Oinegue: O truque de criar um debate para escapar de uma explicação
Autoridade adora um truque. E um desses truques é inventar um debate para fugir de uma explicação ruim. Surge uma pergunta incômoda e, em vez de responder, a au

Autoridade adora um truque. E um desses truques é inventar um debate para fugir de uma explicação ruim. Surge uma pergunta incômoda e, em vez de responder, a autoridade joga um bode na sala. Foi o que fez o ministro Flávio Dino, do Supremo.
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Um jornalista maranhense, Luís Pablo Almeida, publicou reportagens dizendo que Dino e familiares usaram veículos do Tribunal de Justiça do Maranhão para fins particulares. Inclusive para ir à praia. Dino poderia explicar, pedir direito de resposta ou processar o jornalista. Mas o caso foi parar na Polícia Federal, que investigou o jornalista, apreendeu equipamentos e chegou à identidade de uma fonte, o que é uma agressão ao sigilo da fonte. Aí veio o truque.
Poucos dias depois, numa sessão do Supremo sobre outro assunto, Dino propôs rediscutir a decisão de 2009 do próprio STF que acabou com a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo. Segundo ele, a decisão estendeu garantias jornalísticas a qualquer blogueiro. O “blogueiro qualquer” tinha nome: Luís Pablo, autor das reportagens sobre Dino. Mas o que o diploma tem a ver com isso? Dino usou ou não o veículo? Os familiares usaram ou não? Diploma universitário tem uma função certificadora. É a universidade atestando que alguém estudou determinados conteúdos e cumpriu certos requisitos.
Outra coisa é transformar o diploma numa licença sem a qual o Estado proíbe o exercício profissional. Uma empresa de comunicação pode exigir jornalistas formados em Jornalismo. Mas pode contratar também pessoas formadas em História, Sociologia, Filosofia ou Direito. Porque o Jornalismo não guarda a mesma relação com o conhecimento técnico indispensável de outras profissões. Não faz sentido um hospital ter o direito de “preferir” cirurgiões formados em Medicina. Tem que ser médico.
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Não dá para ser médico sem estudar anatomia, fisiologia, patologia, farmacologia, microbiologia. A mesma lógica vale para Odontologia e determinadas atividades da Engenharia. No Jornalismo é diferente. Uma boa faculdade pode formar jornalistas melhores. Mas alguém formado em História, Direito, Economia, Sociologia ou outro bom curso superior pode atuar como jornalista.
Claro, se souber apurar informação, que é o que jornalista faz. O diploma em Jornalismo qualifica — e qualifica —, mas outras formações podem acrescentar conhecimentos igualmente valiosos à profissão. Jornalismo é procurar informações, examinar documentos, confrontar versões, entrevistar, checar e publicar o que foi possível demonstrar. Isso pode ser aprendido.
Ministro do Supremo discutindo diploma de Jornalismo depois de ser alvo de reportagens que o irritaram é uma óbvia cortina de fumaça e uma certa vingancinha. Em vez de discutir a formação de quem publicou, existe uma pergunta muito mais importante. Onde a reportagem errou? Porque, até agora, isso não ficou demonstrado.
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