Problema crônico em BH: pessoas negras que são ignoradas nos pontos de ônibus
Mais do que humilhação ou constrangimento, a prática também pode ser criminosa, segundo especialistas

Um simples gesto, para indicar o desejo de embarque no ônibus. Levantar o braço. Parece que deveria ser simples. Mas não é para boa parte da população. Se você for negro ou negra, certamente sabe do que estamos falando. Se não é, pergunte para a pessoa preta mais próxima: "alguma vez o motorista do ônibus passou direto por você no ponto sem justificativa nenhuma?”
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Nós fizemos essa pergunta por toda a cidade de Belo Horizonte.
“Sim, eu sei que nesse rolê de racismo, as pessoas falam que não julgam muito, mas julgam sim. Por exemplo, se você ver uma mulher branca parada no ponto sozinha e estendendo o braço, o ônibus para. Se um homem negro estiver sozinho, não para” – Raphael Gomes, 28 anos, estudante de Design.
“Já, várias vezes. Indo para a faculdade, inclusive, saindo do serviço. Indo pra faculdade, o ônibus, aparentemente vazio, o motorista ignorou o meu sinal” – Lívia Santos, 22 anos, estudante de filosofia.
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“Sim, já. Muitas vezes! É uma das coisas que mais acontecem. Eles passam mesmo, sem justificativa alguma” – José Geraldo, 34 anos, jardineiro.
“Já. Cansei de ser julgado pela aparência, por eu estar de chinelo, bermuda... Isso acontece comigo diariamente, nossa! Várias vezes. Aí você perde aquele encontro marcado com a pessoa, perde entrevista de emprego, etc.” – Alex Breno da Silva, 21 anos, vendedor.
Uma pesquisa do Instituto Locomotiva, de 2022, constatou que uma em cada três pessoas negras já foram vítimas de preconceito em seus deslocamentos. Entre os relatos, 24% dizem ter sido menosprezados.
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Os pesquisadores ouviram 1.200 passageiros, além de MIL profissionais do setor de transporte. E nessas entrevistas foi possível constatar: a chance de motoristas não pararem no embarque para um passageiro negro é bem maior do que para uma pessoa branca - 61% contra 7%.
Outro dado do estudo: seis a cada dez profissionais acreditam que um negro tem mais chance de causar medo nos passageiros que um branco.
“Qualquer tipo de ação que a pessoa negra tem dentro de um transporte público, é visto por aqueles espectadores como um possível ataque. E essas micro agressões acabam também tendo o impacto na forma como essa pessoa negra vai agir”, afirma Ian Nunjara, diretor executivo da iO Diversidade e integrante do Instituto Locomotiva.
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Se isso é tão comum e ocorre diariamente, o que aconteceu com a nossa capacidade de nos indignar?
Segundo o professor Clézio Gonçalves - coordenador geral de estudos Afro-brasileiros da Universidade Federal de Ouro Preto, se trata da nossa capacidade de normalizar o absurdo.
“O racismo é imposto, naturalizado e vem mascarado de diversas formas e maneiras, como, por exemplo, o fato da pessoa negra não ter sido vista no ponto de ônibus. Além de várias outras cenas que a gente presencia ou vivencia no nosso dia a dia”, explica o professor.
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“ESTRATÉGIAS”
Desde que o Brasil é Brasil, a população preta tem que se virar para sobreviver aqui neste país. As estratégias são as mais diversas. E para tentar não ser ignorado no momento de pegar o ônibus, não é diferente.
“Tento sempre pegar em ponto de ônibus cheio, sabe?! Onde tem bastante pessoa, ele (o motorista) vai ter que parar, né? Infelizmente é o único recurso que tenho. Se eu estiver no ponto sozinho, é difícil parar”, reclama o Alex. “Já tirei o cartão de passagem e dei sinal com ele nas mãos, mostrando que vou pagar passagem”, conta José.
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Outra "estratégia" para evitar o transtorno, é deixar de utilizar o meio de transporte. Essa foi a resposta de 39% dos entrevistados pelo Instituto Locomotiva.
A psicóloga Laila Resende, idealizadora da clínica Abayomi e especialista em atendimento a vítimas de racismo, destaca como esse processo é traumático.
