Imagens exclusivas obtidas pelo Jornal da Band mostram a ação de mergulhadores do tráfico, que escondem cocaína em navios que saem do Brasil para a Europa. Para impedir esse tipo de crime, companhias de navegação estão contratando profissionais para inspecionar as embarcações antes da partida.
Toneladas e toneladas de cocaína são enviadas por grupos criminosos do Brasil para a Europa escondidas em embarcações que transportam mercadorias.
Quando não conseguem colocar a droga nos contêineres, as quadrilhas têm apostado em um caminho mais discreto: o fundo dos navios. É lá, na linha d'água, que os mergulhadores do tráfico agem, quase sempre durante a madrugada.
A ação começa quando pequenas embarcações se aproximam de navios prestes a sair dos portos.
“Já tivemos casos de 300, 350 quilos. Mas, em média, são 200 quilos. Em decorrência dessa logística de transporte da droga para o barco de apoio, o barco pequeno onde está o mergulhador, e o efetivo mergulho dessa pessoa entre o barco e o navio que vai ser acoplada essa droga com destino ao exterior”, explica o delegado federal Osvaldo Scalezi.
Um vídeo mostra um mergulhador a serviço do tráfico grava debaixo d'água com uma câmera para provar que escondeu uma carga de cocaína num compartimento no casco do navio.
Vídeos como esse são compartilhados entre os criminosos que vendem a droga no brasil e os que compram na Europa, responsáveis por retirar o carregamento.
Em outro caso, o mergulhador mostra as grades reforçadas pela dona do navio com solda, para mostrar que não conseguiu embarcar a droga. As imagens exclusivas foram encontradas pela Polícia Federal nos arquivos do celular de um traficante internacional.
O espaço usado pelos criminosos é o chamado sea chest ou caixa de mar, um compartimento utilizado para controlar a entrada de água nos sistemas de refrigeração do motor.
No ano passado, a Polícia Federal apreendeu 1.141 quilos de cocaína em cascos de navio. Praticamente a mesma quantidade foi achada em portos do exterior
Para se antecipar à ação das quadrilhas, algumas companhias de navegação decidiram reagir na mesma profundidade. Elas também têm contratado mergulhadores - mas do lado certo da lei. São profissionais especializados que inspecionam os cascos das embarcações.
“Quando você tem uma série de apreensões partindo, por exemplo, do porto de Santos, isso vai afetar a credibilidade do próprio porto, e não é bom para o porto, não é bom para o Brasil. Então, as empresas também acabam investindo em tecnologias, né, só que também o custo operacional dela é maior e isso acaba refletindo na sociedade brasileira como um todo”, diz o delegado federal Rodrigo Perin Nardi.
Em alguns casos, os mesmos mergulhadores que escondem a droga viajam de avião até a Europa para retirar a carga com as próprias mãos.
Uma das quadrilhas decidiu migrar o esquema do tráfico do porto de Santos para o de Belém. Reuniões dos traficantes foram monitoradas pela Polícia Federal. Em uma delas, o responsável por contratar os mergulhadores se encontra no aeroporto com outro grande traficante. Marcel, o Vida Loka, segue foragido. Nessas imagens, os agentes resgatam cerca de 40 quilos de cocaína escondidos no casco de um navio, num porto do Pará.
A reportagem do Jornal da Band também teve acesso a imagens gravadas por investigadores durante o monitoramento de quadrilhas em uma comunidade na beira do porto no Guarujá.
Segundo a PF, o local era controlado por Marco Aurélio Souza, o Lelinho, preso em uma operação no fim de abril. Ele é dono de empresas e embarcações que prestam serviços de manutenção e inspeção em navios.
Outro envolvido no esquema de tráfico com o uso de mergulhadores, um brasileiro integrante do PCC, foi preso em março, em Portugal, onde coordenava a retirada das cargas.
A polícia tem investido em inteligência e tecnologia para combater o tráfico embaixo d’água, com o uso de drones aquáticos e mergulhadores da própria corporação.
“Quando a gente tem uma apreensão de droga em uma caixa de mar, é feito um trabalho reverso para se investigar de onde que ela teria é partido, como que ela foi acondicionada ali, e a partir dali são deflagradas as operações para identificação tanto dos mergulhadores, como dos donos da droga, que estão fazendo essa remessa via navios com destino ao exterior”, finaliza o delegado federal Osvaldo Scalezi
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