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Quando uma câmera virou metralhadora

No início dos anos 90 houve um princípio de rebelião na Cadeia Pública de Limeira . Era um sábado de sol quando o chefe de reportagem André Camarão me escalou p

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30/07/2026 15:07 • Atualizado há 32 dias

Quando uma câmera virou metralhadora

No início dos anos 90 houve um princípio de rebelião na Cadeia Pública de Limeira. Era um sábado de sol quando o chefe de reportagem André Camarão me escalou para cobrir a ocorrência.

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Como repórter "pau para toda obra" da TV Tracajá, afiliada do SBT na época, aceitei a missão sem imaginar que aquela cobertura duraria mais de 24 horas.

O cinegrafista Pedro Sardeli, o operador de VT Alexandre Guimarães, o motorista Moacyr Nicolucci e eu embarcamos na Caravan azul da emissora e seguimos para Limeira.

No local descobrimos que o motim era liderado por um detento conhecido como "Querosene".

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Em protesto contra a transferência de presos da unidade, ele incendiou colchões, fez um carcereiro refém e ameaçava matá-lo caso suas exigências não fossem atendidas. Pedia melhores condições na carceragem, mais tempo de banho de sol e outras reivindicações.

A cadeia ficava na região central da cidade e rapidamente virou o principal assunto de Limeira. O perímetro foi isolado pela polícia, mas uma multidão se formou atrás das fitas de segurança.

A cela onde Querosene estava era pequena. O único contato visual acontecia por uma estreita janela gradeada voltada para uma rua lateral.

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Nossa equipe conseguiu montar uma espécie de acampamento na casa de moradores que ficava exatamente em frente ao presídio. Com a generosidade da família, passamos a trabalhar protegidos por uma pequena mureta dentro do terreno.

Ela escondia nossos corpos e permitia apenas que Pedro Sardeli levantasse a câmera de vez em quando para registrar a negociação entre policiais e o amotinado.

As horas passaram e nada.

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No fim da tarde, a polícia acionou o GER — Grupo Especial de Resgate, de São Paulo.

O sol desapareceu e a equipe ainda não havia chegado.

Percebendo que permaneceríamos ali por muito tempo, moradores da vizinhança começaram a nos levar café, água e lanches. Um gesto simples que nunca esqueci.

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Foi já durante a madrugada que os carros pretos finalmente apareceram.

Os policiais desembarcaram usando uniformes escuros, armamento pesado, toucas cobrindo todo o rosto e luvas. A impressão era de que finalmente a situação caminhava para um desfecho.

Um deles assumiu imediatamente o comando da operação.

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Pediu a planta do prédio, analisou o desenho em poucos segundos e começou a distribuir ordens. Mandou posicionar atiradores de elite nos telhados ao redor da cadeia.

Apesar da touca, era possível enxergar apenas os olhos, com traços orientais.

Não demorou para que nossa equipe lhe desse um apelido:

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Ninja.

E passamos horas repetindo a mesma pergunta:

— Será que o Ninja vai entrar?

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— Será que o Ninja vai jogar bomba de gás?

— Será que o Ninja vai falar com a imprensa?

Enquanto isso, ele seguia negociando.

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Pedia calma, explicava que o prédio estava cercado e insistia para que Querosene libertasse o carcereiro e se rendesse.

Mas o preso permanecia irredutível.

Por volta das quatro da manhã, os dois começaram a discutir em tom muito mais agressivo.

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O Ninja fez alguns gestos tentando acalmá-lo.

Em seguida atravessou a rua em nossa direção.

Engolimos seco.

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Ele se abaixou atrás da mureta e falou quase sussurrando:

— Vocês estão loucos?

Olhei sem entender.

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Ele continuou:

— Parem de apontar essa câmera para lá. Ele achou que era um policial com uma metralhadora e quase atirou dentro da cela!

Respondi imediatamente:

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— Explique que somos da imprensa. Nossa presença aqui é justamente uma garantia para ele.

O Ninja balançou a cabeça.

— Foi a primeira coisa que eu disse. Mas ele não acreditou.

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Naquele instante percebemos um risco que jamais havia passado pela nossa cabeça.

Vista de frente, especialmente na escuridão, a antiga câmera de TV podia realmente lembrar uma arma longa.

A solução foi simples.

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Pedro passou a levantar o equipamento de outro ângulo, mostrando sua lateral. Pela silhueta já era possível perceber que aquilo era uma câmera de televisão.

A tensão diminuiu imediatamente.

As negociações seguiram até o amanhecer.

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Pouco depois das nove da manhã de domingo, a repórter Rosângela Rozam chegou para me substituir. Tudo indicava que a ocorrência ainda demoraria muitas horas para terminar.

Ela acompanhou a reta final até que Querosene finalmente decidiu se entregar.

No fim, aconteceu uma situação curiosa.

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Ela imaginou que eu fecharia o VT, afinal acompanhei praticamente toda a cobertura. Eu, por outro lado, achei que fazia mais sentido ela escrever a reportagem, já que estava presente no desfecho.

Resultado: a chefia reuniu nossas imagens, montou um texto único na redação e o apresentador narrou a matéria.

E há um último detalhe que eu não poderia deixar de contar.

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Aquela repórter que chegou para me render naquela manhã de domingo acabaria, alguns anos depois, se tornando minha esposa. Mas essa já é outra história.

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