Governança diante da tarifa de Trump: como o Vale pode reagir à taxa de 50% imposta pelos EUA
Por Fabiano Porto (@fabiano.pporto)

No dia 10 de julho, o mundo despertou com uma notícia capaz de abalar os alicerces econômicos de várias regiões do Brasil, e poucas sentirão tanto quanto a nossa. O anúncio da tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras, assinado por Donald Trump, não é apenas uma medida diplomática agressiva, é um teste de fogo para a capacidade de articulação, resiliência e governança dos territórios mais dependentes da balança comercial com os Estados Unidos. E entre eles está o Vale do Paraíba.
Continua depois da publicidade
Nossa região foi diretamente atingida. Em 2024, o Vale exportou mais de US$ 3 bilhões aos EUA, com destaque absoluto para São José dos Campos, que movimentou US$ 1,9 bilhão, sendo 67,5% provenientes do setor aeronáutico. Mas não é só São José. Ilhabela, com US$ 623,8 milhões em combustíveis e óleos minerais, São Sebastião, com US$ 356,2 milhões, e Pindamonhangaba, com US$ 159 milhões em alumínio, também fazem parte do grupo de cidades altamente dependentes do mercado americano. Taubaté aparece com mais de US$ 100 milhões em exportações industriais. Esses números mostram que o impacto será muito além da Embraer, atingindo uma extensa cadeia produtiva regional.
Governança se mostra, aqui, o fator-chave. Não apenas como um “G” na sigla ESG, mas como prática real de liderança, estratégia e articulação. O que fazer quando uma decisão tomada em Washington ameaça diretamente empregos, faturamento e investimentos de uma região inteira? Como reagimos enquanto território? Como garantimos resiliência e competitividade frente à volatilidade geopolítica?
A resposta começa agora. O anúncio do governo federal em criar um comitê nacional de crise com representantes do setor produtivo é uma excelente oportunidade. Mas ela só terá efeito se tivermos representantes do Vale do Paraíba bem posicionados. É hora das entidades da região se articularem, exigirem participação e levarem propostas concretas à mesa.
Continua depois da publicidade
O Parque de Inovação Tecnológica (PIT), por exemplo, já reúne um Cluster Aeroespacial com mais de 150 empresas da cadeia produtiva da aviação. A ASSECRE, nas Chácaras Reunidas, está conectada a esse ecossistema, que inclui também universidades, centros tecnológicos e prestadores de serviços. Esse tecido industrial precisa ser amparado por uma ação estratégica coordenada.
E neste momento, o papel das prefeituras é crucial. Precisamos de gestores públicos proativos, que convoquem os empresários locais, criem fóruns de diálogo, levantem dados e proponham soluções. Um município que não articula, isola suas empresas. Um território que não se organiza, perde relevância nas decisões nacionais.
Neste momento, mais do que nunca, o discurso ESG precisa sair dos relatórios e se materializar em ações concretas. Governança é sobre antecipar riscos, responder com coesão e criar estratégias sustentáveis de longo prazo. É sobre proteger as pessoas, os empregos e o legado produtivo da nossa região.
Continua depois da publicidade
O Vale do Paraíba tem tudo para ser um modelo nacional de reação inteligente à instabilidade externa. Temos base tecnológica, capital humano, experiência industrial e capacidade de mobilização. O que precisamos agora é transformar tudo isso em ação coordenada, com metas, representação e diálogo com os entes federais.
Se a crise é inevitável, que seja também nossa oportunidade de mostrar que governança se pratica, e não apenas se prega. O futuro do Vale pode ser mais resiliente, mas isso depende da coragem de agirmos como um só organismo.
Veja outras matérias da coluna SUSTENTABILIDADE E REGENERAÇÃO no link: http://www.band.com.br/band-vale/colunistas/sustentabilidade-regeneracao
