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O Minuto de Silêncio

Era março de 2001, e uma tragédia chocava o Brasil: a plataforma P36, na Bacia de Campos-RJ, havia afundado devido a falhas operacionais e de manutenção. Das 17

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23/04/2026 16:33 • Atualizado há 130 dias

O Minuto de Silêncio

Era março de 2001, e uma tragédia chocava o Brasil: a plataforma P36, na Bacia de Campos-RJ, havia afundado devido a falhas operacionais e de manutenção. Das 175 pessoas a bordo, 11 morreram, todas da equipe de emergência.

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O país reagiu com protestos de petroleiros, e a Rádio Tracajá preparou um esquema especial de cobertura. Na madrugada do dia 20, eu fui destacado junto com Paolo Guerra, supervisor técnico e motorista, para acompanhar o protesto em frente à Refinaria de Paulínia, a Replan.

Paolo era destemido: chuva, curva, estrada escorregadia? Nada o detinha. A viagem já era uma aventura: ele acelerava, ziguezagueava, enquanto eu revisava as pautas e preparava os boletins do jornal das 6h. Passamos pelo carro de som do sindicato, mas Paolo estava tão rápido que só deu para ver um borrão.

Chegamos à refinaria com antecedência. Cruzes brancas marcavam as vítimas, e o silêncio do protesto contrastava com a tensão do ar da madrugada. Eu me preparava para entrar ao vivo quando o telefone de Paolo tocou. Ele atendeu como um trovão:

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— ALÔ!!! — Berrou, interrompendo o silêncio.

Do outro lado, alguém do comercial queria confirmar a entrada de um anúncio de última hora.

O que se ouviu a seguir foi uma sequência de impropérios que ecoaram pelo estacionamento. Paolo, indignado com a ligação às seis da manhã, despejava sua fúria sem perceber nada ao redor.

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Eu tentei avisar, apontei para fora do carro. Paolo não notou.

Do lado de fora, dezenas de trabalhadores estavam de mãos dadas, cabeças curvadas. Um padre conduzia um minuto de silêncio pelas vítimas da plataforma.

Quando Paolo finalmente desligou o telefone, o silêncio já tinha sido quebrado havia algum tempo.

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O padre encerrou a oração:

— Muito obrigado por esse minuto de silêncio.

Os trabalhadores levantaram os olhos e olharam diretamente para a viatura da rádio.

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Não era exatamente gratidão.

Paolo respirou fundo, deu um soco no volante e, ainda irritado, culpou o mundo.

Mas ali ficou uma lição simples e dura: no jornalismo, não basta estar no lugar certo. É preciso entender o momento.

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O volume errado, na hora errada, pode falar mais alto do que qualquer boletim ao vivo.

Alguns nomes de empresas e personagens foram alterados para preservar pessoas e instituições. Entre eles, a fictícia Rede Tracajá de Rádio e TV, usada como referência às emissoras onde trabalhei ao longo da carreira.

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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.

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