
Ataques das Forças Armadas da Ucrânia a refinarias desencadearam uma nova crise de combustíveis na Rússia. Segundo a agência de notícias Reuters, pelo menos 30 regiões já foram afetadas. Diferentemente da onda anterior de escassez de gasolina, que começou no fim de maio e durou até meados de julho, a crise atual atinge especialmente Moscou e os arredores da capital. Usuários de redes sociais relatam o problema. As redes de postos Gazprom Neft e Tatneft já restringiram a venda de combustíveis na capital russa.
"Não se pode dizer que não exista gasolina alguma. Mas a crise é perceptível. Não é apenas um problema pessoal, quando alguém não sabe se conseguirá sair da cidade e voltar. É também um problema econômico”, afirma Oleg Grigorenko, do portal russo 7x, em entrevista à DW.
Segundo o editor-chefe do site independente, classificado pelas autoridades russas como "agente estrangeiro" motoristas de táxi, serviços de entrega e o setor da construção já registram queda de demanda em várias regiões. O motivo seria a dependência de muitas cadeias logísticas em relação ao combustível.
"A logística das empresas privadas de construção depende fortemente da gasolina", explica Grigorenko.
Também na região sul de Krasnodar, segundo a imprensa local, formam-se filas de várias horas nos postos. As autoridades atribuem o problema a um suposto aumento da demanda durante o período de férias. Mas muitos moradores já falam em desastre para a temporada de verão.
"A atual Sochi, com sua tranquilidade e ritmo de vida desacelerado, lembra a época anterior aos Jogos Olímpicos, quando havia poucos carros nas ruas e a cidade tinha muito menos turistas e moradores. Mas há uma diferença: em Sochi não há gasolina", escreveu no Instagram o corretor de imóveis Igor Sakhartchenko, natural da cidade às margens do Mar Negro, que sediou os Jogos Olímpicos de Inverno em 2014.
Queda na qualidade da gasolinae
Igor Ananskikh, primeiro vice-presidente da Comissão de Energia da Duma Estatal, declarou à emissora RTVI que o abastecimento de combustível deverá se normalizar em duas a três semanas.
Nikolai Korshenevski, porém, considera essa previsão improvável. O economista deixou a Rússia em protesto contra a guerra na Ucrânia e hoje vive no exterior. Em entrevista à DW, ele aponta uma queda da qualidade da gasolina.
Conhecidos lhe enviaram fotos de veículos exibindo mensagens de falha no motor provocadas por combustível contaminado.
"O carro simplesmente não liga mais e precisa ser levado à oficina. As mesmas pessoas me dizem que, mesmo em Moscou, há meses de espera para conseguir atendimento em oficinas. Depois disso, é preciso aguardar ainda mais meses por peças de reposição. Aparentemente, parte dos veículos não suporta a gasolina que está sendo colocada nos tanques", afirma.
"Há uma guerra em andamento, e não está claro o que está sendo produzido nem em que proporções os combustíveis estão sendo misturados". Para Korshenevski, os problemas persistentes no setor de petróleo e gás são sinais de uma crise muito mais profunda.
Segundo a agência Bloomberg, as exportações russas de petróleo caíram durante a guerra para níveis sem precedentes e a produção também diminuiu.
"Em 2019, a Rússia produzia 11,5 milhões de barris por dia. Hoje, são menos de nove milhões. Se essa tendência continuar e os problemas de refino se agravarem, a produção pode cair para oito milhões de barris. Isso já criaria as condições para uma crise econômica e sistêmica em grande escala", prevê.
Ele não vê uma solução rápida para os problemas e acredita que a Rússia esteja seguindo um caminho semelhante ao da Venezuela, com uma economia marcada pela contração contínua do Produto Interno Bruto (PIB).
Esperanças de importação são ilusórias
Na avaliação de Viacheslav Shiryaev, comentarista econômico russo que também vive no exterior, não será possível resolver a escassez por meio de importações da Índia, da China ou de outros países, como sugerem as autoridades russas.
"Diante do isolamento em que a Rússia se encontra, é impossível garantir o fornecimento de 200 mil toneladas de combustíveis por dia, aproximadamente a quantidade de gasolina e diesel de que a Rússia necessita diariamente", diz à DW.
Shiryaev, que se posicionou publicamente contra a guerra, também foi incluído pelas autoridades russas na lista de "agentes estrangeiros".
O economista Igor Lipsits destaca que as refinarias atingidas não podem ser restauradas rapidamente. Além disso, elas continuam vulneráveis a novos ataques aéreos. Segundo ele, as autoridades tendem a restringir o consumo de combustíveis. "Esse processo já começou”, observa.
Serviços de emergência, polícia, bombeiros, órgãos municipais e forças de segurança terão prioridade no abastecimento.
"Isso acontece diante dos olhos de pessoas que aguardam horas nas filas, o que gera muito ressentimento", ressalta Lipsits, crítico do Kremlin que deixou a Rússia e hoje vive no exílio europeu.
Para ele, a situação lembra o período de declínio daUnião Soviética.
"Os dirigentes tinham sistemas especiais de abastecimento, lojas e depósitos exclusivos onde podiam comprar tudo o que desejavam sem filas e a preços relativamente baixos. Isso provocava grande revolta entre os cidadãos soviéticos. Quando [o ex-presidente russo] Boris Iéltsin prometeu acabar com esses centros fechados de distribuição, recebeu amplo apoio popular. Hoje estamos voltando a uma situação semelhante", afirma.
Segundo Lipsits, está surgindo na Rússia um sistema fechado de distribuição de combustíveis, que poderá transformar dirigir um automóvel em um luxo.
Chave para o fim da guerra?
Na avaliação de Viacheslav Shiryaev, os ataques ucranianos contra alvos russos de uso militar e civil podem paralisar a economia russa e acelerar o fim da guerra. Segundo ele, o conflito poderia terminar em poucas semanas se o Ocidente ajudasse a Ucrânia a dobrar ou triplicar a intensidade de seus ataques.
"A Ucrânia poderia provocar desorganização e caos no interior da Rússia, levando a uma perda total de controle", afirma.
Ele acredita ainda que a escassez de combustíveis pode desempenhar um papel decisivo no enfraquecimento da estabilidade do regime de Vladimir Putin.
"Sem diesel, 6 mil quilômetros de ferrovias na Rússia ficariam paralisados. Centenas de empresas poderiam interromper suas atividades. Sem diesel, dezenas de milhares de caminhões deixariam de circular, os alimentos não chegariam aos supermercados e os agricultores não conseguiriam colher suas safras", ressalta.
Segundo Shiryaev, tudo isso poderia comprometer muito mais rapidamente os planos de Putin de continuar a guerra.
"Se a Ucrânia destruir toda a capacidade de refino de petróleo, Putin perceberá que suas ordens já não podem ser executadas. Com a falta de combustível, simplesmente tudo para", conclui.
Autor: Denis Kisinevskij
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