Jornal da Band

Ataques do PCC completam 20 anos: a onda de violência que parou SP em 2006

Ação coordenada de facção criminosa em maio de 2006 resultou em 564 mortes e expôs fragilidades na inteligência e no sistema de segurança pública do estado

Rodrigo Hidalgo
RODRIGO HIDALGO

08/05/2026 • 20:39 • Atualizado em 08/05/2026 • 21:09

Há exatamente duas décadas, o estado de São Paulo enfrentava o início da maior ofensiva criminosa de sua história contemporânea. Na sexta-feira que antecedia o Dia das Mães em 2006, a facção Primeiro Comando da Capital (PCC) iniciava uma onda de ataques coordenados que paralisou a capital paulista e diversas cidades do interior, deixando um rastro de 564 mortos, sendo 505 civis e 59 agentes públicos.

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A crise teve como estopim a transferência de 765 detentos para a Penitenciária II de Presidente Venceslau, unidade de segurança máxima. O jornalista e escritor Josmar Jozino disse que a remoção das lideranças, ocorrida às vésperas do feriado, foi o gatilho para a reação violenta.

Em poucos dias, o sistema prisional entrou em colapso com rebeliões registradas em mais de 70 presídios, enquanto nas ruas as forças de segurança se tornavam alvos diretos.

O cerco às forças de segurança e o clima de guerra

O cenário de enfrentamento transformou a rotina de policiais e da população. Delegacias foram metralhadas e bases da Polícia Militar sofreram ataques sistemáticos. O repórter cinematográfico Nivaldo Lima, que atuou na cobertura da época, descreve o período como um estado de guerra, onde jornalistas precisavam utilizar coletes à prova de balas e se deslocar em comboios para garantir a segurança mútua.

A desembargadora Ivana David, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), ressalta que os episódios marcaram um ponto de virada institucional. Para a magistrada, os ataques impediram que o Estado continuasse a negar a existência e a capacidade de comando da facção criminosa, que demonstrou poder de articulação para alvejar batalhões, hospitais, agências bancárias e incendiar ônibus.

Falhas de inteligência e o encerramento da crise

A intensidade da violência expôs deficiências no monitoramento estatal. José Vicente da Silva, ex-secretário nacional de Segurança Pública, aponta que a surpresa causada pela ofensiva foi decorrente da fragilidade do sistema de inteligência das polícias paulistas na ocasião. O impacto social transformou São Paulo em uma "cidade fantasma", conforme define o ex-ouvidor da Polícia Militar, Júlio César Fernandes.

A interrupção da onda de violência envolveu uma missão excepcional. Uma advogada foi levada por autoridades em um avião do Estado para o interior paulista para dialogar diretamente com Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder da facção.

Iracema Vasciaveo, a advogada presente no encontro, nega a existência de um acordo formal, mas afirma que houve uma explicação sobre as consequências dos ataques, o que levou o grupo criminoso a cessar o "salve geral" para evitar desdobramentos ainda mais graves para a organização.