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Interesse por anticoncepcional masculino dispara e ciência avança

Enquanto a pílula feminina completa mais de 60 anos, laboratórios no mundo todo correm para entregar uma versão segura e eficaz para os homens — e, pela primeira vez, parece que o jogo está virando

Bárbara Fava
BÁRBARA FAVA

06/05/2025 • 12:00 • Atualizado em 06/05/2025 • 12:00

Por décadas, falar em contracepção foi sinônimo de falar com — e sobre — mulheres. Pílula, laqueadura, DIU, injeção, chip hormonal: a responsabilidade sempre esteve do lado feminino da balança. Mas isso pode estar prestes a mudar.

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Um levantamento da Sala Digital, parceria da Band com o Google, mostra que nos últimos 12 meses, o Brasil apareceu entre os cinco países com maior volume de buscas por “contraceptivo masculino” na ferramenta de busca, atrás apenas de França, África do Sul, Chile e Equador. O dado mostra que o interesse por métodos para homens nunca esteve tão alto e surge em um momento em que a ciência começa, enfim, a entregar avanços promissores.

A hora está chegando?

Aparentemente, sim. Pela primeira vez em décadas, pesquisadores estão realmente perto de desenvolver alternativas contraceptivas seguras, eficazes e reversíveis para homens. Os indícios estão em uma leva recente de estudos em andamento, especialmente nos Estados Unidos, que avançaram da fase de testes com animais para os primeiros ensaios clínicos em humanos.

Um dos projetos mais promissores é da YourChoice Therapeutics, que concluiu com sucesso a primeira fase dos testes clínicos com o YCT529 — uma pílula sem hormônios que inibe a produção de espermatozoides sem afetar a libido ou os níveis de testosterona. E mais: o efeito é reversível. Os testes com humanos seguem em andamento.

Outro destaque é um comprimido experimental da Universidade de Minnesota que obteve 99% de eficácia em camundongos e nenhum efeito colateral. Já o gel Nestorone, testado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH), está sendo aplicado diariamente no ombro dos voluntários e mostrou bons resultados na supressão de espermatozoides.

O abismo ainda existe — mas pode diminuir

Apesar do entusiasmo científico, os dados mostram que o contraceptivo masculino ainda é um ponto fora da curva. De acordo com o Google Trends, o interesse por esse método nos últimos 12 meses representou apenas 10% das buscas por “vasectomia” — que é, até hoje, o único método contraceptivo masculino consolidado e amplamente disponível no Brasil. Quando comparado com os métodos femininos, o contraste é ainda maior: a pílula anticoncepcional teve 100 pontos de interesse; a pílula do dia seguinte, 25; a laqueadura, 12. O contraceptivo masculino? Apenas 1.

Esse descompasso tem raízes profundas: culturais, políticas, biológicas. A indústria farmacêutica relutou por anos em investir pesado na área, temendo baixa adesão. Além disso, o discurso da “falta de demanda” serviu como escudo para um problema maior: o machismo estrutural que atribuiu às mulheres, historicamente, a responsabilidade pela prevenção.

Uma nova era de divisão (de verdade) de responsabilidades

A discussão sobre contracepção masculina não é só sobre ciência — é também sobre equidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras entidades médicas têm pressionado por avanços nesse campo como parte de uma agenda mais ampla de justiça reprodutiva e igualdade de gênero.

E o Brasil, onde entra nisso?

Apesar do Brasil aparecer como um dos mais interessados no tema, o país ainda enfrenta gargalos estruturais. A vasectomia, por exemplo, é gratuita pelo SUS — mas a burocracia e o tempo de espera são obstáculos para muitos homens. Além disso, especialistas apontam que campanhas de saúde pública sobre contracepção ainda são, em sua maioria, voltadas para mulheres.

Se os novos métodos passarem nos testes clínicos, a expectativa é que comecem a ser submetidos às agências reguladoras nos próximos anos. No Brasil, caberá à Anvisa analisar a segurança e eficácia antes de qualquer liberação.

Por enquanto, o futuro ainda é feito de testes e promessas. Mas, pela primeira vez em muito tempo, parece haver luz no fim desse túnel. E, quem sabe, uma pílula.

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