
Carla Zambelli
Carla Zambelli (Foto: Michel Jesus/ Câmara dos Deputados)
Após deixar o Brasil, a deputada Carla Zambelli (PL-SP) foi presa nesta terça-feira (29) em Roma, na Itália. Ela havia sido condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a dez anos de prisão pela invasão ao sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Dois dias depois da fuga, seu nome foi incluído na lista vermelha da Interpol. Além do tempo de reclusão, os ministros determinaram a perda do cargo na Câmara dos Deputados.
A extradição de Zambelli levará meses para ser concluída. Em paralelo, mesmo presa, ela não perde o mandato de imediato, cabendo ao plenário da Câmara decidir pela cassação. Também há a possibilidade de Zambelli perder o mandato por exceder o limite de faltas não justificadas.
O que ocorre depois da prisão?
Após a detenção, o próximo passo é a confirmação da prisão da parlamentar. O órgão da Itália equivalente ao Ministério da Justiça brasileiro avaliará se pede ou não a confirmação da prisão de Zambelli. A decisão cabe ao Judiciário italiano.
O Brasil, em seguida, deve formalizar o pedido de extradição. O processo envolve as manifestações do Ministério Público italiano e da defesa de Carla Zambelli. A decisão, novamente, caberá à Justiça da Itália.
Segundo juristas ouvidos pelo Estadão, todo esse trâmite pode levar de um ano e meio a dois anos.
Zambelli que se apresentou às autoridades e fala em ser julgada na Itália
Em vídeo publicado em seu perfil no Instagram, antes da prisão de Zambelli, o advogado dela, Fábio Pagnozzi, disse que a deputada decidiu se apresentar às autoridades para se defender, que nunca foi foragida na Itália e que buscará pela não-extradição. A deputada também se defendeu em gravação na postagem.
“Vou me apresentar às autoridades italianas e estou muito segura de fazê-lo, porque aqui nós ainda temos justiça e democracia, não temos um ditador no poder, não temos a autoridade ditatorial de um Alexandre de Moraes e seus comparsas da Suprema Corte. Estou calma, tranquila, o coração sereno de que, aqui, buscarei justiça para o meu caso. Quando disse que era intocável, é porque disse que só Deus poderia me tocar. Eu não vou voltar para o Brasil para cumprir pena. Se tiver que cumprir qualquer pena, vai ser aqui na Itália”, defendeu-se a deputada.
As redes sociais da deputada e de seus familiares foram retiradas do ar por determinação do STF. Na filmagem, ela nega ter ordenado o ataque ao sistema do CNJ e alega que o hacker Delgatti mudou várias vezes seu depoimento.
Carla Zambelli foi condenada pelo quê?
Além da condenação pela invasão ao sistema do CNJ, Zambelli é ré por empunhar uma arma contra um homem na véspera do segundo turno da eleição presidencial de 2022. O julgamento por porte ilegal de arma e constrangimento ilegal está pausado por um pedido de vista do ministro Nunes Marques, mas já há maioria entre os ministros do Supremo para condená-la.
Zambelli foi denunciada pelo Ministério Público Federal por ter coordenado um ataque hacker ao sistema Poder Judiciário. A ação executada pelo hacker Walter Delgatti Neto, segundo as investigações. Durante o ataque, foi emitido um mandado falso de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF. "Expeça-se o mandado de prisão em desfavor de mim mesmo, Alexandre de Moraes. Publique-se, intime-se e faz o L", dizia o documento falso.
A Polícia Federal (PF) apontou, no relatório da investigação, que documentos apreendidos com a deputada correspondem aos arquivos inseridos pelo hacker no sistema do CNJ, o que para os investigadores comprova que ela participou do ataque. Segundo os investigadores, o ataque foi planejado para colocar em dúvida a credibilidade do Poder Judiciário. Em 14 de maio, Zambelli foi condenada por unanimidade.
Porte ilegal e constrangimento com arma de fogo
Em 25 de março, o STF formou maioria para condenar a deputada por porte ilegal de arma e constrangimento ilegal com uso de arma de fogo. O julgamento não está encerrado, pois houve um pedido de vista do ministro Kassio Nunes Marques, mas os votos restantes não serão suficientes para reverter o resultado da ação penal.
O episódio que originou o processo ocorreu em um sábado, 29 de outubro de 2022, na véspera do segundo turno da eleição presidencial. Zambelli foi filmada com a pistola em punho, atravessando uma faixa de pedestres, enquanto perseguia um homem, identificado mais tarde como o jornalista Luan Araújo. Para fugir, Luan entrou em um restaurante. A deputada também entrou no estabelecimento e, ainda empunhando a arma, mandou o homem deitar no chão.
Segundo os relatos, a confusão, em que um tiro chegou a ser disparado, começou com um bate-boca, e Zambelli reagiu após ouvir que "amanhã é Lula" e "vocês vão voltar para o bueiro de onde não deveriam ter saído, seus filhos da p*".
O episódio fez com que a deputada tivesse seu porte de arma suspenso e três armas apreendidas, além da pistola usada no dia da perseguição, entregue por ela.
Um dia antes de ser formada a maioria para a condenação, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) atribuiu sua derrota no pleito presidencial ao incidente com Zambelli. Nesta terça, em entrevista ao canal do YouTube Auriverde Brasil, a deputada federal queixou-se de ser um "bode expiatório" da derrota de Bolsonaro na eleição.
Durante o programa, Zambelli disse que terá a Europa como destino e que, a exemplo de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, pretende pressionar autoridades estrangeiras para a imposição de sanções ao Brasil.
"O caminho nos Estados Unidos já está asfaltado (pelo Eduardo Bolsonaro e pelo Paulo Figueiredo). É justamente por isso que estou escolhendo a Europa. Lá a gente precisa de alguém que fale espanhol, português, inglês. Eu vou desenvolver meu italiano. Quero estar nos principais lugares, falar com o povo francês. Em cada lugar temos pessoas que podem lutar por nós", afirmou ao canal.
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