Dia do Folclore: artista transforma lendas do Vale em histórias ilustradas
No Dia Nacional do Folclore, escritor e ilustrador Mauricio Pereira relembra como histórias de assombração contadas pelo pai deram origem a livros inspirados nas tradições do Vale do Paraíba

O Vale do Paraíba preserva um rico imaginário popular e folclórico, formado por lendas, histórias de assombração e os tradicionais “causos”, transmitidos de geração em geração e que ajudam a manter viva a cultura e a memória da região.
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Entre histórias de assombração e personagens do imaginário popular, o folclore do Vale do Paraíba ganha novas formas nas páginas dos livros do escritor e ilustrador Mauricio Pereira. O interesse pelas lendas da região começou ainda em 2006, quando ele decidiu registrar as histórias que ouvia do próprio pai, então com mais de 80 anos.
Eu cresci ouvindo histórias de assombração que meu pai me contava, e eu sempre gostei muito. Daí eu pensei: meu pai está com 83, 84 anos. Se eu não registrar essas histórias, eu não vou lembrar de tudo para contar para o meu filho quando eu tiver um filho, relembra.
Para preservar as narrativas, Mauricio comprou um gravador de MP3 e passou a registrar os relatos. O que começou como uma forma de guardar as memórias familiares acabou se transformando em um acervo de dezenas de histórias e, posteriormente, em seu primeiro livro.
Comecei a escrever essas histórias e fiz um acervo de umas 50, 60 histórias. Em 2006, fui fazer uma pós-graduação em São Paulo, fiz uma especialização em design gráfico e tinha que entregar um projeto de conclusão de curso. Acabei fazendo um livro com essas histórias que meu pai me contava, conta.
O livro foi publicado e, posteriormente, adquirido pelo Governo Federal para distribuição nas escolas públicas do país. Os livros de Mauricio passaram a levar para um público mais amplo personagens e histórias que fazem parte do imaginário popular, especialmente do interior paulista.
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Reprodução: Mauricio Pereira
Lendas que nascem da região
Embora algumas obras sejam baseadas diretamente nas histórias que ouviu do pai, Mauricio também passou a criar seus próprios contos a partir das experiências que acumulou ao longo da vida.
Eu procuro colocar elementos do que eu vivi na infância, do que eu já vi, do dia a dia da vida do campo, na roça, nas histórias. Então eu já comecei a inventar essas histórias com base no cotidiano do homem do campo, explica.
Pescarias, cavalos, plantas e situações do cotidiano rural aparecem misturados a criaturas fantásticas e personagens tradicionais do folclore. Um dos exemplos é o livro dedicado ao Saci. Segundo o autor, os contos foram criados por ele, mas partem de um amplo repertório de histórias sobre a figura folclórica.
Entre as narrativas estão diferentes versões do personagem, como o Saci no milharal e histórias envolvendo outros seres do imaginário popular, como o lobisomem.
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Alguns livros que eu fiz, foram inspirados nas histórias que o meu pai me contava, então bem baseado na região de Redenção da Serra, Natividade da serra, São Luís do Paraitinga, Taubaté…
O folclore particular do Vale
Para Mauricio, preservar o folclore também significa reconhecer que as lendas brasileiras possuem diferentes versões de acordo com cada região. Uma das histórias que mais chamou sua atenção recentemente foi a do vira-porco, uma versão regional das narrativas de lobisomem associada a Taubaté.
Na tradição apresentada pelo escritor, o vira-porco é uma criatura que mistura características humanas e do animal. A narrativa faz parte de um universo muito maior de transformações associadas ao lobisomem, que, segundo as diferentes versões populares, pode assumir características de vários animais.

Reprodução: Mauricio Pereira
Entre as histórias regionais que despertaram o interesse de Mauricio está também o imaginário em torno do Lago do Nelão, em Taubaté.
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O local ficou marcado por uma tragédia ocorrida no passado e, ao longo dos anos, passou a ser associado a diferentes relatos de assombração. Segundo o escritor, moradores contam histórias sobre vultos, uma mulher que rondaria o lago durante a noite e até uma mão que puxaria as pernas de pessoas que entram na água.
Dia do Folclore
A valorização do folclore também está ligada à preservação da memória e da identidade cultural. Para Mauricio Pereira, as histórias de assombração e os tradicionais “causos” não são apenas narrativas do imaginário popular, mas lembranças que atravessam gerações e remetem a momentos vividos na infância, ao lado de familiares e pessoas da comunidade.
Um povo sem cultura é um povo sem nação. A cultura nos representa, nos define, diz quem nós somos. E essas histórias de assombração do nosso folclore têm uma importância que vem das memórias afetivas que são criadas na nossa infância. Quando a gente escuta uma história de assombração, lembra do pai, da mãe, da avó, do vô, de um tio ou de algum vizinho que contava uma história quando a gente era criança.
Para o escritor, registrar essas narrativas é também uma forma de impedir que elas desapareçam com o passar do tempo. Foi justamente essa preocupação que o levou, em 2006, a gravar e transcrever as histórias contadas pelo pai, dando início ao trabalho que posteriormente se transformaria em livros e conteúdos sobre o folclore regional.
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Dia do Folclore: artista transforma lendas do Vale em histórias ilustradas
