Eleições 2026Contagem regressiva para o 2º turno
0dias
:
00horas
:
00min
:
00seg
São Paulo
São Paulo

Negar não é opção: o custo invisível do negacionismo climático

Por Fabiano Porto – (@fabiano.pporto)

4 min

04/07/2025 09:59 • Atualizado há 478 dias

Negar não é opção: o custo invisível do negacionismo climático

O que acontece com uma sociedade que se recusa a enxergar os sinais do colapso? A resposta está sendo escrita todos os dias nos termômetros quebrando recordes, nas secas severas que destroem lavouras, nas chuvas intensas que desabrigam milhares, e nas florestas em chamas que escurecem o céu de cidades a centenas de quilômetros de distância. Mesmo com a força da ciência e o acúmulo de dados que confirmam, sem margem para dúvida, que as atividades humanas estão interferindo no clima global, ainda há quem prefira acreditar que isso tudo “é da natureza”.

Continua depois da publicidade

Esse tipo de pensamento não é apenas um erro. É um atraso perigoso. E tem ganhado força justamente onde deveria haver mais responsabilidade: em parte da elite política, econômica e até empresarial. O boicote a políticas ESG, a destruição de conselhos ambientais, a desinformação promovida por influenciadores e até a negação da ciência em cargos públicos nos mostram o quanto o negacionismo climático se tornou uma ferramenta política.Mas os fatos estão aí. Incontornáveis. O relatório mais recente do IPCC, painel científico da ONU sobre mudanças climáticas, afirma que é “inequívoco” que o aquecimento global atual é causado por atividades humanas. Em outras palavras, não há dúvida.E quais atividades são essas?A queima de combustíveis fósseis, como carvão, gás e petróleo, é responsável por mais de 75% das emissões de gases de efeito estufa no planeta. O desmatamento, especialmente em regiões tropicais como a Amazônia, libera bilhões de toneladas de carbono armazenado no solo e nas árvores. A agropecuária industrial responde por cerca de 40% das emissões de metano, gás 80 vezes mais potente que o dióxido de carbono. A indústria do cimento sozinha é responsável por mais emissões do que todos os aviões comerciais do mundo somados.E não para por aí.Estamos perdendo biodiversidade em uma velocidade mil vezes maior do que o ritmo natural de extinção. Só nos últimos 50 anos, o planeta perdeu quase 70% da vida selvagem, segundo a WWF. As geleiras do Himalaia, Alpes e Andes estão derretendo. Os oceanos absorvem 90% do calor em excesso gerado pelo efeito estufa e estão aquecendo tão rápido que a frequência de ondas de calor marinhas quadruplicou desde os anos 80. O mar está subindo, as abelhas estão desaparecendo, o clima está entrando em colapso.Negar tudo isso não é uma opinião. É uma forma ativa de omissão.E o preço do negacionismo é alto. Um país que se recusa a reconhecer a crise climática se torna um território inseguro para investidores, vulnerável para sua população e incapaz de planejar políticas públicas minimamente eficazes. Empresas que continuam ignorando a pauta ambiental perdem espaço, reputação, acesso a crédito e se tornam obsoletas diante de um novo mercado que já entendeu que sustentabilidade não é um “tema”, é um critério de sobrevivência.Hoje, até os grandes fundos de investimento já deixaram isso claro. Não é sobre ideologia, é sobre risco e retorno. O próprio CEO da BlackRock, maior gestora de investimentos do mundo, afirmou que “não se trata de justiça social, mas de capitalismo baseado em relações mutuamente benéficas com funcionários, clientes e comunidades”. Em outras palavras, quem quiser prosperar precisa cuidar do planeta. Não existe mercado forte em planeta colapsado.O Acordo de Paris, assinado por 195 países, estabeleceu um limite claro: evitar que a temperatura média do planeta ultrapasse 1,5°C. Pode parecer pouco, mas cada fração de grau significa milhões de vidas impactadas, ecossistemas destruídos e trilhões em prejuízos econômicos. Só no Brasil, os eventos climáticos extremos causaram mais de R$ 300 bilhões em prejuízos na última década, segundo o IBGE. E as projeções indicam que esse número pode dobrar nos próximos anos.É preciso deixar claro: o negacionismo climático não é mais um debate acadêmico. É uma ameaça direta à estabilidade social, econômica e ambiental do planeta. É um freio de mão puxado enquanto caminhamos em direção a um abismo.

Dados da NASA confirmam 2024 como o ano mais quente da história

Dados da NASA confirmam 2024 como o ano mais quente da história

Mas ainda há tempo.Temos conhecimento, tecnologia e soluções disponíveis. A energia solar já é a fonte mais barata em diversas partes do mundo. A mobilidade elétrica avança. A agricultura regenerativa é capaz de recuperar solos, sequestrar carbono e aumentar a produtividade. A construção civil tem alternativas de baixo carbono. Cidades podem ser mais verdes, resilientes e saudáveis.A pergunta não é se podemos fazer a transição. É se temos coragem para isso.Negar a crise climática hoje é como ignorar o incêndio enquanto se discute de quem é a culpa do fósforo. É continuar acelerando rumo ao colapso com os olhos fechados, torcendo para que tudo não passe de um “alarmismo”. Mas não é. Os alertas estão aí. As sirenes já soaram.Negar não é opção. É hora de parar de buscar culpados e começar a agir. Como indivíduos, como empresas, como governos. A regeneração do planeta passa, necessariamente, pela regeneração do nosso olhar e da nossa consciência. O futuro será feito por quem tiver a coragem de encará-lo de frente.

Veja outras matérias da coluna SUSTENTABILIDADE E REGENERAÇÃO no link: http://www.band.com.br/band-vale/colunistas/sustentabilidade-regeneracao

Negar não é opção: o custo invisível do negacionismo climático