A passarela do samba tornou-se palco de um debate jurídico e ético após o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que levou à Marquês de Sapucaí uma homenagem explícita ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em sua análise semanal, o cientista político Fernando Schüler classificou o episódio como um caso de "proselitismo escancarado" financiado com dinheiro público e alertou para o perigo da "captura de uma festa popular pela retórica dura da política".
Schüler iniciou sua análise propondo um exercício de imaginação: o que aconteceria se, nas eleições municipais de 2028, os mais de 5.500 prefeitos do Brasil decidissem utilizar escolas de samba locais para contar suas "trajetórias incríveis", usando jingles de campanha e números eleitorais, tudo pago pelos cofres das prefeituras?
"Pode uma coisa dessas? Você teria não só um problema de natureza cultural, mas um problema na disputa eleitoral, ferindo os princípios da imparcialidade e da impessoalidade da Constituição", argumentou o analista.
Para Schüler, o que se viu no Rio de Janeiro este ano foi exatamente a concretização desse cenário: uma conversão do Carnaval em palanque político-ideológico.
A História se Repete: 2006 vs. 2026
O analista relembrou que a polêmica não é inédita, trazendo à tona o caso da escola paulista Leandro de Itaquera, no Carnaval de 2006. Na ocasião, a agremiação levou para a avenida o enredo "As águas de um novo Tietê", exaltando um projeto do governo estadual e exibindo bonecos de lideranças tucanas: Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin (então governador e candidato à presidência contra Lula).
Na época, o PT acionou a justiça alegando propaganda antecipada. "A justiça não proibiu o desfile e, depois, ninguém foi punido. Nem a escola, nem o PSDB, nem Alckmin", pontuou Schüler.
Duas décadas depois, a situação se inverte, mas com agravantes. Segundo Schüler, o desfile da Acadêmicos de Niterói apresentou uma versão "ainda mais descarada", reproduzindo o número do partido, refrões de campanha e slogans antigos do petista.
O Dilema da Justiça
Embora o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tenha rejeitado os pedidos de liminar para barrar o desfile, sob o argumento de evitar censura prévia, ministros da corte, como Cármen Lúcia, alertaram que o cenário é de "areia movediça".
Schüler questiona qual será a postura do judiciário agora que o fato foi consumado. Haverá punição ou a jurisprudência da impunidade de 2006 será mantida?
"Seja qual for a decisão que o país tomar sobre esse tema, uma coisa é inadmissível em uma democracia republicana: dois pesos e duas medidas", concluiu Schüler, enfatizando que a liberdade de expressão artística não pode servir de escudo para a bajulação política.
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