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Lavar a Égua

O que revela a inteligência de alguém é uma simples pergunta feita na hora certa

2 min

19/06/2026 08:27 • Atualizado há 74 dias

Lavar a Égua

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Era setembro de 1988.

O Brasil respirava democracia.

Faltavam poucas semanas para as eleições municipais e, no ano seguinte, os brasileiros escolheriam o primeiro presidente pelo voto direto depois de quase três décadas.

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Naquele período eu integrava a equipe que produzia programas eleitorais do então candidato a prefeito de Campinas pelo recém-criado PSDB, Valderlei Simionato.

Em determinado momento da campanha, a coordenação conseguiu trazer um reforço de peso.

O senador Mário Covas.

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A missão era simples: gravar um depoimento de apoio ao candidato campineiro.

Covas chegou sorridente, cumprimentou a equipe e foi direto conversar com os coordenadores da campanha.

Ouviu atentamente as explicações sobre a cidade, os projetos e as propostas de governo.

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Quando terminaram, decretou:

— Podemos gravar.

O diretor da campanha, João Batista Olivi, imediatamente colocou a equipe em movimento.

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Posições definidas.

Câmera ajustada.

Silêncio no estúdio.

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Orientações passadas.

Tudo pronto.

Ao receber o sinal de gravação, Covas caminhou pelo cenário e gravou o texto inteiro de uma só vez.

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Sem tropeçar.

Sem interromper.

Sem errar um nome.

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Sem pedir uma segunda tentativa.

A equipe se entreolhou.

Aquilo não era exatamente comum.

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Quem trabalhava com gravações políticas já estava acostumado a repetir o mesmo texto várias vezes.

João Batista, precavido, sugeriu:

— Senador, vamos gravar mais uma por segurança?

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Covas balançou a cabeça.

— Se essa ficou certa, não precisa outra.

E ficou por isso mesmo.

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Pouco antes de deixar o estúdio para acompanhar o candidato pelas ruas da cidade, um editor contratado pela campanha comentou, animado:

— Nossa... imagine esse homem candidato a presidente no ano que vem. Com mais recursos de campanha e chance de vitória... vamos lavar a égua!

Covas, que já se afastava, parou.

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Olhou para o rapaz.

E perguntou com absoluta naturalidade:

— Lavar a égua? Por acaso vocês vão trabalhar em um circo?

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A gargalhada foi geral.

A gravação terminou.

A agenda continuou.

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Mas a resposta atravessou os anos.

Na comunicação, costumamos admirar os grandes discursos, os argumentos elaborados e as frases históricas.

Mas, às vezes, o que revela a inteligência de alguém é uma simples pergunta feita na hora certa.-----

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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.

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