Desmatamento em queda: a ciência de SJCampos que protege as florestas
Por Fabiano Porto (@fabiano.pporto)

Em uma cidade conhecida nacionalmente pela produção de aviões, satélites e tecnologias avançadas, uma das maiores contribuições para o futuro ambiental do Brasil acontece de maneira quase silenciosa. Todos os dias, pesquisadores, sistemas e equipamentos instalados em São José dos Campos observam milhões de quilômetros quadrados do território nacional.
Continua depois da publicidade
É a partir daqui que o Brasil enxerga suas florestas.
Na semana em que celebrou 65 anos, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, apresentou uma notícia que merece ser reconhecida: os alertas de desmatamento diminuíram na Amazônia e no Cerrado.
Entre agosto de 2025 e julho de 2026, a área sob alerta de desmatamento na Amazônia foi de aproximadamente 2.874 quilômetros quadrados. O número representa uma redução de 36% em relação ao período anterior e o menor resultado da série histórica do sistema Deter, iniciada em 2016.
Continua depois da publicidade
O resultado também ficou 55,6% abaixo da média registrada nos últimos dez ciclos de monitoramento.
No Cerrado, a área sob alerta foi de aproximadamente 5.119 quilômetros quadrados, com redução de 7,8% e o menor resultado dos últimos cinco anos. Apesar da queda, o número chama a atenção: a área sob alerta no Cerrado ainda foi significativamente maior do que a registrada na Amazônia.
A boa notícia, portanto, não significa que o problema esteja resolvido.
Continua depois da publicidade
Mas demonstra algo fundamental: quando ciência, monitoramento, fiscalização e políticas públicas trabalham de forma integrada, o desmatamento pode recuar.
O sistema Deter funciona como uma espécie de alarme ambiental. Utilizando imagens de satélite, ele identifica diariamente alterações na cobertura vegetal e produz alertas que orientam as ações de fiscalização e controle. É por meio dessas informações que os órgãos ambientais conseguem localizar áreas sob pressão e direcionar suas equipes.
Já o sistema Prodes realiza um levantamento anual mais detalhado, produzindo os dados consolidados sobre a supressão da vegetação nativa nos biomas brasileiros.
Continua depois da publicidade
Se o Deter é o alarme que avisa onde a floresta está sendo atacada, o Prodes funciona como um grande exame anual da saúde dos nossos biomas.
Os dados mais recentes do Prodes também apresentaram resultados positivos. Houve redução de 34,3% no desmatamento da Caatinga, de 15,3% na Mata Atlântica e de 41,7% no Pampa.
É importante celebrar esses números porque o debate ambiental costuma ser dominado, compreensivelmente, por tragédias, queimadas, secas, enchentes e recordes de temperatura. Entretanto, também precisamos observar, compreender e divulgar os casos em que as políticas ambientais apresentam resultados.
Continua depois da publicidade
As boas notícias ajudam a demonstrar que não estamos condenados à destruição.
Existem caminhos.
A ciência não fiscaliza propriedades, não aplica multas e não impede fisicamente a derrubada de uma árvore. Mas, sem informações confiáveis, os órgãos de fiscalização agiriam praticamente no escuro. O monitoramento transforma alterações na floresta em dados, mapas e evidências que podem orientar decisões e responsabilizar infratores.
Continua depois da publicidade
Seria incorreto atribuir a redução do desmatamento exclusivamente à tecnologia. Os resultados dependem da atuação conjunta dos pesquisadores, órgãos ambientais, equipes de fiscalização, governos, organizações da sociedade civil, comunidades tradicionais e da pressão permanente da sociedade.
O INPE não protege sozinho as florestas brasileiras.
Mas seu trabalho torna cada vez mais difícil afirmar que não sabemos onde, quando e como elas estão sendo destruídas.
Continua depois da publicidade
Essa capacidade também deve ser compreendida como uma questão de soberania nacional. Um país com as dimensões territoriais do Brasil e que abriga parte significativa da biodiversidade do planeta não pode depender exclusivamente de instituições estrangeiras para conhecer as transformações que ocorrem em seu próprio território.
Monitorar nossas florestas é tão estratégico quanto monitorar nossas fronteiras.
E parte fundamental dessa missão acontece em São José dos Campos.
Continua depois da publicidade
Talvez nem sempre tenhamos a dimensão da importância do INPE para o Brasil. O instituto não produz apenas pesquisas científicas distantes do cotidiano da população. As informações geradas em seus laboratórios ajudam na previsão do tempo, no monitoramento de queimadas, no acompanhamento das mudanças climáticas, na observação dos oceanos e na proteção dos diferentes biomas brasileiros.
Uma cidade verdadeiramente inteligente não é aquela que apenas utiliza novas tecnologias. É aquela que produz conhecimento capaz de melhorar decisões, proteger a vida e enfrentar os grandes desafios da sociedade.
Nesse sentido, São José dos Campos oferece ao país uma das ferramentas mais importantes para a construção de um futuro sustentável: a capacidade científica de compreender o território brasileiro a partir do espaço.
Continua depois da publicidade
Ainda temos um longo caminho.
Somente na Amazônia, quase 2.900 quilômetros quadrados permaneceram sob alerta de desmatamento no período analisado. No Cerrado, foram mais de 5 mil quilômetros quadrados. São áreas gigantescas de vegetação nativa submetidas à pressão de atividades ilegais e de modelos econômicos que continuam tratando a natureza como um obstáculo ao desenvolvimento.
A redução dos números não pode gerar acomodação.
Continua depois da publicidade
Ao contrário, deve servir como evidência de que os investimentos em ciência, fiscalização e políticas ambientais precisam ser ampliados e transformados em políticas permanentes de Estado, independentemente das mudanças de governo.
Quando o desmatamento diminui, não são apenas árvores que permanecem em pé.
São nascentes, rios, ciclos de chuva, espécies da fauna e da flora, solos, comunidades e toneladas de carbono que deixam de ser lançadas na atmosfera. É parte da estabilidade ambiental necessária para a agricultura, para as cidades, para a economia e para a nossa própria qualidade de vida.
Continua depois da publicidade
A floresta responde quando o Estado age.
E o Estado consegue agir melhor quando a ciência mostra o caminho.
Parte dessa ciência observa o Brasil todos os dias a partir de São José dos Campos. Se os resultados demonstram que conhecimento, fiscalização e políticas públicas funcionam, o que ainda falta para transformarmos a proteção dos nossos biomas em uma prioridade permanente do país?
Continua depois da publicidade
Veja outras matérias da coluna SUSTENTABILIDADE E REGENERAÇÃO no link: http://www.band.com.br/band-vale/colunistas/sustentabilidade-regeneracao