“Pensa, a ferida nem cicatriza e já vai ser aberta novamente, porque já tem ali em mente de que o próximo motorista possivelmente vai passar direto ou a pessoa vai ter que estar com cartão de passagem em mãos para provar que vai pagar a passagem. Então vivenciar esse preconceito diariamente provoca, sim, com certeza, muitos traumas, ansiedade, crise de identidade e depressão, que também é muito comum entre a população negra. É sem dúvida muito prejudicial à saúde mental”.
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E como tratar esses traumas?
“É importante que a gente lide da maneira mais saudável. Então pode ser procurar ajuda de profissionais que desenvolveram o seu trabalho de maneira racializada. Hoje também existem muitos grupos de apoio de pessoas que passaram por alguma citação de racismo. E também ler sobre o assunto, é importante que a gente se informe. Conhecimento é poder. Conhecimento nos ajuda a fortalecer internamente”, responde a psicóloga.
CRIME
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A Legislação Penal Brasileira classifica o racismo como crime, certo?
Entretanto, segundo o presidente da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB - MG, Marcelo Colen, na vida real, algumas práticas preconceituosas são difíceis de ser tipificadas como criminosas, por não ter como provar que a ação está relacionada com a cor de pele da vítima. Mas o advogado ressalta: “Se a gente tem uma pesquisa que indica tratamento totalmente diferente entre pessoas brancas e negras no contexto do transporte público, é muito importante que as nossas autoridades se atentem. Porque pela forma como a lei estabelece que a gente tem que interpretar os crimes de racismo, a gente está diante de uma circunstância de discriminação sistemática de pessoas negras, por meio de empresas e operadores do transporte público”.
MOTORISTAS
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Representantes dos motoristas de ônibus de Belo Horizonte negam que haja uma espécie de segregação no transporte.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários da Grande BH, Paulo César, diz que, às vezes, é o próprio passageiro que pede para um ponto ser descumprido.
“Dependendo do local de risco, muitas vezes é o próprio passageiro que está dentro do ônibus que diz ‘motorista não para nesse lugar’. Independentemente dar cor negra, cor parda ou branca. Mas o trabalhador rodoviário tem uma orientação, por nosso sindicato e pelas empresas, de não fazer esse tipo de discriminação. Eu, pelo menos, não vejo isso acontecendo”.
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A reportagem também escutou alguns motoristas de ônibus pelas ruas da cidade para entender quais são as justificativas para passar direto por alguém no ponto.
A identidade desses profissionais será mantida em sigilo.
“A gente não tem segurança, não tem polícia indo atrás. Às vezes têm lugares que você sabe que amigos nossos foram assaltados ali e nesse ponto só tem um cara. A gente passa direto porque sabe que está em perigo, já teve vítima ali, naquele local”, justifica um deles.
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Perguntado se o julgamento é feito pela aparência, outro motorista respondeu: “Não. A avaliação não é por aparência. É que muitas vezes, a gente, que trabalha na linha todo dia, sabe quais são as pessoas trabalhadoras e quem anda atoa nas ruas, usando coisas erradas. Nunca vamos atrapalhar o trabalhador”.
PREFEITURA PEDE DENÚNCIAS E EMPRESAS NÃO RESPONDEM
Nós questionamos a prefeitura e as empresas de ônibus sobre a recorrência dos episódios de pessoas negras serem ignoradas no ponto de ônibus.
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Por meio de nota, a Prefeitura de BH afirmou que deixar de parar o veículo para o usuário sem motivo justo é uma infração passível de multa ao consórcio da linha.
Em 2022, houve 1.979 registros de reclamações, nos canais da prefeitura, por descumprimento de embarque/desembarque.
Segundo o poder executivo, é dever das concessionárias realizar treinamento com os trabalhadores, orientando e conscientizando-os quanto aos comportamentos corretos na prestação do serviço.
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A reportagem, portanto, solicitou ao SetraBH - sindicato dos empresários do transporte coletivo de ônibus na capital mineira - uma entrevista ou posicionamento sobre o assunto.
Apesar das diversas procuras, as empresas não se posicionaram.
Ouça tudo no Podcast: https://on.soundcloud.com/RT7EJ https://www.spreaker.com/episode/53959963
