Quando o Lucro Vale Mais do que a Vida
Por Fabiano Porto (@fabiano.pporto)

No dia 17 de julho, data em que celebramos o Dia Nacional de Proteção das Florestas, a Câmara dos Deputados aprovou a chamada "PL da Devastação", projeto já aprovado pelo Senado, que libera e flexibiliza normas de proteção ambiental no país. Um símbolo cruel da inversão de valores que vivemos, justamente no dia em que deveríamos celebrar e proteger nossas florestas, institucionalizamos sua destruição.
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E este não é um caso isolado. Enquanto escrevo este artigo, avança também a proposta de exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas, uma região de altíssima biodiversidade e fundamental para o equilíbrio climático global. É mais um exemplo de como a lógica do lucro financeiro de curto prazo continua a suplantar o respeito à vida e à integridade dos ecossistemas.
Seguimos aprisionados a uma mentalidade que enxerga a natureza como um estoque de “recursos naturais” a serem explorados, e não como um sistema vivo do qual fazemos parte. Esquecemos que os elementos que compõem cada molécula do nosso corpo, o oxigênio que respiramos, a água que nos hidrata, o fósforo que ativa nossas células, são os mesmos que circulam no solo, nas águas e no ar da Terra. Não estamos apenas no planeta, nós somos o planeta. Destruir a natureza é, em última instância, destruir a nós mesmos.

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Um modelo econômico contra a vida
Não faltam dados. Segundo a Circularity Gap Report, a economia global consome 70% a mais do que a Terra consegue repor com segurança e transforma em lixo mais de 91% de tudo o que produz. Vivemos sob o domínio de um modelo econômico predatório, baseado em um PIB que só soma, mas não questiona. Soma desmatamento, exploração, violência, catástrofes ambientais, tudo como se fosse progresso.
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É o modelo que celebra o crescimento do PIB mesmo que este venha da destruição de florestas, da poluição de rios, da queima de combustíveis fósseis. Um modelo que ignora o custo real que esse “desenvolvimento” impõe às gerações futuras. Enquanto isso, os indicadores que realmente importam para a qualidade de vida seguem à margem, a desigualdade, medida pelo índice de Gini, o bem-estar coletivo, como o FIB, Felicidade Interna Bruta, adotado pelo Butão, ou o equilíbrio entre prosperidade e limites ecológicos, como a Economia Donut, implementada por Amsterdã.
Um novo paradigma é possível, e urgente
Ao invés de perseguirmos a todo custo o crescimento do “bruto”, como sugere o PIB, precisamos compreender que desenvolvimento não pode mais significar destruição. O futuro deve ser guiado por novos referenciais, que reconheçam os limites planetários e a necessidade de regenerar os ecossistemas degradados.
Não se trata de utopia. O FIB, por exemplo, inclui dimensões como saúde, cultura, uso do tempo e bem-estar psicológico. Já o indicador de Gini mede a desigualdade na distribuição de renda, quanto menor o índice, mais justa é uma sociedade. São ferramentas essenciais para avaliar o que realmente importa, a qualidade de vida, e não apenas a quantidade de bens produzidos.
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Enquanto isso, o mundo clama por mudanças. Nos Estados Unidos, assistimos ao desmonte de políticas ambientais e ao retorno de subsídios à indústria do petróleo. No Brasil, seguimos flexibilizando normas ambientais em um contexto de emergência climática. O Acordo de Paris, que visa limitar o aquecimento global a no máximo 1,5°C, já está ameaçado, e a destruição da Amazônia segue como uma das principais fontes de emissão de gases de efeito estufa no país.

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Não há futuro sem consciência
Chegamos a um ponto em que não basta mais falar em sustentabilidade. É preciso falar em regeneração. Precisamos regenerar não apenas os ecossistemas, mas também nossos modelos mentais. A lógica do lucro a qualquer custo precisa dar lugar à lógica da vida. E essa transição exige um novo tipo de consciência, individual e coletiva.
Apesar de parecer irracional, seguimos como humanidade mais preocupados com o dia a dia e o lucro imediato, sem nos incomodar com o colapso futuro, por mais próximo que ele esteja. Precisamos despertar. Precisamos atualizar o sistema econômico, político e educacional para que esteja em sintonia com a vida, e não em guerra contra ela.
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Que o dia 17 de julho sirva como marco de reflexão. Que seja lembrado como o dia em que decidimos não mais aceitar que o valor de uma floresta seja menor que o lucro de uma bancada. Que o grito da Terra ecoe mais alto que o tilintar das moedas.
O futuro não será sustentável se não for, antes, profundamente consciente.
Veja outras matérias da coluna SUSTENTABILIDADE E REGENERAÇÃO no link: http://www.band.com.br/band-vale/colunistas/sustentabilidade-regeneracao
