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"Meu filho não sobreviveu": mãe relata dor de perder o bebê horas após o parto

"Transformei lágrimas em coragem": Ariely conta como enfrentou o luto de perder o filho logo após o nascimento

10 min

07/10/2025 17:56 • Atualizado há 294 dias

"Meu filho não sobreviveu": mãe relata dor de perder o bebê horas após o parto

Algumas feridas nos ensinam a caminhar de novo, e algumas esperanças nascem exatamente no lugar onde a dor insistiu em ficar. Aos 14 anos, Ariely conheceu Abraão, e o que começou como uma amizade logo se transformou em amor. Casados, eles sonhavam em ser pais, mas decidiram esperar o momento certo. Quando finalmente engravidaram de Artur, viveram uma gestação tranquila e cheia de amor, mas uma complicação inesperada no parto transformou o sonho no maior sofrimento de suas vidas. Leia o relato completo no Quem Ama Não Esquece, da Band FM, de segunda-feira (6).

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Eu tinha 14 anos quando conheci o Abraão. Ele era primo do meu padrasto, e logo se tornou meu amigo. Com o tempo, essa amizade foi crescendo e a gente percebeu que tinha alguma coisa a mais acontecendo. Mas só depois de um ano, assim, foi que nós começamos a namorar. Foram dois anos de namoro até que, quando completei 18, nos casamos.

Eu sempre sonhei em ser mãe, e o Abraão também falava muito disso, mas, apesar da pressão que os outros faziam para que eu engravidasse, a gente resolveu esperar.

- Eu quero muito ser pai, você não tem ideia, mas... mas eu acho que ainda não é a hora.

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- Eu concordo com você. Nós somos muito novos e, primeiro, a gente precisa se estabilizar.

- É o certo a se fazer. Às vezes a gente tem que se fazer de surdo com essas cobranças dos outros, porque ter filho envolve muita responsabilidade e muita conta pra pagar.

A nossa prioridade, naquele momento, era cuidar da nossa vida profissional. O meu marido seguiu a mesma carreira do pai, trabalhando com van escolar. E eu me formei em pedagogia. Depois, tanto ele quanto eu passamos em concurso público, e isso trouxe a segurança que a gente precisava em relação a nossa vida financeira.

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A realização do sonho mais esperado

Depois de 5 anos de casados, quando a gente já tinha uma condição mais tranquila, a gente começou a tentar, mas eu não esperava que fosse acontecer tão rápido! Pela primeira vez na vida, com 24 anos, eu fiz um teste de gravidez sem nem esperar nada e, para a minha surpresa, deu positivo!

Quando eu contei para o Abraão, ele ficou super animado e, ao mesmo tempo, assustado. A gente tinha planejado, mas mesmo assim bateu aquele monte de medos. Era um mix de sentimentos: eu queria muito estar grávida, mas junto vinha uma insegurança enorme. Principalmente porque eu ainda estava há pouco tempo na prefeitura como professora. Mas, quando eu contei pra equipe da escola, a maioria comemorou comigo e me apoiou.

Para a nossa família, a gente contou sobre a gravidez no dia das mães. Foi um momento muito emocionante e, naquele instante, eu percebi o quanto eu era abençoada por ter uma família tão amorosa. Era o primeiro filho, o primeiro neto, bisneto e sobrinho. O Artur já era muito amado antes mesmo de nascer.

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A minha gravidez foi muito tranquila, e eu amava sentir o neném se mexendo dentro de mim! A cada semana eu descobria algo novo e era incrível acompanhar cada mudança. Todo mês, eu tirava uma foto com a mesma roupa pra ver como minha barriga crescia. Era mágico perceber o bebê se desenvolvendo e meu corpo mudando junto com ele.

Nós montamos o quartinho, fizemos compras até internacionais e ficou lindo! Minha mãe e eu lavamos, passamos e organizamos todas as roupinhas, deixando tudo pronto pro nosso pequeno príncipe. Eu montava e desmontava a mala da maternidade várias vezes, sempre sentindo que faltava alguma coisa. O Artur, meu menino, era muito esperado e amado.

Os barulhos estranhos que anunciaram a tragédia

Do começo ao fim, a minha gestação foi ótima. Durante os 9 meses, eu tive acompanhamento médico constante e foi tão tranquilo que eu consegui trabalhar durante toda a gravidez numa boa. Quando a minha bolsa estourou, eu já tinha combinado com a equipe de acompanhamento do neonatal que a enfermeira viria até minha casa pra me examinar e assim que liguei pra ela, ela apareceu rapidinho. Ela me examinou, disse que eu ainda estava com pouca dilatação e me orientou a descansar um pouco.

