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Caso Isabella: Avô é acusado de orientar casal Nardoni a "simular acidente"

Associação quer reabrir inquérito do caso Isabella e acusa avô da menina, pai de Alexandre, de participar do crime

6 min

03/09/2026 18:09 • Atualizado há 12 horas

Caso Isabella: Avô é acusado de orientar casal Nardoni a "simular acidente"

O caso Isabella Nardoni, que chocou o Brasil em 2008, pode ganhar novos contornos. Uma representação enviada pela Associação do Orgulho LGBTQIAPN+, no último dia 21 de agosto, ao Ministério Público de São Paulo pede a reabertura ou a instauração de um novo inquérito para apurar a participação do avô, Antônio Nardoni, no crime.

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Uma ex-policial penal, que esteve com Anna Carolina Jatobá na Penitenciária Feminina I de Tremembé, conta que a madrasta de Isabella relatou que a menina não estava morta no momento em que foi arremessada pelo pai do sexto andar do Edifício London, na Zona Norte de São Paulo, e que o avô teria orientado o casal a simular um acidente.

“Quando ela chegou no presídio, eu tinha acabado de ser transferida para lá. Tinha um pavilhão que as novas presas ficavam em regime de observação por alguns dias, e eu sempre assumia esse pavilhão. Ela ficou lá por cerca de oito dias. O único contato que ela tinha era eu”, contou a policial.

“Tinha acabado de ser presa. Tudo novo, sabe? Sentia aquela necessidade de falar. Ela também tinha muito medo, porque não era aceita pelas outras presas”. O depoimento foi feito a Ângelo Carbone, advogado da entidade responsável pela denúncia feita ao MP. O áudio da conversa foi obtido com exclusividade pela reportagem.

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Avô teria orientado casal a “simular um acidente”

“Eles tinham ido ao mercado e passaram por uma situação de estresse. O cartão não passou e não conseguiram levar a compra embora. A menina fez alguma coisa. Ela disse que perdeu a cabeça e bateu na menina”, conta a policial, baseando-se no que ouviu de Jatobá.

Em um horário muito próximo ao crime, o casal ligou para Antônio Nardoni, pai de Alexandre. A chamada foi comprovada pela investigação. Segundo o relato da policial, Jatobá revelou para ela o teor daquela conversa.

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“Eles pensaram que a menina tinha morrido, mas na verdade estava desmaiada. Foi aí que ligaram para o avô. Era comum isso. Tudo eles ligavam para o avô. Aí ele falou: ‘simula um acidente, senão vocês vão ser presos’. Então eles tiveram a ideia de jogar pela janela”.

Outra testemunha conta uma história que corrobora com a versão de Jatobá, relatada pela ex-agente penal. A ex-secretária de um escritório de advocacia do centro de São Paulo se lembra do dia em que Antônio Nardoni esteve lá.

Segundo ela, o avô de Isabella procurou o escritório para se defender das acusações de que ele teria participado do homicídio da neta, algo que já se falava à época. A secretária disse que os advogados não quiseram pegar o caso por conta da “crueldade” do crime.

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Regalias no presídio

A ex-funcionária do sistema carcerário conta também que Anna Jatobá teria recebido benesses dentro da penitenciária feminina, como um colchão ortopédico de alto padrão. “Não precisa estar preso para saber que colchão de cadeia é um lixo. O da Anna Carolina era um colchão especial, que foi liberado somente para ela. A família custeou, mas a direção liberou”.

Ainda de acordo com o relato, Anna Carolina teria conseguido uma grande remissão de pena trabalhando na Funap, fundação ligada à Secretaria de Administração Penitenciária responsável por desenvolver projetos de reintegração de presos à sociedade.

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Segundo a policial, o benefício do trabalho costumava demorar a ser concedido para as internas de Tremembé, mas com Anna Carolina teria sido diferente. “Ela trabalhou desde os primeiros dias no presídio. Até isso foi uma regalia, porque tem um processo seletivo”.

