Quanto a previsão do tempo erra, quem paga a conta?
@fabiano.pporto

No início de agosto, moradores, empresários e turistas do Vale do Paraíba, Serra da Mantiqueira e Litoral Norte acompanharam com preocupação os alertas para a chegada de uma frente fria associada a um forte ciclone extratropical.
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A meteorologista Josélia Pegorim, da Climatempo, publicou no dia 4 de agosto uma previsão indicando possibilidade de rajadas entre 90 e 110 km/h no litoral paulista, Serra do Mar e Vale do Paraíba para a sexta-feira, dia 7. A Defesa Civil também colocou diferentes regiões paulistas em alerta e concessionárias reforçaram suas equipes preventivamente.
A expectativa de um evento severo rapidamente ganhou espaço nas redes sociais e grupos de mensagens. A palavra “tornado” também passou a circular associada ao fenômeno.
Mas existe aqui uma diferença importante.
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A própria previsão publicada pela Climatempo, assinada por Josélia Pegorim, apontava naquele momento risco de tornados principalmente para o Rio Grande do Sul, oeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná. No Vale do Paraíba e Litoral Norte, o principal risco previsto era de ventania. Um tornado realmente ocorreu posteriormente em Pedro Osório, no Rio Grande do Sul, confirmado pela Defesa Civil daquele estado.
A diferença parece pequena, mas é fundamental para compreendermos um dos maiores desafios atuais dos sistemas de alerta: uma coisa é a previsão meteorológica produzida pelos especialistas. Outra é a forma como essa informação chega à população.
O alerta chegou. O turista foi embora
Em alguns destinos turísticos da nossa região, depois de dias de expectativa por um cenário potencialmente perigoso, boa parte do fim de semana apresentou justamente o contrário: sol, céu aberto e condições favoráveis para atividades turísticas.
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Segundo relatos do setor hoteleiro local, houve estabelecimentos trabalhando com ocupação próxima de 30%, além de inúmeros cancelamentos realizados nos dias anteriores por turistas preocupados com as previsões meteorológicas.
Quartos ficaram vazios.
Restaurantes perderam clientes.
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Comércios deixaram de vender.
Passeios foram cancelados.
E um fim de semana que poderia representar faturamento importante para dezenas de pequenos negócios acabou comprometido pela expectativa de um fenômeno que, em alguns pontos da região, não aconteceu com a intensidade prevista.
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Mas seria correto simplesmente afirmar que “a meteorologia errou”?
A resposta é mais complexa.
O fenômeno existiu — mas não aconteceu igual em todos os lugares
Enquanto algumas localidades tiveram um fim de semana muito mais tranquilo do que o imaginado, outras realmente registraram ventos fortes.
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Um levantamento divulgado no dia 8 mostrou rajada de 73,4 km/h em Areias, no Vale do Paraíba, a maior registrada no Estado de São Paulo até aquele momento do dia.
No Litoral Norte, a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil) registrou rajadas de 70,9 km/h na manhã do dia 7, levando à suspensão temporária da travessia de balsas entre São Sebastião e Ilhabela por razões de segurança.
Portanto, não estamos falando de um fenômeno inexistente.
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O sistema meteorológico existiu. Produziu ventos fortes e trouxe riscos reais. O problema é que seus efeitos não ocorreram de maneira uniforme no território nem alcançaram, em muitos lugares, os extremos inicialmente considerados possíveis.
E é justamente aí que começa o grande dilema.
Prever o tempo é tentar antecipar um sistema caótico
Talvez seja necessário compreender primeiro que previsão meteorológica não é uma fotografia antecipada do futuro.
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É uma estimativa sobre futuros possíveis.
O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), uma das principais instituições de previsão meteorológica do mundo, explica que existem duas grandes fontes inevitáveis de incerteza: pequenas imprecisões sobre o estado inicial da atmosfera e as aproximações necessárias utilizadas pelos modelos matemáticos para representar o funcionamento extremamente complexo do sistema atmosférico.
E existe um agravante: a atmosfera é um sistema caótico.
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O meteorologista Roberto Buizza, pesquisador do ECMWF, explica em seus estudos sobre caos e previsão meteorológica que pequenas diferenças nas condições iniciais podem crescer rapidamente e resultar em previsões muito diferentes alguns dias depois.
É o famoso conceito popularizado como “efeito borboleta”.
Para lidar com isso, o ECMWF não realiza apenas uma previsão. Seu sistema de ensemble executa dezenas de simulações diferentes, introduzindo pequenas variações nas condições iniciais para identificar os diferentes cenários possíveis e suas probabilidades. Atualmente, seu sistema trabalha com 51 simulações para representar essa incerteza.
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Ou seja, quando vemos um mapa do tempo no celular, existe por trás daquela imagem aparentemente simples uma enorme quantidade de cálculos, hipóteses e probabilidades.
O problema dos eventos localizados
A dificuldade aumenta quando tratamos de fenômenos como tempestades severas, rajadas, granizo e tornados.