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Mas algumas horas depois, eu comecei a ouvir uns barulhos estranhos…

- Que foi, Ariely? Tá tudo bem? Você tá sentindo alguma coisa? Será que é hora de ele nascer?

- Abraão, eu não sei... eu tô ouvindo uns barulhos estranhos na minha barriga.

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- Vamos para o hospital agora.

- Eu tô com medo. Esses barulhos... não são meus. Não parecem do meu corpo.

- Calma, amor. Não vai ser nada! Vamos logo e no caminho eu ligo para toda a equipe.

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Quando chegamos, a médica me examinou e disse na hora que nós precisaríamos fazer uma cesárea de emergência. Meu marido foi até a recepção do hospital pra resolver a documentação, mas a atendente enrolou demais para liberar e isso atrasou tanto a minha cirurgia que a própria médica teve que ir até lá pra agilizar. Além disso, o pediatra responsável pelo nosso filho não atendia as ligações, e tiveram que chamar outro pediatra para acompanhar o parto.

No meio de toda a correria e ansiedade, meu filho finalmente nasceu às 2h da manhã do dia 6 de janeiro. Mas assim que o Arthur nasceu, ele foi levado na hora para os cuidados médicos. A gente ouvia tudo, a movimentação, a preocupação dos médicos, um falatório. Eu estava morrendo de medo!

As piores palavras que uma mãe pode ouvir

Foi aí que o pediatra então se aproximou e disse que o Artur tinha nascido com o narizinho e boca sangrando. Eu fiquei preocupada, nervosa, ansiosa porque eu só queria ver meu filho, mas eu não conseguia nem entender o que estava acontecendo… Eu só queria pegar o meu filho. Só isso.

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As enfermeiras me levaram para um quarto com outra mãe e o filho dela, e eu fiquei ali, sozinha, sem saber exatamente o que estava acontecendo com o meu. O medo era tão grande que tudo o que eu conseguia fazer era pedir para ver o Arthur и chorar. Depois de um bom tempo, a médica veio até esse quarto em que eu estava e disse que seria melhor eu ser transferida para um quarto particular. Ali eu vi... Eu vi que a situação era séria.

E ali, naquele outro quarto, eu sofri a maior dor da minha vida. No dia seguinte, às 7 da manhã, a enfermeira chamou eu e o Abraão para a UTI, onde nosso filho estava. Eles levaram a gente para uma salinha, e a pediatra disse as piores palavras do mundo.

Ela disse... disse que o Arthur não tinha sobrevivido. Meu filho não tinha sobrevivido! Não... Não podia ser! Não fazia sentido algum! Eu não queria acreditar, eu não conseguia acreditar porque a gestação tinha sido tranquila até o fim, e ele estava vivo na minha barriga poucas horas antes. Estava vivo, bem, se mexendo... Eu simplesmente não conseguia acreditar!

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A gente estava completamente desnorteado. Os médicos perguntaram se a gente queria ver o Arthur e, quando nós chegamos perto, ele ainda estava cheio de aparelhos. Eu... eu nem consegui ver o rostinho do meu filho sem aquele monte de coisa, tudo parecia tão estranho! Dava a sensação de que era um erro, de que a gente não deveria estar ali. Nem deram liberdade pra gente naquele momento... faltou cuidado, faltou tato e empatia com a gente e com o nosso filho.

Eu não pude nem ficar muito tempo com ele. Eu o peguei no colo, com todos os aparelhos, e nós ficamos ali, só nós três, por alguns poucos minutos. Eu não conseguia parar de chorar, porque não sabia o que mais poderia fazer além disso.

Depois, a gente se despediu com uma dor enorme no coração e fomos até o quarto onde nossos pais estavam. Foi horrível contar pra eles… Eu me senti perdida, sem saber o que fazer, sem chão, completamente em estado de choque.

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Um novo começo em meio ao luto

Não fizeram autópsia e disseram que foi sofrimento fetal agudo, mas isso não adiantava nada. Só aumentava ainda mais a dor pra mim. Eu saí do hospital e fui pra casa sem o meu filho, sem o meu filho nos braços! E o pior: sem entender direito o que estava acontecendo!

