Matrículas de pessoas com deficiência disparam no ensino superior
O número de alunos com deficiência em cursos de graduação no Brasil quase triplicou em dez anos, passando de pouco mais de 33 mil matrículas em 2014 para 95

O número de alunos com deficiência em cursos de graduação no Brasil quase triplicou em dez anos, passando de pouco mais de 33 mil matrículas em 2014 para 95 mil em 2024, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). O crescimento é puxado principalmente pelos cursos ofertados na modalidade de ensino a distância.
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Os dados integram a segunda pesquisa sobre pessoas com deficiência e desigualdades sociais no Brasil, divulgada pelo IBGE. O estudo mostra que o acesso ao ensino superior começa a se ampliar, ainda que de forma desigual, e reforça a importância de políticas de inclusão permanentes.
Histórias que rompem barreiras
Entre os alunos que chegaram à universidade está o advogado Roni Machado, que não enxerga. Ele contrariou previsões sobre sua capacidade, fez a prova do Enem, ingressou em uma instituição de ensino superior e se formou em Direito em julho deste ano.
Na visão de Roni, superar o "não dá" exigiu enfrentar crenças repetidas ao longo da vida. "Você escuta a vida inteira que é assim e que sempre foi assim. Mas por que é que tem que ser sempre assim? E quando você consegue, você prova pra você mesmo que o ‘não dá’, na verdade, deveria ser dito como ‘ninguém conseguiu ainda’ ou ‘ainda não conseguiu’", afirma.
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Para muitas pessoas com deficiência, o sonho de entrar na universidade ainda parece distante. Segundo relatos de estudantes, a falta de acessibilidade e o preconceito social muitas vezes pesam mais do que a própria dificuldade de aprender.
Avanço nas matrículas e papel do ensino a distância
De acordo com o Inep, o salto de pouco mais de 33 mil para 95 mil alunos com deficiência matriculados na graduação entre 2014 e 2024 indica uma mudança importante no perfil das universidades brasileiras. O levantamento mostra que a modalidade de ensino a distância tem sido decisiva para ampliar esse acesso.
Segundo o técnico do IBGE Vinicius Staub, concluir a graduação pode transformar a relação dessas pessoas com o trabalho. "A graduação é uma forma que permite que as pessoas acessem o mercado de trabalho mais qualificadas, abram um leque e consigam trabalhar em serviços que possam acomodar as especificidades delas", analisa.
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Especialistas apontam que o ensino remoto ajuda a reduzir barreiras físicas e de deslocamento, além de permitir rotinas mais flexíveis. Ao mesmo tempo, alertam que a inclusão plena depende de materiais acessíveis, plataformas adaptadas e acompanhamento pedagógico adequado.
Capacitismo ainda é obstáculo
Para a coordenadora de inclusão Leomar Zuravski, o capacitismo segue como um dos principais entraves. "Ainda existe muito forte a questão do capacitismo. Isso está enraizado nas pessoas. Então é muito difícil tirar esse preconceito de que pessoas com deficiência são menos capazes do que pessoas sem deficiência", explica.
Ela avalia que o aumento das matrículas precisa vir acompanhado de mudança de cultura dentro e fora das instituições. Isso inclui rever práticas pedagógicas, investir em acessibilidade e combater atitudes discriminatórias no convívio diário.
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Leomar lembra que o acesso à universidade não é favor, mas garantia legal. "A gente tem que entender que a educação, segundo até a nossa Constituição Federal, é um direito de todos, de todos e para todas as diversidades", reforça.
Visibilidade e inclusão
Na experiência de Roni Machado, a exclusão também passa pela falta de visibilidade. "O cego ele não é visto, sabe? Nós que somos os deficientes visuais, mas muitas vezes nós é que não somos vistos, infelizmente", relata.
Ele afirma que, assim como outros estudantes com deficiência, precisava sobretudo de oportunidade para provar sua capacidade. O avanço nas matrículas, especialmente no ensino a distância, indica que mais pessoas estão conseguindo essa chance. Para os entrevistados, o desafio agora é transformar os números em ambientes universitários realmente inclusivos, em que todos possam aprender e ser vistos em sua plenitude.
