
Toquinho relembra casos de censura na Ditadura e a origem inusitada de "Tonga da Mironga"
Reprodução/Band
Em entrevista ao programa Canal Livre, o cantor e compositor Toquinho compartilhou histórias curiosas sobre o período da ditadura militar no Brasil, relembrando como ele e seus parceiros lidavam com a censura e a criação musical em tempos de repressão.
Durante a conversa, Toquinho recordou a inauguração do Teatro Paiol, em Curitiba, durante a primeira gestão do prefeito Jaime Lerner, a quem se referiu como um grande amigo. O local, que antigamente servia como um paiol de pólvora, inspirou a composição de uma música homônima.
"Nós fizemos uma música ligado ao Brasil: 'estamos sentados num paiol de pólvora'", explicou Toquinho, fazendo uma analogia entre o local físico e a tensão política da época. A canção foi censurada, mas sua melodia acabou sendo utilizada na trilha sonora da novela O Bem-Amado, embora a letra tenha permanecido vetada.
O músico destacou que, naquela época, era comum um único artista compor toda a trilha de uma novela, cenário que mudou posteriormente com a entrada da gravadora Som Livre. Ele também comentou sobre a arbitrariedade dos cortes: "Às vezes a mulher do censor não gostava daquilo", brincou.
A origem de "Tonga da Mironga do Kabuletê"
Um dos pontos altos da entrevista foi a explicação sobre a origem da famosa canção "A Tonga da Mironga do Kabuletê". Toquinho contou que a inspiração surgiu após presenciar uma briga no Mercado Modelo, na Bahia, onde ouviu a expressão sendo usada como um xingamento.
"É um palavrão com a mãe no meio, num dialeto nagô", revelou o compositor. Ao levar a expressão para Vinicius de Moraes, o poeta se entusiasmou com a ideia de poder xingar os opressores sem que eles percebessem.
A música serviu como um desabafo contra figuras da época: "Nós estávamos nessa fase que tinha vontade de mandar os delatores, os chatos, para aquele lugar", disse Toquinho. A letra mirava especificamente em "delatores, caras desagradáveis e omissos".
Toquinho ainda relembrou um detalhe da gravação original, que contou com a participação do sambista Monsueto. Ele fez um discurso "fanho", emitindo sons que pareciam palavras mas não diziam nada ("Hanh, hanh, hanh"). Segundo Toquinho, isso representava o espírito do tempo: "Era um discurso sem falar absolutamente nada, porque naquela época não se podia dizer nada".
Para o artista, a canção conseguiu transformar uma crítica subliminar em algo alegre e divertido, que até as crianças gostavam, apesar do significado oculto.
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