Depois eu saí de casa rumo ao cemitério. Eu nunca senti nada tão doloroso quanto ver o Abraão segurando aquele caixão tão pequeno. Eu não sei nem como eu consegui andar. Cada passo parecia pesar uma tonelada. Eu não sabia como lidar com aquela dor que estava me sufocando. No enterro, pela primeira vez, eu vi o meu filho sem os aparelhos. Foi a primeira e última vez que pude ver o rostinho dele e aquele momento foi de um vazio que eu nunca tinha sentido antes.

Quando a gente voltou para casa, eu não conseguia entrar no quartinho do Arthur. Aquele quartinho que a gente tinha montado nos mínimos detalhes, com tanto carinho. Eu me afundei de vez na dor, ficava trancada no meu quarto, sem nem perceber quantos dias se passavam, se era dia ou se era noite. A minha mãe, vendo o meu sofrimento, passou a trazer uma flor diferente a cada dia e foi assim que eu fui percebendo que os dias estavam passando e entendendo tudo o que estava acontecendo comigo.

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O meu marido nunca demonstrava tristeza na minha frente. Quando eu ia desabafar, ele me dava muita força, se mostrava positivo e eu até ficava brava e incomodada com isso. Eu sabia que ele chorava, eu ouvia, mas nunca era na minha frente. Depois soube que ele tinha prometido a si mesmo que não ia se mostrar frágil pra mim, para que eu pudesse vê-lo como apoio.

Eu comecei a fazer terapia e, aos poucos, bem aos poucos, eu fui voltando a viver. Depois de passar por tudo isso, eu quis transformar minha dor em algo que pudesse ajudar outras pessoas. Foi assim que nasceu o podcast “Da Terra ao Céu: Sobrevivendo ao Luto”.

A cada episódio, eu contava um pedaço da minha história, tudo que eu estava sentindo, minhas reflexões sobre a perda do Arthur e sobre como eu tentava seguir em frente mesmo com o coração partido. Todo dia 6, eu postava um episódio, como se fosse o mesversário dele. Devagarinho, isso foi me aliviando, me ajudando a lidar com a dor e me mostrando que, de alguma forma, eu podia continuar vivendo.

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Em janeiro deste ano, 1 ano e 8 meses depois de perder nosso anjinho Arthur, eu descobri que estava grávida outra vez. Quando nós soubemos, uma das primeiras coisas que fizemos foi procurar um médico de confiança e ele sugeriu adiantar um pouco o nascimento, por segurança, por causa do que tinha acontecido antes.

- Ariely, será que dessa vez a gente pode fazer diferente?

- Sobre o que?

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- Eu não quero assistir ao parto. Eu... eu não me sinto bem para isso. Mas eu juro que vou te acompanhar em tudo.

- Eu sei que você viu mais coisas do que eu naquele dia. Se você estiver perto de mim, é o que importa.

- Eu nunca vou sair de perto de você. Eu só não quero viver nada daquilo outra vez.

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Não foi fácil nem pra mim nem pro meu marido, mas eu entendia porque eu sabia o quanto tinha sido difícil pra ele ver tudo de perto da primeira vez. Apesar de tudo o que nós passamos, hoje estamos vivendo um momento de alegria: é um menino! Nós estamos cheios de esperança e novos sonhos, terminando de pintar o quarto e deixando tudo pronto pra chegada dele. Mas claro que mesmo com toda empolgação, a gente ainda sente medo.

O Austin está previsto pra nascer no dia 6 de novembro e nós estamos cheios de expectativa, imaginando o momento de ter nosso filho nos braços, correndo pela casa e enchendo nossos dias de alegria. Eu sou mãe de segunda viagem, mas, na prática, é a primeira vez com um filho em casa. Por isso, eu vejo muitos vídeos, tento aprender e me preparar pra não ficar tão insegura. Eu não vejo a hora do nosso primeiro olhar, das risadas, das descobertas...

Já se passaram quase dois anos desde a partida do nosso Arthur e hoje, aproveitando que eu estou contando a minha história, eu quero deixar uma mensagem especial pra ele: Artur, agora eu carrego seu irmãozinho no meu ventre, mas eu quero que você saiba que o nosso amor por você é eterno. Você vai estar sempre no nosso coração, e cada momento com o Austin vai ser também uma forma de sentir sua presença junto da gente. Nós sempre vamos te amar.

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Nós seguimos esperando pelo Austin com o coração cheio de amor e esperança. E cada movimento na minha barriga nos lembra que a vida segue e que é possível sentir alegria mesmo depois da dor.

"Meu filho não sobreviveu": mãe relata dor de perder o bebê horas após o parto