Uma massa de ar pode atingir uma cidade com muita força e produzir efeitos muito menores algumas dezenas de quilômetros adiante.
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Relevo, altitude, temperatura, umidade, formação de nuvens e inúmeras outras variáveis interferem nesses fenômenos. Isso é especialmente relevante em regiões geograficamente complexas como o Vale do Paraíba, cercado pelas serras da Mantiqueira e do Mar e conectado diretamente ao litoral.
É possível, portanto, existir uma previsão regional tecnicamente justificável e, ao mesmo tempo, moradores de determinada cidade olharem pela janela e pensarem:
“Não aconteceu nada.”
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As duas coisas não são necessariamente contraditórias.
Alertar ou não alertar?
Imagine agora a posição de quem precisa emitir um alerta.
Os modelos meteorológicos indicam uma possibilidade relevante de rajadas superiores a 90 ou 100 km/h em determinada região.
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Existem basicamente dois tipos de erro possíveis.
No primeiro, o alerta é emitido e o evento acaba sendo muito mais fraco do que o previsto.
Turistas cancelam viagens.
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Empresas têm prejuízo.
Eventos são suspensos.
Pais deixam de mandar seus filhos para determinadas atividades.
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Depois aparece o sol e surge a sensação de que houve exagero.
No segundo cenário, o alerta não é emitido — e o evento severo realmente acontece.
Árvores caem.
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Casas são destelhadas.
Estradas são bloqueadas.
Pessoas ficam sem energia.
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Acidentes acontecem.
E vidas podem ser perdidas.
Qual desses erros estamos mais dispostos a aceitar?
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Quando errar para menos é considerado pior
Uma pesquisa muito recente ajuda a responder essa pergunta.
Em junho de 2026, os pesquisadores Christoph Sauter e Kathrin Wapler, do Deutscher Wetterdienst (DWD), o Serviço Meteorológico Alemão, publicaram um estudo na revista científica Advances in Science and Research justamente para investigar quais erros meteorológicos mais incomodam as pessoas.
Eles analisaram erros relacionados ao horário, localização, intensidade e duração dos fenômenos a partir de duas pesquisas realizadas com o público na Alemanha.
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O resultado é interessante.
As pessoas avaliaram de maneira mais negativa previsões que subestimaram a intensidade de um evento do que aquelas que superestimaram o fenômeno.
Mais importante: Sauter e Wapler identificaram que os participantes avaliaram pior os chamados “eventos perdidos”, quando algo perigoso acontece sem ter sido devidamente previsto, do que os “falsos alarmes”, quando o alerta é emitido e o fenômeno acaba não acontecendo daquela maneira.
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Isso ajuda a compreender por que meteorologistas e órgãos de Defesa Civil geralmente trabalham com uma margem de segurança.
Quando existe risco relevante para vidas, a tendência natural é alertar.
E existem razões econômicas para isso também.
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Alertas meteorológicos salvam vidas e dinheiro
A Global Commission on Adaptation, comissão internacional criada para estudar estratégias de adaptação às mudanças climáticas, publicou em 2019 o relatório Adapt Now, analisando economicamente diferentes medidas de adaptação.
O estudo concluiu que sistemas de alerta antecipado podem gerar benefícios superiores a dez vezes o valor investido.
Segundo a comissão, apenas 24 horas de antecedência diante de uma tempestade ou onda de calor podem reduzir os danos provocados pelo evento em aproximadamente 30%. O mesmo estudo estimou que um investimento de US$ 800 milhões em sistemas de alerta nos países em desenvolvimento poderia evitar prejuízos entre US$ 3 bilhões e US$ 16 bilhões por ano.
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A Organização Meteorológica Mundial (OMM) incorporou esses dados à iniciativa internacional Early Warnings for All, que busca ampliar a cobertura mundial dos sistemas de alerta.
Portanto, definitivamente, a solução não é reduzir os alertas meteorológicos.
Precisamos deles.
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Talvez o principal desafio esteja em outro ponto.
O perigo de transformar possibilidade em certeza
Quando a previsão diz:
“Há possibilidade de rajadas de até 110 km/h”,
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muitas vezes a mensagem que chega ao cidadão é:
“Teremos ventos de 110 km/h.”
São informações completamente diferentes.
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Da mesma forma, quando existe risco de tornado no Rio Grande do Sul durante a formação de um ciclone que também provocará ventos no Sudeste, uma sequência de compartilhamentos nas redes sociais pode terminar produzindo a interpretação de que “há previsão de tornado no Vale do Paraíba”.
Assim nasce o telefone sem fio meteorológico.
Uma informação tecnicamente correta vai perdendo suas probabilidades, localização e contexto até se transformar em uma certeza assustadora.
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O próprio estudo de Christoph Sauter e Kathrin Wapler, do Serviço Meteorológico Alemão, observa que comunicar incertezas continua sendo um desafio. Segundo os pesquisadores, até informações aparentemente simples, como a probabilidade de chuva, são frequentemente interpretadas de maneira equivocada pelo público.
