O presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou a 68ª Reunião de Cúpula do Mercosul, realizada em Assunção, no Paraguai, para defender a união estratégica dos países sul-americanos diante de um cenário de crescente disputa comercial entre potências globais. Para o governo brasileiro, a integração do bloco é o caminho necessário para que as nações da região ganhem poder de negociação e evitem ser isoladas ou esmagadas pelas pressões exercidas pela China e pelos Estados Unidos.
O professor e especialista em relações internacionais Leonardo Trevisan analisou o atual cenário de negociações da cúpula do Mercosul. Em entrevista à BandNews TV, ele apontou que o interesse comercial do setor privado mantém o bloco ativo. De acordo com o analista, as decisões econômicas práticas se sobrepõem às ideologias políticas dos governantes. Trevisan avalia que o bloco funciona como uma defesa mútua essencial diante da concorrência de superpotências globais.

Foto oficial com os presidentes do Mercosul em Luque, no Paraguai (foto: Cesar Olmedo/Reuters)
Disputa entre superpotências
O especialista ressalta que o avanço comercial e tecnológico da China e dos Estados Unidos pressiona os países sul-americanos. Na visão do professor, um estreitamento de laços entre Washington e Pequim impacta diretamente o agronegócio local.
Quando o Trump quis punir o Brasil e fez blá-blá-blá de taxações, o Brasil saiu atrás de outros fregueses e deu tudo certo, né? Cobriram. Quando o Xi Jinping senta com o Trump e o Trump diz para ele 'vou baixar o preço para você vender soja para nós', quem fabrica soja aqui no Brasil põe as barbas de molho na hora. Aliás, já pôs. Porque a soja brasileira, que era vendida para, de alguma forma, a China, a soja... o concorrente foi direto
O jornalista ainda ressalta que a atuação conjunta é a única forma de garantir relevância internacional.
Um estreitamento de amizades entre Estados Unidos e China pode não ser conveniente para o Brasil. O Brasil vende mais para a China? Vende. E é nesse quadro que a gente tem que pensar no contexto China. A China é, literalmente, um player global. Ela joga em todo o mundo e não é diferente na América Latina. Não é diferente com os próprios Estados Unidos. Então, é nesse contexto que é interessante para nós, para nós, Brasil, para nós, Mercosul, mantermos uma atitude mais conjunta para enfrentar esses dois. É briga de cachorro grande. Olhe o PIB dos EUA: 30 a 32 tri de dólares. Olhe o PIB da China: 20 tri de dólares. O PIB da Alemanha, que é o terceiro, é pouco mais de cinco
Então, quando você olha para esse quadro, nós estamos falando de duas superpotências mesmo, com forte presença no sentido todo de tecnologia, de avanço de commodity, de tudo. Nesse contexto, é melhor para nós nos defendermos desses dois cachorrões grandes se nós estivermos juntos. Sozinho, cada país desse será esmagado. E os empresários argentinos e os empresários brasileiros sabem muito bem disso
Impasse político entre os presidentes
Conforme aponta o especialista, os chefes de Estado possuem visões divergentes sobre o modelo de integração. Ele lembra que o presidente da Argentina não compareceu ao encontro por preferir acordos bilaterais ao mesmo tempo em que Lula tenta impulsionar o bloco e usou o aumento da contribuição ao Fundo de Convergência Estrutural como sinal de força:
O presidente Lula está lá impulsionando o Mercosul, não é? Só que, de algum modo, a gente tem que perguntar de que Mercosul nós estamos falando. Se é o mesmo Mercosul para todos os presidentes. Aí é que está o problema. Por exemplo, o presidente argentino já não foi na reunião. É um recado claro. Por que não foi? Ele tem uma visão de comércio internacional, que é uma visão de comércio mais bilateral, acordos entre países, com preferência, todo mundo sabe, para os Estados Unidos
É disto que o Lula está falando. De que nós, na América Latina, seremos mais fortes negociando com quem for se estivermos juntos do que separados. Aí vem o problema: juntos como? O o presidente Peña, do Paraguai, foi muito gentil com Lula, elogiou Lula na conta do acordo Mercosul-União Europeia, porque isso interessa para a venda de alguns produtos paraguaios. E parou por aí
Trevisan argumenta que a alternância de poder não altera as estruturas financeiras profundas da América Latina:
Se nós olharmos com um pouco de calma para essas mudanças na América Latina, nós vamos ver que elas não movem a essência econômica de cada um desses países. Não é porque o governo é de direita ou porque o governo é de esquerda que ele consegue fazer mudanças na dura realidade econômica dos países América Latina. O governo de governo do Gustavo Petro teve quatro anos para mudar a realidade econômica da Colômbia e não o fez. Se nós olharmos para para os governos, por exemplo, o governo de Kast, no Chile, que acabou de ser eleito, e não conseguiu fazer nenhuma das suas promessas, o de esquerda não fez e o de direita também não
Então, quando nós olhamos para esse quadro, fica muito visível: juntos, ainda teremos alguma força de negociação. Separados, seremos mais fracos. Esse é o recado de Lula. Esse recado interessa de forma diferente para cada um dos presidentes. A mão dada é só para a fotografia
Nesse quadro que a gente tá vendo de mão dada só para a fotografia, Lula percebe um recado muito forte: nós somos os maiores. O Brasil tem condição de fazer acordos bons com ou sem Mercosul. E deixou isso muito claro com um sinal bem forte. Vai ter um chamado Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul, e Lula avisou que vai aumentar a contribuição brasileira, que, aliás, é quase a única, né, de 70 para 100 milhões de dólares. Neste recado está implícito a força de convencimento de Lula para os demais, sejam de esquerda ou de direita. Eles estão todos preocupados com a realidade econômica dos seus países
O real comando do Mercosul
Ele explica que a convivência entre governos de diferentes ideologias, como no período de Jair Bolsonaro e Alberto Fernández, prova a estabilidade do comércio:
O Brasil tinha um presidente de direita e a Argentina um presidente de esquerda, aqui o Bolsonaro, lá o Fernández. Não mudou nada no Mercosul. Quando você troca a reality, troca a realidade. Coloca um presidente de esquerda no Brasil e de direita na Argentina, não muda nada
O professor conclui indicando que o setor industrial privado, representado pela Fiesp e pela Associação da Indústria Argentina, dita a sobrevivência da parceria regional:
Sabe o que é que realmente acontece no Mercosul, quem é que dá as cartas no Mercosul? Os empresários interessados nele. O dia que a Associação da Indústria Argentina e a Fiesp aqui de São Paulo falarem em línguas diferentes, por exemplo, no acordo automotivo, o Mercosul não dura uma semana
Por enquanto, os empresários olham para o Mercosul como um bom negócio. Especialmente os dois maiores países, mas os menores também. Tanto que os menores também querem se agregar: Equador, Bolívia. É um bom negócio para as empresas. É um bom negócio para o comércio entre países. O inquilino da Casa Rosada e o inquilino do Palácio do Planalto que se conformem. Porque a realidade econômica vai falar mais alto. Seja de direita aqui, de esquerda lá, seja de esquerda lá, de direita aqui
A história tem mostrado isso há quase 40 anos. Mercosul é algo com que esses países, com todas as suas dificuldades econômicas, com toda a sua pobreza, encontram formas de fazer comércio que é beneficiada para os dois. O Mercosul corre pouco risco de acabar enquanto os empresários acharem que ele funciona
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