Numa campanha, poucas regras são tão elementares quanto não fazer o que o adversário deseja. Nas últimas semanas, a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) fez exatamente isso: acumulou tropeços que acabaram entregando à campanha governista as pautas que ela mais queria ver no centro da disputa.
O ponto de partida é o desequilíbrio da corrida. Como incumbente, Lula larga com vantagem clara e histórica. Dispõe da máquina federal, de maior visibilidade, do orçamento e da dívida pública, além do repertório de medidas populistas que marca o Brasil da redemocratização.
Sobre esse terreno já inclinado, um conjunto de temas sensíveis que envolve Donald Trump, interferência internacional, urnas eletrônicas e a retórica da soberania nacional tende a beneficiar o campo do governo. São justamente esses os assuntos que a oposição ajudou a trazer de volta.
O primeiro deslize foi reabrir a discussão sobre as urnas eletrônicas, tema tóxico que já havia sido um dos responsáveis pela derrota de Jair Bolsonaro em 2022 e que voltou ao centro do debate por iniciativa do próprio campo bolsonarista.
O segundo foi a passagem desastrada de Javier Milei pelo Brasil, cujo problema não esteve nas críticas em si, nem na presença de uma figura internacional, mas na forma como o argentino se referiu a um ministro do STF.
Fora o mérito da crítica, foi o tom que pegou mal para boa parte do eleitorado. E é esse eleitorado que a candidatura tem a perder. Há uma parcela expressiva de eleitores cansada da polarização extrema: gente que tem posição, que por vezes discorda do STF, mas que rejeita o radicalismo hoje associado ao campo de oposição.
Fora o mérito da crítica, foi o tom que pegou mal para boa parte do eleitorado. E é esse eleitorado que a candidatura tem a perder. Há uma parcela expressiva de eleitores cansada da polarização extrema: gente que tem posição, que por vezes discorda do STF, mas que rejeita o radicalismo hoje associado ao campo de oposição.
Cada episódio nessa chave afasta Flávio Bolsonaro do projeto que ele próprio traçou desde o início, o de se apresentar como uma alternativa moderada e afeita ao diálogo, capaz de atrair o chamado "eleitor independente".
O saldo é adverso. Urnas, soberania, ruídos com os Estados Unidos e com Milei: nenhuma dessas frentes trabalha a favor de Flávio Bolsonaro, e todas, somadas, empurram a campanha para o terreno onde o adversário quer disputá-la.
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