Inseminação caseira cresce no Brasil e impulsiona tiktokers que ensinam passo a passo na web
Resolução do Conselho Federal de Medicina estabelece que um doador de sêmen não pode ter mais de um filho por grupo de um milhão de habitantes

Segundo dados exclusivos da Sala Digital, quando se fala em inseminação artificial (IA), a pergunta mais feita no Google é: "Quanto custa fazer o procedimento?". De fato, esse tratamento não é nada barato. Por isso, algumas mulheres e casais têm recorrido às redes sociais para saber mais sobre inseminação caseira.
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Esse foi exatamente o caso da gaúcha Nicole Gabrielle Oliveira Bandeira, de 23 anos. Desde os 12, o grande sonho de sua vida era se tornar mãe, e ela sabia que teria que recorrer à inseminação artificial porque nunca teve a intenção de se relacionar com homens cisgênero.
“Sempre foi meu sonho ser mãe.
“Eu lembro de ter uns 12 anos e falar para minha mãe que queria muito ser mãe, mas não queria me relacionar com um homem. Pensava muito em ser mãe solo, mas até então eu era muito nova e não tinha muito conhecimento sobre inseminação. Quando fui ficando maior, com 16, descobri que tinha inseminação de laboratório e tive a certeza que um dia faria esse tipo de procedimento”, contou à Band.com.br.
Em 2021, a autônoma conheceu o marido, Gabriel, e, dois anos depois, eles decidiram que era hora de aumentar a família. O companheiro de Nicole é um homem transexual e, assim como ela, queria ser pai.
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Os dois começaram a buscar por inseminação artificial e fertilização in vitro (FIV), mas se assustaram ao descobrir os preços dos procedimentos.
- Na inseminação artificial, os espermatozoides são introduzidos diretamente no útero da mulher, para que encontrem o óvulo e o fecundem. O valor do tratamento pode variar entre R$ 3 mil e R$ 10 mil por ciclo.
- Já a FIV é um procedimento mais complexo e recomendado para mulheres ou casais com problemas mais graves. A fertilização ocorre em laboratório, onde um único espermatozoide é injetado dentro do óvulo. Após a fertilização, o embrião é transferido para o útero da mulher. No Brasil, os custos podem variar entre R$ 15 mil e R$ 30 mil por ciclo.
Inseminação caseira em alta
Foi então que Nicole e Gabriel começaram a procurar sobre inseminação caseira (IC). “Pesquisei muito sobre as inseminações de laboratório e vi que elas são muito caras e não dão 100% de certeza de que tu vai engravidar. É muito normal as mulheres engravidarem e perderem a primeira gestação, e não é todo mundo que consegue pagar duas vezes o mesmo procedimento. Se o nosso não desse certo de primeira, só ia conseguir fazer pelo menos cinco anos depois”, disse.
“Continuei pesquisando. Vi um comentário de uma moça que fez inseminação caseira e entrei nos grupos de Facebook”, completou.
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Ainda de acordo com o levantamento, as buscas por inseminação artificial realizada sob supervisão médica ainda superam significativamente as por inseminação caseira. Em 2024, a proporção de pesquisas no Brasil foi de aproximadamente 10 para cada 1 relacionada ao método caseiro.
No entanto, o interesse dos brasileiros pela inseminação caseira apresentou um aumento expressivo na última década. No ano passado, as buscas sobre o tema cresceram cerca de 80% em relação a 2023 (55,4%) e ultrapassaram em 13% o recorde anterior, registrado em 2021 (88,8%).

Esses números do Google também são refletidos nas redes sociais. Embora não seja recomendada pelos órgãos oficiais de saúde, não é difícil encontrar conteúdos falando sobre a suposta eficácia de tal método no TikTok e no Facebook.
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“Como engravidar de uma seringa?”

Vídeos sobre inseminação caseira no TikTok
Nicole, por exemplo, viralizou na plataforma chinesa por conta dos vídeos explicando "como engravidar de uma seringa". Em um dos vídeos ela mostrou exatamente o passo a passo que fez para injetar o esperma no canal vaginal.
Durante seu processo como tentante, a autônoma também compartilhou as vitaminas e remédios que tomava para ovular mais e ter mais chances de engravidar.
Para o presidente da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), Álvaro Pigatto Ceschin, esse tipo de fecundação está longe de ser recomendada pela organização e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).
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Segundo ele, o método é menos eficaz em comparação aos procedimentos de laboratório, uma vez que a inseminação artificial é feita seguindo o calendário de ovulação da mulher previamente calculado clinicamente. Além disso, as mulheres ficam mais expostas a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) que poderiam ser evitadas com exames médicos.
