
Irlanda do Norte: esfaqueamento provoca protestos violentos
REUTERS/Isabel Infantes
Um ataque brutal com faca em uma rua da Irlanda do Norte desencadeou duas noites de violentos distúrbios, alimentados por discursos anti-imigrantes.
O suspeito, um sudanês de 30 anos que havia solicitado asilo no Reino Unido, foi acusado de tentativa de homicídio, após ataque ocorrido no norte de Belfast na noite de segunda-feira (8). Também foi acusado de ameaça de morte e porte de faca.
Os protestos contra o ataque resultaram em violência em Belfast e em várias outras áreas. Homens mascarados incendiaram diversas casas que acreditavam abrigar imigrantes, atearam fogo a um ônibus e atiraram pedras e outros objetos contra a polícia.
O governo afirmou que mais de duas dezenas de pessoas perderam suas casas e 12 policiais ficaram feridos no que o secretário para a Irlanda do Norte, Hilary Benn, chamou, nesta quinta-feira (10), de "violência racista".

Bombeiro contém incêndio após protesto violento na Irlanda do Norte (Reuters/Isabel Infantes)
Vídeo registrou esfaqueamento
Segundo a polícia, Hadi Alodid usou uma faca de cozinha para cegar Stephen Ogilvie no olho esquerdo e causou ferimentos profundos em sua cabeça, rosto e costas. Imagens do ataque e da reação de transeuntes que imobilizaram o agressor se espalharam rapidamente nas redes sociais.
Enquanto Alodid recebia tratamento para um ferimento na mão, ele ameaçou matar um radiologista. "Matei alguém, não sei se a pessoa está morta", disse Alodid à equipe médica, segundo um detetive que falou no tribunal.
A polícia não revelou a motivação do ataque, mas afirmou que não acredita que seja terrorismo. Alodid não se declarou culpado durante sua comparecimento ao tribunal na quarta-feira (10), e teve sua prisão preventiva decretada até a próxima audiência.
Políticos se aproveitam de crimes
A reação aos ataques com faca reflete um aumento generalizado do sentimento anti-imigração em partes do Reino Unido e da Europa, alimentado pelo debate político sobre requerentes de asilo, travessias em pequenas embarcações e pressão sobre os serviços públicos.
Os manifestantes foram convocados para a ação nas redes sociais por ativistas do Reino Unido, incluindo Stephen Yaxley-Lennon, também conhecido como Tommy Robinson, e mobilizados por figuras influentes internacionais, como o magnata da tecnologia Elon Musk.
Musk publicou mais de 100 tuítes sobre a política britânica, com foco especial no assassinato de Henry Nowak, por volta da época do julgamento de seu agressor, Vickrum Digwa, e se ofereceu para financiar um processo privado contra a polícia local.
O crime contra Nowark ocorreu em dezembro do ano passado e indignou a população pelo fato de a polícia, ao chegar ao local, ter apontado Nowak com o agressor. Inicialmente, ignoraram os apelos de Nowak de que havia sido esfaqueado e não conseguia respirar, e o algemaram enquanto ele agonizava.
O vice-presidente dos EUA, JD Vance, em uma postagem no X, atribuiu o assassinato de Nowak à "invasão em massa de migrantes, muitos dos quais desprezam o Ocidente e as pessoas que o amam".
O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, respondeu às críticas de Musk e Vance, condenando pessoas que "tentam interferir em nossa democracia e buscam fomentar a divisão em nossas ruas".
Mark Rowley, chefe da Polícia Metropolitana de Londres, afirmou que a desinformação e a informação falsa online estão "bem no centro dos nossos desafios em relação à desordem pública".
Algumas figuras políticas apontaram para a fronteira praticamente aberta entre a Irlanda do Norte, que faz parte do Reino Unido, e a República da Irlanda, por onde o suspeito chegou a Dublin vindo de Paris antes de seguir para o norte.
Com Estadão Conteúdo
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