Bronca de Lula, brigas e falta de verba: Edinho conta bastidores da virada
Petista detalha erros estratégicos, impacto das denúncias contra o STF e a arrancada nas ruas e nas redes até a vitória
Em entrevista ao programa Canal Livre, que vai ao ar neste domingo (8), o presidente nacional do PT, Edinho Silva, detalhou os bastidores da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva contra Flávio Bolsonaro (PL), falando sobre os erros do primeiro turno, as cobranças públicas do petista, a falta de recursos, o impacto das denúncias contra o Supremo e a mobilização de rua e de redes que levaram à virada no segundo turno.
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Segundo Edinho, a crítica feita por Lula logo após o resultado do primeiro turno, quando o presidente disse que aquela havia sido a "pior campanha do PT da qual participara", tinha fundamento. "Os erros que o presidente Lula apontou, ele criticou corretamente", disse, lembrando que que a montagem de palanques estaduais envolveu "brigas bravas" com aliados. "Eu nem vou relembrar aqui, senão o pessoal vai voltar a me atacar", brincou.
O presidente da sigla afirmou que o projeto audacioso cobrou um preço caro para a campanha. "Nós montamos, que é inédito, 27 palanques para o presidente Lula no Brasil inteiro. Não tinha um estado brasileiro que não tinha um palanque montado para o presidente Lula. Nós tiramos os partidos de centro do Flávio, que olhando para trás no primeiro turno, foi um movimento corretíssimo a gente fazer, corretíssimo".
Na visão de Edinho, o principal erro operacional esteve na tentativa de descentralizar a produção de materiais de campanha. "Para esses 27 estados, a gente cometeu qual erro? Nós tentamos descentralizar a produção de materiais, acreditando que a gente ia produzir material direcionado para as regiões, que conversasse mais diretamente e teria mais agilidade. Não funcionou. O presidente Lula começou a chegar nos estados, não tinha material, porque em muitos estados as gráficas não tinham estrutura para produzir nem para distribuir, foi uma confusão danada", relata.
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Ele conta que a campanha precisou rever rapidamente a estratégia: "A gente conseguiu corrigir rapidamente, concentrando a produção Rio, São Paulo, Minas Gerais, um pouquinho em Salvador e um pouquinho no Pará. E a partir daí nós corrigimos isso. Mas isso gerou muito descontentamento do presidente Lula, porque de fato nós tentamos fazer o certo e deu errado".
Falta de dinheiro e pressão dos aliados
Além da logística, Edinho ressalta que a estrutura financeira da campanha era muito inferior à do adversário. "Nós enfrentamos também o poderio econômico. A campanha do Flávio teve R$ 47 milhões de doação, a nossa R$ 2 milhões. Então, o presidente viajava os estados, os candidatos todos reclamando de falta de recurso. A nossa prioridade era a campanha do presidente Lula. A gente não podia tirar dinheiro da campanha do presidente para atender as candidaturas estaduais porque a gente tinha uma escassez de recurso", afirma.
Denúncias contra o STF tiraram foco do 1º turno
Edinho aponta que, no primeiro turno, o debate público foi dominado pelas denúncias envolvendo o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça e Kassio Nunes Marques.
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Ele sustenta que o legado do governo não conseguia entrar na pauta da campanha e citou feitos como obras do de infraestrutura do PAC, como construção de rodovias e ferrovias, modernização de portos e aeroportos, Minha Casa Minha Vida, reestruturação dos programas sociais e recorde na geração de empregos. "Nenhum governo entregou tanto", disse. "Nós íamos mostrar o que o presidente Lula fez e ia fazer muito mais", diz.
Segundo ele, porém, esse legado não entrava na conversa com o eleitor: "O que acontece naquele momento? Os ataques e as denúncias contra o Supremo. É como se tivesse se criado uma eclipse sobre a sociedade brasileira. Você falava do que o Lula fez, não entrava. Você falava do que o Lula ia fazer, não entrava. A sociedade queria discutir corrupção e Supremo. E o presidente Lula se posicionou com muita firmeza, mas, na verdade, aquele sentimento, ele recaía sob o incumbente".
Edinho relata que, ao fim do primeiro turno, as pesquisas qualitativas já mostravam mudança: "Já no final do primeiro turno, as nossas pesquisas quales, elas davam que a sociedade começava a se abrir para debater o governo, o que representava o Flávio Bolsonaro e o que representava o presidente Lula. Só que eu acho que não deu tempo para a gente fazer essa reversão. Como esfriou esse debate do Supremo, a gente conseguiu impor o debate, a diferenciação dos dois projetos, mas não conseguiu fazer com que isso chegasse no primeiro turno a gente na frente."
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Mobilização de rua acende a virada
Para o petista, a virada começou quando a mensagem de confronto entre projetos finalmente chegou à população, já na segunda etapa da disputa. "Quando vira o primeiro para o segundo turno, eu acho que a gente consegue, primeiro, fazer com que a linha de campanha chegasse na sociedade, que era o confronto dos dois projetos, o que um representava e o que o outro representa", afirma.
Ele destacou o papel das mobilizações estudantis: "Começou a mobilização de rua, que nasce na Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Aquilo foi incrível, foi logo no começo do segundo turno. Explodiu e os estudantes, no primeiro momento, mobilizações totalmente autônomas, eles abraçam a linha da campanha comparando o Flávio com o Lula, o que o Flávio representava."
Na avaliação de Edinho, o próprio adversário reforçou essa comparação: "Por incrível que pareça, ali o Flávio começa a reivindicar o governo Bolsonaro para ele, o governo Bolsonaro, e ficou mais nítida a comparação dos dois projetos. E ali, eu penso que criou o ambiente da mobilização de rua e o ambiente de mobilização cria o ambiente de mobilização de redes."
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Janones e o 'Exército do Lula' nas redes
Edinho também atribui a virada ao engajamento digital impulsionado pelo deputado André Janones e pelo chamado 'Exército do Lula' nas redes, que atingiu 10 milhões de seguidores no WhatsApp. "Quando a sociedade toma conta das ruas, e aí a gente tem que reconhecer o trabalho do Janones, eu acho que ele foi uma figura muito importante. Ele cria o canal e aquela mobilização de rua vai para as redes. Há uma troca. Há uma troca. É uma simbiose que acontece ali. E criou o ambiente onde nós nos tornamos a mudança", afirma.
Ele resume o efeito dessa mobilização sobre o imaginário do eleitor: "Nós tínhamos perdido o discurso da mudança no primeiro turno e recuperamos o discurso da mudança no segundo turno. Teve duas palavras que o PT perdeu, a esperança, que sempre esteve presente nas campanhas do PT, e a outra era a mudança, que sempre esteve presente, que no primeiro turno saiu do nosso campo e no segundo turno voltou para o nosso campo."
Canal Livre neste domingo
A entrevista de Edinho Silva ao Canal Livre vai ao ar neste domingo (8), às 20h, na BandNews TV, na BandNews FM e na Rádio Bandeirantes, e às 23h na Band. O programa também será transmitido no YouTube de Band Jornalismo, em Band.com.br e no Bandplay. Participam da conversa os jornalistas Fernando Mitre, Thays Freitas e Felipe Vieira. A apresentação é de Rodolfo Schneider.
