Jornal da Band

Adolescentes são vítimas de tortura e crimes sexuais em comunidades do Discord; entenda

As vítimas são forçadas a cumprir, em tempo real, os atos de perversidade propostos, sob ameaça de exposição de imagens íntimas

RODRIGO HIDALGO

08/08/2025 • 20:31 • Atualizado em 08/08/2025 • 20:31

Discord é um aplicativo com grupos e canais de mensagens

Discord é um aplicativo com grupos e canais de mensagens

Juca Varella/Agência Brasil

Resumo

Exploração criminosa no Discord envolve extorsão, tortura e crimes sexuais contra adolescentes em comunidades fechadas da plataforma.

Líderes criminosos exercem controle absoluto sobre jovens vulneráveis, forçando-os a realizar atos degradantes sob ameaça de exposição de imagens íntimas, enquanto lucram vendendo gravações dessas sessões no submundo da internet.

Legislação e autoridades buscam adaptar-se para combater tais crimes, com propostas de mudanças na lei para agilizar a remoção de conteúdos nocivos e aumentar a proteção dos jovens em ambientes digitais.

Uma rede criminosa que lucra com o sofrimento de crianças e adolescentes que entram em comunidades fechadas do Discord. Na plataforma, eles são vítimas de extorsão, tortura, automutilação e crimes sexuais.

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Criminosos lideram comunidades fechadas do aplicativo e, a partir dali, passam a exercer controle absoluto sobre adolescentes vulneráveis. Coagem, chantageiam e ameaçam. Além disso, impedem que a vítima desligue a tela.

Os adolescentes são forçados a cumprir, em tempo real, os atos de perversidade propostos, sob ameaça de exposição de imagens íntimas.

Não é só crueldade por crueldade. Há um mercado subterrâneo por trás disso. Os vídeos dessas sessões de terror são gravados, catalogados e vendidos no submundo da internet, uma rede criminosa que lucra com o sofrimento alheio.

Uma planilha que circulou em uma das comunidades mostra os valores pagos por imagens de automutilação dependendo da parte do corpo. A oferta dos pacotes de imagens era de pornografia infantil.

“Eles ganham muito dinheiro fazendo isso. Essas panelas chegam a ter, para você ter uma ideia, 10 mil pessoas. E quando eu digo 10 mil pessoas, são 10 mil adolescentes”, disse a jornalista e pesquisadora de crimes digitais Carla Albuquerque.

“Hoje a gente constata nas redes que alguns servidores oferecem dinheiro, tanto pago em cripto moedas, como em pix e até em robux, que é a moeda de um jogo, né, do roblox, eles pagam, tem uma tabela para isso pré-fixada e eles pagam, por que eles pagam? Porque isso depois, posteriormente, é vendido, inclusive, como conteúdo de pornografia infantil”, disse a delegada Lisandréa Salvariego.

Morte de animais gera dinheiro na plataforma

Um jovem entrevistado pelo Jornal da Band participou do esquema de venda de conteúdo quando esteve conectado e foi vítima de crimes no Discord.

“Se você matasse um gato, você ganhava R$ 200. Se matasse animais grandes, era R$ 300 e até R$ 1000”, disse.

Jovens envolvidos em crimes pelo discord vão além das ameaças online e partem para a vingança - usando a tecnologia para tentar destruir a vida das vítimas fora das telas. Uma invasão digital capaz de mudar o destino de quem cruza o caminho deles.

Soube de vendas de situações absurdas, como por exemplo, registro de óbito da pessoa nos sistemas governamentais, registro de mandado de prisão com preço do valor, tem uma tabela de preço de cada uma das maldades que eles podem fazer. Isso era anunciado e vendido e comprovavam o que fazia”, disse o advogado de adolescentes vítimas Luciano Santoro.

Polícia pede mudança nas leis

A polícia tem pedido mudanças na lei para ter mais agilidade na retirada dos conteúdos na internet.

“Seria interessante nós termos algumas modificações legislativas, né, e poder ter uma autonomia maior para poder derrubar conteúdos que não são de nosso interesse”, afirmou o delegado geral da polícia civil Artur Dian.

Em tempos digitais, o quarto de um adolescente já não é um espaço totalmente seguro.

“Eu acho que assim os crimes que eu já vi mais graves na minha vida inteira de trabalho no sistema de justiça foram os crimes que eu vi no Discord. Bebês de 4 5 6 meses, sendo, sendo estuprado ao vivo... O ambiente virtual, ele não é seguro. Então, não deixe o seu filho sozinho dentro do quarto, da mesma forma que você não deixa ele sozinho na rua numa rua escura, perigosa no meio da madrugada”, disse a juíza da Vara da Infância e Juventude Vanessa Cavalieri.