“É necessário que o casal, principalmente o homem, tenha feito alguns exames sorológicos (hepatite B, hepatite C, HTLV, HIV), que são doenças infectocontagiosas que têm risco de serem transmitidas se eventualmente não fizer todo esse preparo. Vale lembrar que esses exames só têm prazo de 90 dias; passado esse período, ele precisa ser refeito”, explicou Ceschin.
“Nestes casos, a clínica é totalmente responsável pelo processo, algo que não é possível ser replicado na inseminação caseira. Desta forma, as mulheres precisam apenas confiar e acreditar na palavra do doador de que aqueles exames são verdadeiros e estão corretos”, completou o médico.
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A tiktoker garante que solicitou todos os exames necessários de seu doador escolhido antes de realizar a inseminação.
Grupos no Facebook
Após tomar a decisão junto ao marido de que faria a inseminação caseira, a autônoma foi para o Facebook em busca de ajuda para realizar esse sonho.
Essas comunidades não são difíceis de encontrar na rede social administrada pela Meta. Ao digitar “inseminação caseira” no campo de busca da plataforma, é possível encontrar em torno de 50 grupos com a mesma finalidade: mulheres tentantes [que estão tentando engravidar] em busca de homens doadores de esperma.
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Nicole contou que a maioria desses grupos é administrada por mulheres. No entanto, também há comunidades administradas pelos próprios doadores.
“Depois do Facebook, migrei para os grupos de WhatsApp. Lá, acaba tendo mais apoio de outras meninas que passaram pelo processo e de doadores mais experientes. Eles dão dicas das vitaminas que precisam ser tomadas e fazem algumas outras recomendações também. Infelizmente, tem gente, principalmente doadores mais novos, que entra nesses grupos para se aproveitar das mulheres”, relatou.
Segundo a jovem, esses homens se passam por doadores e chegam a sugerir encontros casuais, com relações sexuais, sob a justificativa de maior efetividade da inseminação caseira.
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Escolhendo o doador
Como a questão financeira foi o fator determinante para Nicole e Gabriel partirem para a forma menos convencional de inseminação, os dois precisaram, sozinhos, fazer a escolha de quem seria o genitor do filho deles.
Desde o início do processo, a tiktoker esteve assistida por uma ginecologista que solicitou todos os exames necessários para saber se ela estaria apta a ter uma gestação tranquila.
No entanto, a autônoma não informou se o doador fazia algum acompanhamento médico regular. O homem apenas encaminhou os exames de rotina e sorológicos que ela mesma o pediu.
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“Ele me tratou super bem, foi super respeitoso e tinha as características que eu buscava. Queria alguém parecido com o meu marido. Ele tinha os mesmos traços do nariz, da boca e até a cor do cabelo. Tive muita confiança nele”, lembrou.
Apesar disso, antes quase escolheu outro genitor, que é bem famoso nos grupos de Facebook. “Existe um doador bastante conhecido em São Paulo. Normalmente, todas as mulheres querem fazer com ele, porque ele já é muito experiente e é muito bonito. Até eu queria fazer, porque é muito parecido com o meu marido e não usava nome falso.”
“Alguns doadores usam nomes fictícios. O meu doador mesmo usava no início, mas depois parou porque algumas tentantes ficavam com medo. Antes de fazer qualquer processo, pedimos os exames para o doador para ver se ele não tem nenhuma doença. Como ele dava o nome fictício, as meninas ficavam com medo”, disse a jovem.
Doações muito próximas
O terceiro motivo que a fez ficar com sua segunda escolha de doador foi a região em que morava.
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Crianças podem se relacionar sem saberem que são irmãos
"Hoje em dia, o doador que mais realiza doações é o meu. Acho que ele já deve ter cerca de 27 filhos. Ele é do Rio Grande do Sul, onde eu moro, mas não exatamente da minha cidade. Basicamente, os doadores são divididos por municípios ou regiões. Normalmente, quando a pessoa não tem um doador próximo, a tentante tem a opção de arcar com o transporte dele, como os custos de gasolina, que são valores bem baixos. Jamais a mulher paga pelo material genético, apenas pelo deslocamento”, explicou.
No Brasil, a resolução do CFM estabelece que um doador de sêmen não pode ter mais de um filho por grupo de um milhão de habitantes.
Então, cabe dizer que, diante deste cenário de várias doações próximas geograficamente, muitas crianças podem nascer e crescer perto umas das outras sem sequer saber que são irmãos.
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Para minimizar os riscos de Alice se relacionar afetivamente com um irmão biológico no futuro, Nicole disse ter feito um “dossiê” com todas as informações de seu doador e dos progênitos [crianças biológicas] que ele diz ter gerado, para entregar à filha quando tiver mais idade.
