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O dia em que eu interrompi o prefeito — e o ouro olímpico

Era agosto de 1992 . A seleção masculina de vôlei do Brasil conquistava, em Barcelona , a primeira medalha de ouro olímpica da nossa história. O país inteiro vi

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30/04/2026 18:32 • Atualizado há 123 dias

O dia em que eu interrompi o prefeito — e o ouro olímpico

Era agosto de 1992.

A seleção masculina de vôlei do Brasil conquistava, em Barcelona, a primeira medalha de ouro olímpica da nossa história.

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O país inteiro vibrava. E, em Campinas, não era diferente.

O então prefeito Jacó Bittar organizou uma cerimônia no Paço Municipal para homenagear o levantador Maurício, filho ilustre da cidade e campeão olímpico.

Secretários perfilados.Terno alinhado.Mesa de comes e bebes pronta.Imprensa convocada.

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E eu… atrasado.

Naquela época, não existia celular. Repórter de rádio trabalhava com um Motorola na mão e muita fé. Quando apertávamos o PTTPush-to-Talk —, por uma engenharia quase mágica, nossa voz saía ao vivo na programação.

Eu estava no elevador, subindo para o quarto andar do Paço, ouvindo pelo radinho de pilha o programa Notícias na Tarde.

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De repente, o apresentador me chama:

Valter Sena, boa tarde… a cerimônia em homenagem ao nosso levantador Maurício já começou?

Eu ainda nem tinha chegado.

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Ali eu tinha duas opções:

  1. Dizer que estava a caminho e pedir alguns minutos.
  2. Fingir que estava tudo sob controle.

A juventude escolheu a segunda.

Saí do elevador correndo, atravessei a antessala como um velocista olímpico e empurrei a porta do gabinete do prefeito com a delicadeza de um aríete medieval.

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A cerimônia parou.

Todos viraram a cabeça.

Secretários. Convidados. O prefeito.

E, para coroar o momento, o plugue do meu fone escapou. O som do radinho foi direto para o alto-falante.

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Valter Sena, boa tarde…

O eco tomou conta da sala.

Tentei falar. Nada.

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Na correria, o PTT tinha desconectado.

O apresentador insistia do estúdio.

Eu respondia para ninguém.

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A sala inteira assistia à cena.

Até que o chefe de gabinete se aproximou, sereno:

— Por favor, desligue esse equipamento. O senhor está atrapalhando a cerimônia.

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Ali caiu a ficha.

Desliguei o rádio. Respirei. Fiquei.

Acompanhei a homenagem. Fiz as entrevistas gravadas depois. A matéria foi ao ar mais tarde.

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Mas aquela entrada triunfal — que de triunfal não teve nada — ficou marcada na minha memória.

Com o tempo, aprendi algo simples: admitir que você ainda não chegou costuma ser menos constrangedor do que fingir que já está pronto.

Hoje, conto essa história para estudantes quando falo sobre a profissão. Falo das grandes coberturas, das emoções ao vivo, das vitórias.

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E também falo do dia em que interrompi uma cerimônia olímpica… antes mesmo de conseguir entrar no ar.

Porque jornalismo é isso.

Às vezes, você aperta o PTT na hora certa.

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Às vezes, aprende, ao vivo, que precisava ter esperado cinco minutos.

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