
O conflito envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irã gerou consequências que ultrapassam o campo militar na região do Golfo Pérsico, abalando as relações entre os seis membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG): Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU), Catar, Kuwait, Omã e Bahrein.
Mesmo com um cessar-fogo formal em vigor, a trégua é constantemente violada por bombardeios de drones e mísseis contra infraestruturas estratégicas. A situação piorou com o bloqueio do Estreito de Ormuz, imposto por Washington e Teerã, prejudicando o comércio e a economia local, enquanto os governos da região tentam evitar o envolvimento direto na guerra.
Fim da imagem de "porto seguro" e a crise no turismo
Nos últimos anos, os países do Golfo investiram na diversificação econômica para reduzir a dependência do petróleo, focando em setores como tecnologia, logística, aviação e turismo. Contudo, a guerra mudou drasticamente as percepções de segurança.
- Crise na aviação: Em março de 2026, ataques de drones iranianos contra o aeroporto de Dubai provocaram o cancelamento de mais de 30 mil voos no Oriente Médio. O bloqueio logístico também fez o preço do combustível de aviação duplicar.
- Queda no turismo: A imagem de estabilidade da região foi prejudicada. Analistas apontam que os viajantes agora hesitam em visitar os EAU devido aos riscos geopolíticos. A Moody's prevê que a ocupação hoteleira em Dubai despenque de 80% para 10% no segundo trimestre de 2026.
Desaceleração econômica: O Banco Mundial revisou a projeção de crescimento do CCG para 2026, reduzindo-a de 4,4% para 1,3%.
Danos à Infraestrutura Energética e Divisões no Mercado de Petróleo
A infraestrutura de energia também foi alvo de ataques iranianos. No Catar, a estatal QatarEnergy estima que a reconstrução do polo industrial de Ras Laffan, atingido por um míssil, levará até cinco anos, provocando um retrocesso de décadas para o desenvolvimento local.
O bloqueio de Ormuz, usado como moeda de troca política entre EUA e Irã, afetou o fluxo do petróleo global (um quinto do total mundial passa por ali) e prejudicou o crédito de países como o Bahrein. Por outro lado, algumas nações conseguiram lucrar ao utilizar rotas alternativas:
A Arábia Saudita redirecionou suas exportações para o Mar Vermelho via oleodutos terrestres, registrando um aumento de 26% nos lucros no início de 2026.
Os Emirados Árabes Unidos usaram rotas que evitam o estreito e, buscando maior autonomia, se retiraram da Opep e da Opep+ em maio de 2026.
Defesa e o "novo normal" nas relações com o Irã
Especialistas preveem que, mesmo após o fim dos combates, a economia da região continuará pressionada por altas taxas de seguro. Embora o setor financeiro tenda a se recuperar mais rápido, a guerra trouxe lições políticas duradouras: os países do Golfo entenderam que não podem terceirizar sua proteção aos EUA ou neutralizar o Irã apenas com incentivos financeiros.
Diante disso, novas alianças de segurança surgiram:
O Catar firmou acordos de defesa com o Canadá.
Os Emirados se aliaram à França e teriam recebido o sistema de defesa Domo de Ferro de Israel (país com o qual normalizaram relações em 2020, tornando-se alvo do Irã).
Apesar das tensões, os Emirados mantêm os canais diplomáticos abertos com Teerã, adotando um discurso de convivência pacífica. Cientistas políticos avaliam que a instabilidade se tornou uma constante e que o Golfo terá de aprender a gerenciar a convivência de longo prazo com o regime iraniano.
Endurecimento político e repressão interna
Como reflexo da instabilidade, houve um aumento no autoritarismo local. A Anistia Internacional denunciou a prisão de mais de mil pessoas na região, muitas delas detidas por expressarem opiniões sobre o conflito na internet.
Embora os Estados tenham o direito de proteger a segurança nacional em tempos de guerra, entidades de direitos humanos alertam que a censura atual viola os tratados internacionais. Para especialistas da Fundação Carnegie, essas medidas restritivas revelam fraqueza institucional e correm o risco de se tornarem permanentes, agravando o histórico de falta de liberdade de expressão na região.
*Com informações no DW Brasil.
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