Jornal da Noite

Chuvas do El Niño já causam alagamentos em cidades do Rio Grande do Sul

Idoso de 106 anos foi resgatado ilhado em Coronel Bicaco; especialistas alertam que fenômeno deve ganhar força na segunda metade do inverno

EDUARDO CARVALHO

01/07/2026 • 00:57 • Atualizado em 01/07/2026 • 01:03

O Rio Grande do Sul começou a semana debaixo d'água. Inundações e alagamentos atingiram diferentes municípios do estado, e em Coronel Bicaco, no noroeste, um idoso de 106 anos precisou ser resgatado por vizinhos após ficar ilhado. Foram mais de 150 milímetros de chuva em poucas horas no último domingo (19) – um cenário esperado para os próximos meses, mas que chegou mais cedo do que se previa.

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A intensidade das chuvas marca os primeiros indícios do El Niño, fenômeno que se formou nas últimas semanas e deve ganhar força na segunda metade do inverno. O estado segue em alerta, com previsão de mais chuva nos próximos dias.

Não é a primeira vez neste ano que o Rio Grande do Sul entra em estado de atenção: em março, o Inmet e a Defesa Civil chegaram a emitir alerta vermelho para tempestades no estado.

Para as autoridades locais, a antecipação surpreendeu. "Na prática, a gente não contava com essa primeira enchente. O prognóstico estava mais lá pra frente, de agosto em diante. Então a gente sente que parece que já houve o primeiro aviso de que as coisas não serão favoráveis", afirmou José Milczarek, secretário de Meio Ambiente de Coronel Bicaco.

O El Niño não é o mecanismo que forma diretamente as precipitações, mas atua como um modulador do clima. Segundo o climatologista Anderson Ruhoff, o fenômeno interrompe a passagem das frentes frias, que acabam estacionando sobre o Rio Grande do Sul ou sobre o sul do Brasil por vários dias, prolongando os períodos de chuva. É esse represamento das frentes que explica os grandes volumes registrados em curtos intervalos de tempo.

A projeção é de que o El Niño deste ano seja forte, com períodos de seca nas regiões Norte e Nordeste e muita chuva no Sul. O contraste entre as duas realidades climáticas é característico do fenômeno e tende a se acentuar conforme ele avança.

A chegada do El Niño já vinha acendendo o alerta para desastres climáticos no estado, diante da baixa capacidade de adaptação de boa parte das cidades brasileiras a eventos extremos.

Para quem depende do tempo, o momento é de atenção redobrada. No campo, o receio de repetir prejuízos já muda a rotina dos produtores. Antônio Sala, produtor de arroz, decidiu plantar menos soja com medo de perder a safra, como aconteceu no último El Niño forte no estado. "A gente tem muito medo de ter um novo prejuízo, e aí não sobrevivemos mais", contou.

A memória mais recente é a da maior enchente da história do Rio Grande do Sul, em maio de 2024, quando o estado registrou em dez dias o equivalente a três meses de chuva, em uma tragédia associada à combinação entre El Niño e aquecimento global. É esse histórico que mantém a população gaúcha em alerta a cada nova frente que se aproxima.