Talvez esteja justamente aí um dos principais pontos que precisamos evoluir.
O risco do “menino que gritava lobo”
Alertar excessivamente também possui consequências.
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Em 2015, os pesquisadores Joseph Ripberger, Carol Silva, Hank Jenkins-Smith, Deven Carlson, Mark James e Kerry Herron, ligados ao Center for Risk and Crisis Management da Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos, publicaram na revista científica Risk Analysis um estudo sobre erros em sistemas de alerta de tornados.
A pesquisa concluiu que a percepção de erros influencia a confiança das pessoas no sistema de alerta e, consequentemente, sua disposição para adotar medidas de proteção no futuro.
Em outras palavras: se alguém recebe repetidamente alertas que considera exagerados, pode começar a ignorá-los.
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E isso gera um problema perigosíssimo.
Porque o próximo pode ser verdadeiro.
Os próprios pesquisadores mostram que a confiança no National Weather Service, serviço meteorológico dos Estados Unidos, estava associada a uma maior disposição das pessoas em adotar comportamentos de proteção diante de novos alertas.
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A confiança, portanto, também é uma infraestrutura de segurança.
No turismo, o custo do erro se espalha pela economia
Essa discussão ganha outra dimensão quando olhamos para o turismo.
Em 2025, os pesquisadores Valério Souza-Neto, Brent Moyle, Yawei Jiang e Gui Lohmann, ligados ao Griffith Institute for Tourism, da Griffith University, na Austrália, com participação também do Núcleo de Economia e Administração do Turismo da Universidade de São Paulo (USP), publicaram uma revisão científica sobre a tomada de decisão dos turistas diante de condições meteorológicas adversas.
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Os pesquisadores concluíram que o clima interfere diretamente nas decisões dos visitantes, podendo gerar mudanças de roteiro, cancelamento ou substituição de atividades. O trabalho também destaca que destinos dependentes das condições climáticas — como regiões litorâneas, de montanha e de turismo de natureza — são particularmente sensíveis a essas alterações.
É exatamente o perfil de boa parte da nossa região.
E quando um turista cancela uma hospedagem, o prejuízo não fica apenas na pousada.
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Ele deixa de almoçar no restaurante. Não compra do artesão. Não contrata o guia. Não visita o produtor rural. Não abastece o carro. Não frequenta o comércio. Não participa do passeio.
O turismo funciona como uma extensa cadeia econômica. Em pequenas localidades, perder um único fim de semana de grande movimento pode representar uma parcela relevante do faturamento mensal de dezenas ou centenas de negócios.
Por isso, um alerta meteorológico também possui consequências econômicas e sociais.
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Precisamos comunicar melhor o risco
Talvez uma evolução importante esteja em tornar as previsões cada vez mais probabilísticas e compreensíveis para a população.
Em vez de comunicar apenas:
“Rajadas podem chegar a 100 km/h.”
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Seria importante responder também:
Qual é a probabilidade?
Em quais municípios o risco é maior?
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Durante qual período?
Qual é o cenário mais provável?
Qual é o pior cenário possível?
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Quando essa previsão será atualizada novamente?
Existe enorme diferença entre uma chance de 10%, 40% ou 80% de determinado fenômeno acontecer.
Para quem administra uma pousada, organiza um festival, opera uma balsa, controla uma rodovia ou precisa decidir se cancela uma atividade, essa informação faz muita diferença.
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Não podemos escolher entre economia e segurança
O episódio recente deixa uma lição importante.
Não podemos atacar os sistemas meteorológicos porque algumas previsões não se concretizaram exatamente como esperado.
Seria irresponsável.
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Da mesma maneira, também não podemos ignorar que alertas muito abrangentes, informações descontextualizadas e principalmente o sensacionalismo na retransmissão dessas previsões podem produzir prejuízos econômicos reais.
O caminho está no aperfeiçoamento. Mais estações meteorológicas. Melhores modelos.
Dados em maior resolução. Inteligência artificial aplicada à previsão. Mais informações locais.
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E, principalmente, uma comunicação de risco capaz de explicar que possibilidade não significa certeza.
Meteorologia trabalha com probabilidades. Defesa Civil trabalha com prevenção. Empresários trabalham com riscos econômicos. E cidadãos precisam decidir como agir diante dessas informações. Entre o alarmismo e a omissão existe um espaço fundamental que precisamos aprender a ocupar. Porque talvez a pergunta mais importante não seja se a previsão “acertou” ou “errou”.
A verdadeira questão é muito mais difícil:
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como proteger vidas sem produzir medo desnecessário e, ao mesmo tempo, proteger a economia sem subestimar riscos que podem se transformar em tragédias?
Encontrar esse equilíbrio será cada vez mais importante em uma sociedade que precisa aprender não apenas a prever o clima, mas também a conviver com sua inevitável incerteza.
Veja outras matérias da coluna SUSTENTABILIDADE E REGENERAÇÃO no link: http://www.band.com.br/band-vale/colunistas/sustentabilidade-regeneracao
