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Tragédia no PR expõe risco de pacientes nas estradas do SUS

Falta de especialistas concentra atendimentos em capitais e obriga viagens noturnas de centenas de quilômetros

4 min

24/08/2026 13:43 • Atualizado há 7 dias

Tragédia no PR expõe risco de pacientes nas estradas do SUS

O acidente que matou 23 pessoas na BR-373, nos Campos Gerais do Paraná, considerado o mais grave em rodovias federais do estado nos últimos cinco anos, evidenciou a rotina de pacientes que precisam enfrentar longas viagens pela madrugada para conseguir atendimento médico pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Curitiba.

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Tragédia e rotina nas rodovias

Na semana passada, um micro-ônibus que transportava pacientes de Imbituva rumo à capital se envolveu em uma colisão frontal com um caminhão na BR-373. Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), o caminhoneiro invadiu a contramão e bateu de frente no veículo que levava moradores para consultas e exames agendados em hospitais de referência.

O acidente aconteceu durante a madrugada, horário comum para o chamado transporte sanitário, quando ônibus e vans deixam cidades do interior ainda à noite para que os pacientes cheguem às consultas logo no início da manhã. A prática é frequente em todo o país e se tornou parte da rotina de quem depende do SUS para acessar serviços de maior complexidade.

Entre esses pacientes está Juliana Thaís Pires, que saiu de Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná, em um ônibus da saúde do município para levar a filha Vitória, de 11 meses, a uma consulta em Curitiba. Foram quase 500 quilômetros de estrada até chegar à capital por volta das 6h da manhã.

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"A gente saiu de Francisco Beltrão às 22h de ontem. Lá não tem neuro infantil nem gastro, então precisamos vir para Curitiba e ficar na casa de apoio", relata Juliana, que faz a viagem com frequência por causa da microencefalia da filha.

Longas viagens em busca de especialistas

O Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná é um dos principais destinos desses pacientes. A instituição, maior hospital 100% SUS do estado, registra em média 30 mil consultas por mês, sendo cerca de um terço de pessoas que vêm de cidades fora de Curitiba.

Para a integrante da Associação dos Municípios do Paraná (AMP), Ivonéia Furtado, a concentração de serviços em grandes centros é um dos fatores que explicam esse fluxo. "É muito difícil ter especialidade e serviço de alta complexidade em cidade menor. Isso acaba exigindo que os pacientes se desloquem para outros municípios", afirma.

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Em outra viagem rumo à capital, a paciente Loana Silva deixou a cidade de origem por volta das 2h da manhã para percorrer cerca de 280 quilômetros até Curitiba, onde tinha consulta marcada com um urologista às 8h. Sempre que consegue, ela opta por ir de carro.

"Eu saí às 2h para conseguir ver o urologista às 8h. Por causa da minha saúde, prefiro ir de carro para conseguir voltar para casa assim que a consulta acaba", explica Loana, que também depende do SUS para o acompanhamento médico.

Transporte sanitário é vital, mas exige estrutura

O transporte sanitário é um serviço oferecido pelo SUS que garante o deslocamento de pacientes para consultas, exames, cirurgias e tratamentos continuados em unidades de saúde fora da cidade onde moram. A operação é de responsabilidade das secretarias estaduais e municipais de Saúde, segundo o Ministério da Saúde.

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A reportagem solicitou entrevista ao Ministério da Saúde e à Secretaria de Estado da Saúde do Paraná sobre o tema, além de dados oficiais de uso do transporte sanitário, mas as pastas informaram que não concederiam entrevista e não divulgaram números até o momento.

Ivonéia Furtado destaca que a segurança nas estradas também depende da condição dos veículos usados nesse tipo de transporte. "O cuidado com os carros é fundamental. A gente faz manutenção preventiva e, quando precisa, corretiva. Muitos municípios têm adquirido carros zero justamente para dar mais segurança aos pacientes", afirma a integrante da AMP.

Para a paciente Renata Senn, o serviço é a única forma de manter o tratamento em dia. "Sem o transporte sanitário, não seria possível. Quem é atendido pelo SUS precisa disso para conseguir chegar até o médico", diz.

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Na visão de gestores e usuários ouvidos pela reportagem, a realidade de longas viagens noturnas em rodovias movimentadas expõe o desafio de ampliar a oferta de especialistas no interior e, ao mesmo tempo, reforçar a estrutura e a segurança do transporte sanitário, para que pacientes possam exercer o direito ao tratamento sem colocar a própria vida em risco na estrada.

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