Jornal da Band

Salvador estuda preservação do Cemitério dos Africanos em terreno histórico

Sítio arqueológico abriga vestígios de sepultamentos da época colonial; desapropriação da área é o primeiro passo para resgatar a memória do local

KRIS DE LIMA

12/08/2026 • 21:10 • Atualizado em 12/08/2026 • 21:17

Uma descoberta arqueológica no centro de Salvador reacendeu o debate sobre a preservação da memória e do patrimônio histórico do país. Trata-se da identificação do Cemitério dos Africanos, um antigo local de sepultamento de pessoas escravizadas onde pesquisadores estimam que possam ter sido enterrados mais de 100 mil indivíduos trazidos da África.

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A área, identificada por meio do cruzamento de plantas, mapas e documentos históricos, passará por processo de desapropriação. A intenção das autoridades é garantir a proteção permanente do terreno e avaliar a destinação do espaço, que pode ser transformado em patrimônio cultural.

Ocupação colonial e achados do século 19

A criação do cemitério remonta à década de 1740, quando o governo colonial determinou a construção do espaço a pedido do arcebispado local. A antropóloga Silvana Olivieri explica que a iniciativa buscou cobrir histórias que agora começam a vir à tona. Para Silvana Olivieri, o trabalho de prospecção permite resgatar registros ocultados ao longo dos séculos e compartilhar esse conhecimento com a população.

As primeiras etapas de escavação arqueológica no terreno revelaram fragmentos de louças, artefatos de ferro e objetos do século 19. A área pesquisada compreende o Campo da Pólvora, local apontado em registros oficiais como ponto de execução e descarte de corpos de condenados do regime escravista.

A arqueóloga Jeanne Dias ressalta que a historiografia oficial confirma a execução de condenados na região do Campo da Pólvora. Segundo Jeanne Dias, os corpos de africanos escravizados, muitos dos quais decapitados após execuções, eram descartados no local sem os ritos fúnebres tradicionais.

Memória das revoltas e paralelo com o Rio

As investigações no Cemitério dos Africanos também buscam mapear a relação do sítio com levantes históricos ocorridos na Bahia durante o período colonial e imperial. O repórter Kris de Lima destaca que o local pode abrigar os restos mortais de líderes de movimentos de resistência contra a escravidão, como a Revolta dos Búzios e a Revolta dos Malês. Kris de Lima ressalta que as pesquisas tentam identificar a presença de figuras históricas que desafiaram o sistema vigente na época.

A descoberta em Salvador estabelece um paralelo direto com as revelações arqueológicas ocorridas no Cais do Valongo, na zona portuária do Rio de Janeiro. Assim como na capital fluminense, onde o resgate arqueológico trouxe à tona o principal porto de desembarque de africanos escravizados das Américas, a iniciativa na Bahia busca expor estruturas e objetos mantidos sob a terra por séculos.

O projeto em Salvador prevê o prosseguimento das escavações para delimitar a extensão total do cemitério e catalogar novos achados antes da definição das obras de infraestrutura e visitação pública no local.