“Peguei todos os dados do meu doador, desde nome completo até hobbies, e coloquei numa pasta. Só não peguei foto porque achei que seria demais, mas tenho todas as informações dele para ela poder se defender. Espero que ela conheça a história de vida do parceiro ou da parceira dela. Se, por acaso, ele ou ela for de inseminação caseira também, a Alice vai ter que averiguar.”
“Tem doadores com tantas doações que as mães criam grupos para se falar e controlar a situação, mas o meu doador ainda não tem tantas doações nesse ponto de ter um grupo”, completou.
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Ainda que essas mães façam um controle ao antigo estilo “boca a boca”, o presidente da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) reforça que isso é insuficiente para evitar danos futuros.
“Quando se usa o sêmen de um doador, você pode ter uma ou duas gestações por milhão de habitantes do mesmo sexo. Mas, da forma caseira, essa pessoa está doando para quantas pessoas? Não sabemos se são para 20, 30 ou mais. Ou seja, fica quase impossível fazer um controle e evitar que essas crianças se encontrem mais para frente”, disse.
Isso foi exatamente o que aconteceu na Holanda com o doador Jonathan Jacob Meijer, que teve sua história documentada na minissérie “O Homem Com Mil Filhos”, da Netflix.
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Riscos legais da inseminação caseira
Além dos riscos sanitários, o especialista em reprodução humana adverte sobre os direitos legais que os genitores podem ter sobre a criança e a probabilidade de este doador cobrar pelo material genético.
“Muitas mulheres pensam que estão seguras porque o doador não vai querer pagar pensão de vários filhos, mas, sem um documento legal garantindo os direitos, podem reivindicar a paternidade futuramente”, disse. “Não tem como a família saber como vai estar daqui a 5 ou 10 anos, nem como estará a cabeça desse doador. Se, em um determinado momento, ele alegar que quer fazer parte do convívio daquela criança e falar que foi a mãe que proibiu o convívio dele com o filho, ela não terá respaldo.”
Nicole, por exemplo, não registrou nenhum documento que retirasse os direitos do doador sobre Alice. No entanto, na certidão de nascimento da menina, além do nome da mãe, também consta o nome de Gabriel como pai.
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Formalizar documentação é essencial para garantir direitos das famílias
“Não temos nenhuma relação com o doador. Ele faz muitas doações. Seria muito estranho vir atrás justamente da minha filha. Fora que teria que pagar pensão. Quem vai querer pagar a alimentícia de uma criança que nunca teve contato?”, pontuou.
Mesmo diante dos riscos, a autônoma e o companheiro sonham em dar um irmão para Alice por meio da inseminação caseira. “Pensamos em ter mais um filho daqui a uns 4 anos, com o mesmo doador. Já falei com ele sobre a possibilidade e ele disse que está à disposição.”
Ela também negou que tenha sido cobrada pelo doador para pagar pelo material genético.
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Inseminação caseira é crime?
As buscas por inseminação caseira de fato aumentaram. Mas, entre as perguntas mais feitas no Google, a que mais se destaca é sobre sua legalidade.

De acordo com a advogada Tatiana Araujo Caribé Arantes, especialista em Planejamento Sucessório, Família e Sucessões da PLKC, o método caseiro não está previsto na lei. O que consta é apenas sobre inseminação artificial.
“Não há nenhuma regra que diga que a inseminação artificial precisa ocorrer em laboratório. Como não tem nada na lei que proíba ela de ser realizada em casa, significa que é permitido", explica Arantes.
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Contudo, a advogada salienta que, de acordo com o artigo 199 da Constituição Federal de 1988, no Brasil, é proibido todo tipo de comercialização de material biológico humano. “Toda doação de substâncias ou partes do corpo humano, tais como sangue, órgãos, tecidos, assim como o esperma, deve ser realizada de forma voluntária e altruísta”, diz o documento.
Ou seja, a inseminação feita em casa é permitida desde que o sêmen não tenha sido vendido para a mulher tentante. Além disso, a especialista pontua que essa mãe e essa criança possuem os mesmos direitos legais que qualquer outro bebê concebido por relações sexuais entre casais heterossexuais ou por inseminações em laboratório.
Para garantir que este genitor não venha a reivindicar a paternidade futuramente, Arantes reforça que o ideal é a formalização de um documento deste homem abdicando de sua relação paternal com a criança e aquela família.
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“Deixar tudo na base da confiança não é o ideal. O certo é, sim, fazer um acordo formalizando que o genitor abriu mão de todos os seus direitos paternos para resguardar aquela família", explicou.
