Resumo
A guerra da Ucrânia, que completa quatro anos, resultou em milhares de mortos, deslocamento em massa de ucranianos para a Europa Ocidental e forte impacto econômico, com queda de mais de 20% no PIB ucraniano e custos de reconstrução estimados em 588 bilhões de dólares pelo spread dos ataques russos à infraestrutura.
A economia russa demonstrou resiliência frente às sanções, redirecionando exportações, ampliando a produção bélica e mantendo estabilidade interna, enquanto o presidente Vladimir Putin reforça sua posição política e o discurso de enfrentamento ao Ocidente, mesmo com inflação mais alta e menor presença de marcas ocidentais.
O conflito transformou o planejamento militar global com uso intensivo de drones e aumento dos gastos em defesa na Europa, intensificou disputas geopolíticas com expansão da OTAN e aproximação da Rússia com China e Índia, e manteve o impasse diplomático, sem previsão de cessar-fogo, apesar das negociações em andamento.
A guerra da Ucrânia completa quatro anos nesta terça-feira (24), consolidando uma transformação profunda no cenário internacional. São milhares de mortos entre civis e militares nos dois lados. Um deslocamento em massa de famílias ucranianas para a Europa Ocidental, especialmente mães com filhas, já que o alistamento militar em Kiev é entre 18 e 60 anos de idade.
Segundo o Banco Mundial, reconstruir o país devastado pela invasão russa pode custar cerca de 588 bilhões de dólares — algo em torno de 3 trilhões de reais — ao longo de uma década. O valor subiu 12% em relação ao ano passado, principalmente por causa da intensificação dos ataques russos à infraestrutura energética. O setor habitacional é o mais afetado, e o PIB ucraniano caiu mais de 20% desde o início do conflito.
Do lado russo, o cenário é mais resiliente do que muitos previam em 2022. Apesar das sanções ocidentais e do isolamento em relação à Europa, a economia se reorganizou. A Rússia redirecionou exportações de petróleo e gás para mercados asiáticos, ampliou a produção da indústria de defesa e manteve estabilidade macroeconômica, sustentada pelo gasto estatal elevado.
Eu também estive na Rússia nestes 4 anos. Em Moscou, São Petersburgo e Kazan. Por lá, para os civis, é vida que segue. Para o front, além do forte exército russo, o país conta com mercenários... ou como eles dizem "voluntários patriotas".
O presidente Vladimir Putin continua politicamente forte, reforçando o discurso de enfrentamento ao Ocidente e tratando o conflito como parte de uma disputa estratégica maior contra a OTAN e os Estados Unidos. Nas grandes cidades russas, a rotina segue relativamente normal, embora com inflação mais alta e menor presença de marcas ocidentais.
A nova face da guerra e a corrida bélica europeia
Militarmente, a guerra mudou o planejamento global. A expectativa inicial de uma ofensiva rápida deu lugar a um conflito de desgaste, com trincheiras, artilharia pesada e uso massivo de drones — tecnologia que passou a redefinir estratégias e investimentos militares no mundo inteiro.
Geopoliticamente, o impacto é amplo. A OTAN se expandiu e aumentou gastos em defesa, enquanto a Europa reduziu drasticamente sua dependência energética da Rússia. O continente vem ampliando seus gastos com defesa. A Alemanha e França disputam quem vai ter o exército mais potente da Europa, inclusive com Berlim voltando ao seu passado bélico.
Em resposta, Moscou aprofundou laços com potências como China e Índia, acelerando uma reorganização do equilíbrio global de poder. A posição dos Estados Unidos, que durante o governo Biden, quando a guerra começou era amplamente favorável à Ucrânia e Europa Ocidental mudou a partir do governo Trump, que tenta ser o mediador para encerrar essa guerra, e trazer a Rússia mais pro lado do ocidente e reduzir a influência da China.
As raízes históricas e o impasse diplomático
A Rússia atacou a Ucrânia alegando defender o seu próprio território. Após a queda da União Soviética há mais de 3 décadas a Aliança Militar do Atlântico Norte, ao contrário do que havia prometido aos russos, avançou sua influência sobre o antigo domínio soviético. Países como Polônia, Bulgária, Estônia, Letônia, República Tcheca e Eslováquia entraram para a União Europeia e passaram a integrar a OTAN.
Para a Rússia, a gota d'água seria a possibilidade de Kiev fazer parte da aliança. A Ucrânia historicamente ligada à Rússia e com regiões onde boa parte da população é de etnia russa, como o caso da Crimeia e Donbass. Por outro lado, na Ucrânia, país independente que se tornou, quer se tornar uma democracia nos moldes na Europa Ocidental, inclusive passar a integrar a União Europeia e também a OTAN, não aceitando mais a influência de Moscou.
Há o desejo russo de estabelecer sua influência geopolítica na região e o bloco europeu teme que este avanço vá além e bata às portas de suas fronteiras. Enquanto as mortes continuam no front, as tentativas de paz, desde o fim do ano passado, seguem, mas sem ainda uma previsão de cessar-fogo. Pelo menos as tratativas estão em curso e o mundo sempre espera que a guerra acabe.
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