“Geralmente elas começam trabalhando na faxina e fazem uma prova para trabalhar na Funap. A Anna Carolina chegou e logo foi trabalhar na Funap, no mesmo cargo da Suzane [Von Richthofen], com um salário de líder”.

A ex-carcereira diz que o fato de ter trabalhado todo o tempo em que esteve presa com certeza ajudou Jatobá a progredir de regime mais rápido. Ela conquistou o direito de cumprir pena em regime aberto em julho de 2023.

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Policial diz que sofreu represálias prestar depoimento ao MP

A policial, que à época do crime atuava como agente penal, chegou a prestar um depoimento ao Ministério Público de São Paulo na condição de testemunha protegida, em 2014.

Ao MP, relatou a versão do crime que ouviu de Jatobá e os benefícios que ela teve na prisão, mas a investigação não foi para frente. Ela conta que na época havia outras carcereiras que sabiam das mesmas coisas, mas que não tiveram coragem de confirmá-las às autoridades. “Essas coisas eram de conhecimento do plantão inteiro”, diz.

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Em uma entrevista ao Fantástico, da TV Globo, na mesma época, o promotor do caso, Francisco Cembranelli, disse que os investigadores suspeitaram da participação de Antônio Nardoni, mas que não foi possível responsabilizá-lo.

A testemunha conta que foi punida no sistema prisional por conta das denúncias que resolveu fazer. “Eu fui bode expiatório. O que fizeram comigo foi para ninguém mais abrir a boca. Fui transferida contra a minha vontade”.

Ela diz ainda que chegou a temer por sua segurança, e que precisou mudar de cidade em um determinado período. “Minha vida virou um inferno. Eu entrei em depressão. Nunca mais tive ambiente para trabalhar”, lamentou.

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Casal passou por julgamento recentemente

A mesma associação que levou o relato da policial ao Ministério Público no mês passado, pediu um mandado de segurança ao STJ, alegando que Alexandre Nardoni, que está em regime aberto desde 2024, e Anna Jatobá estariam descumprindo determinações da progressão de pena e pedindo que ambos retornem ao regime fechado.

De acordo com a denúncia, eles estariam circulando nas ruas em dias e horários que não são permitidos. Um abaixo-assinado com centenas de assinaturas dos moradores de Santana, onde moram, pede que eles vão embora de lá.

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Os relatos são de que o casal vem causando problemas e incômodos aos moradores. Alexandre teria arrumado uma briga por conta de uma vaga na garagem de seu condomínio.

O recurso foi analisado pela Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça, sob a relatoria do ministro Ribeiro Dantas, entre os dias 27 de agosto e 2 de setembro. A decisão, proferida na quarta-feira (2), negou, por unanimidade, o recurso que poderia ter levado os dois de volta à prisão.

A negativa foi motivada por uma irregularidade no pagamento das custas processuais. Segundo informou o STJ, “a simples alegação de que a associação teria direito à gratuidade da justiça não era suficiente. O benefício deveria ter sido comprovado na apresentação do recurso ou no prazo concedido para regularizar a situação”.

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Ativista responsável pelas denúncias foi ameaçado

Desde que começou a fazer denúncias relacionadas ao Caso Nardoni, o presidente da Associação do Orgulho LGBTQIAPN+, Agripino Magalhães Júnior diz estar sendo alvo de ameaças virtuais, através de mensagens em suas redes sociais.

Na tarde da última sexta-feira (28), recebeu uma ligação anônima. Segundo ele, uma voz masculina lhe disse: “Estou ligando para avisar que se não para de fazer denúncias, não vai demorar para seus familiares encontrarem seu cadáver. Está avisado”.

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Depois da ligação, o ativista registrou um boletim de ocorrência no 23º DP (Perdizes).

* A reportagem procurou a defesa de Antônio Nardoni, mas não teve retorno.* Reportagem de Kaê Carneiro, estagiário sob supervisão de Marco Rosa

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