Jornal da Band

Por que estados com maior renda não lideram a educação?

Com um dos menores PIB per capita do país, município cearense mantém nota máxima no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica pela segunda vez consecutiva

Olívia Freitas
OLÍVIA FREITAS

06/08/2026 • 20:34 • Atualizado em 06/08/2026 • 20:40

Os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) revelam uma realidade que desafia o senso comum: ter um grande orçamento não garante, necessariamente, um ensino de qualidade. O maior exemplo dessa relação entre eficiência e compromisso público vem de Pires Ferreira, no Ceará. Mesmo estando entre os 100 municípios com menor PIB per capita do Brasil, a cidade conquistou nota 10 nos anos iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano) — e foi a única do país a manter a pontuação máxima por duas avaliações consecutivas.

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O desempenho de Pires Ferreira contrasta com o de regiões mais abastadas e comprova que a evolução do ensino depende prioritariamente de planejamento pedagógico, continuidade de políticas públicas e forte empenho da gestão escolar, e não apenas do volume de verbas disponíveis.

Nordeste domina topo do ranking do Ideb

No ensino fundamental municipal, oito cidades brasileiras atingiram a nota máxima no índice, que avalia o rendimento em Português e Matemática, somado às taxas de aprovação e combate ao abandono escolar. Todas as oito representantes estão localizadas na Região Nordeste: cinco no Ceará e três em Alagoas.

Segundo a secretária de Educação de Pires Ferreira, Rosa Matías, o diferencial está no mapeamento individualizado dos estudantes e na estrutura oferecida às famílias, com formação continuada de docentes e ampliação da rede de apoio escolar.

No cenário estadual, o Paraná lidera nas três etapas de ensino. Contudo, estados nordestinos como Ceará e Piauí ocupam as segundas colocações no ensino fundamental e médio, respectivamente. Especialistas apontam que a expansão das escolas em tempo integral, o investimento contínuo na capacitação dos professores e o regime de colaboração entre estado e municípios são os pilares que sustentam esses resultados ao longo das sucessivas trocas de governo.

Ricos com avanços modestos e recuos

Em contrapartida, estados com maior capacidade financeira apresentaram resultados tímidos no indicador. São Paulo, o estado mais rico da Federação, registrou um avanço discreto de apenas 0,1 ponto percentual no ensino médio, permanecendo estagnado na média nacional.

Já o Distrito Federal, detentor do maior PIB per capita do país, foi a única unidade federativa a apresentar queda (-0,1 ponto percentual) na mesma etapa de ensino.

Modelos de transformação no Sertão

A combinação de foco pedagógico e acompanhamento próximo também transforma a realidade do interior de Pernambuco. Em Inajá, no Sertão, alunos da rede mantida pela ONG Amigos do Bem percorrem dezenas de quilômetros em estradas de terra até a escola em tempo integral. Com quatro refeições diárias, busca ativa contra a evasão e acompanhamento individualizado, a instituição mais que dobrou sua pontuação, alcançando nota 9,8 no Ideb.

O contraste entre cidades de baixa renda com notas exemplares e capitais ricas com desempenho estagnado reforça que o sucesso da educação pública exige mais do que repasse de verbas: cobra responsabilidade, boa gestão e prioridade política.