Democracia de conveniência e a democracia de interferência
Veja no comentário de Eduardo Oinegue

Eduardo Oinegue
Band
Democracia se pratica na plenitude. Existem regras democráticas, práticas democráticas, costumes democráticos, ritos democráticos. Eles precisam ser cumpridos nào porque sejam obrigatórios, mas porque são necessários. Se fossem obrigatórios, seriam leis, e cumprir nào iria ter mérito algum. Democrata de verdade cumpre o rito sem ninguém obrigar.
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O valor do rito está justamente em ser cumprido por uma pessoa que poderia deixar de cumprir sem uma punição objetiva./ É mais na linha do compromisso, da consciência mesmo. O Brasil de hoje exibe 2 comportamentos preocupantes. O primeiro é o surgimento de uma prática torta que eu vou ousar chamar de democracia de conveniência, que funciona assim. “Eu sou democrata, claro”. “Só que eu seleciono as práticas democráticas que me convém, que me interessam”. Tem debate eleitoral? É tradição do país desde 1989? “Dane-se. Estou bem nas pesquisas, debate tem risco, adversário faz pergunta desagradável”. “Debater com quem tem 1%? Abaixo do meu nível”. “Prefiro cair fora”. O eleitor que se estrepe, o eleitor que fique sem poder ver um confronto de ideias para comparar os candidatos.
Ficou inconveniente, eu não vou. Tem esse, ne? E tem o outro que diz já tinha dito que ia ao confronto, tanto que chamava o outro de fujão?, e que tambem some assim que o palco deixa de ser do jeito que ele gostaria. Os dois praticando a democracia de conveniência. Mas tem outra prática esquisita nesse campo da relativitzação da democracia, que é a democracia de interferência, que anda em voga nos tribunais. “Quero um candidato no debate, mesmo que a lei não obrigue a emissora a convidar?”. “Vou lá e ponho no debate”. Qual é o problema? Quem vai me proibir? Sou ministro, eu obrigo.
O tribunal eleitoral já disse que a emissora podia escolher? Acho um processo sobre outro assunto e decido assim mesmo, horas antes do programa. Pode ser assim a interferência, mas pode ser diferente: “Quero que o candidato em quem já declarei voto e que me colocou no tribunal seja poupado do púlpito vazio que a organizacao da campanha dele aceitou?”. “Vou lá e mando tirar o púlpito. Tenho o poder, interfiro. Um colega derrubou a decisão de outro colega? Que derrubem a minha depois. Liminar contra liminar, na última semana de campanha, e que fale mais alto quem assina por último.
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Tudo em nome da democracia, claro. O debate acabou cancelado? Detalhe. Defender a democracia com seus valores básicos virou coisa do passado, careta, antiquada. Bacana agora é a democracia com adjetivos. Democracia de conveniência para os candidatos. Democracia de interferência para os juízes.
O candidato que hoje foge do debate ensina ao próximo que fugir sai de graça. O ministro que hoje reescreve o regulamento na véspera ensina ao próximo que a caneta vale mais que a lei. E assim o país que enfrenta um desafio econômico, político e social passa a enfrentar tambem um desafio moral.
