, explica que a reorganização do fluxo gerou um efeito colateral grave. Segundo o especialista, embora o motociclista ganhe fluidez no meio da quadra, ele chega ao cruzamento com muito mais energia. "Quando o impacto ocorre a 70 ou 80 km/h, os resultados são dramáticos", afirma Humberto.
O relatório destaca um paradoxo: enquanto motociclistas relatam sensação de conforto e pertencimento, essa percepção de segurança induz comportamentos arriscados. O uso de drones e ferramentas de georreferenciamento indicou que a marcação no solo cria uma ilusão de "pista livre", estimulando velocidades acima do limite legal de 50 km/h.
Continua depois da publicidade
Cenário de violência no trânsito
O debate sobre a eficácia da Faixa Azul surge em meio ao agravamento da violência viária no Brasil. Em 2024, o país registrou 36.403 mortes no trânsito, sendo 14.994 motociclistas. Em São Paulo, das 1.029 mortes registradas, quase 47% envolveram veículos de duas rodas.
Atualmente, a sinalização atende cerca de 500 mil motociclistas por dia na capital paulista, e a meta municipal é atingir 400 quilômetros até 2028. Para Ezequiel Dantas, diretor da Vital Strategies, os dados exigem cautela na expansão do projeto. "Gestão de velocidade e fiscalização já se mostraram mais eficazes na prevenção de mortes", avalia.
Prefeitura contesta levantamento
Procurada, a Prefeitura de São Paulo lamentou os resultados do estudo e afirmou que dados oficiais indicam redução de mortes nas vias com Faixa Azul. Segundo a gestão municipal, os óbitos caíram de 29 para 22 casos entre 2022 e dezembro de 2025. A administração também sustenta que a velocidade média das motos nessas vias é de 49,5 km/h, dentro do limite regulamentado.
Continua depois da publicidade
O município ressaltou que não existem registros oficiais específicos sobre acidentes em cruzamentos e que os dados da CET estão disponíveis apenas até 2021, pois o monitoramento passou ao Detran-SP em 2022. No entanto, os números consolidados mostram um crescimento geral das fatalidades com motociclistas na capital desde o início do programa, saltando de 446 mortes em 2022 para 536 em 2025.
O relatório técnico será decisivo para a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), que deve definir se a Faixa Azul será incorporada ou não à legislação nacional.
