
Como foi o primeiro debate presidencial na TV brasileira
Reprodução/Band
O Grupo Bandeirantes de Comunicação realizou, em 17 de julho de 1989, nos estúdios em São Paulo, o primeiro debate presidencial da história da televisão brasileira.
O evento reuniu nove candidatos no programa "Encontro dos Presidenciáveis" e inaugurou a tradição dos grandes confrontos eleitorais transmitidos pela Band.
Pioneirismo da Band na redemocratização
Desde o início da década de 1980, a Band se destacou pela cobertura da abertura política, promovendo debates estaduais a partir de 1982 e se consolidando como referência na redemocratização.
O encontro de 1989 simbolizou o ápice dessa trajetória, ao levar para a tela o confronto direto de projetos de país em um momento decisivo da história brasileira.
Diretor de jornalismo da emissora à época, Fernando Mitre comandou a produção do programa e registrou, no livro Debate na Veia, a emoção daquele julho.
Ele relembra que "não há como não se emocionar ainda hoje, quando volta a memória a cena histórica daquele julho de 1989, nos estúdios e na tela da Band, o desfile inédito de todas as ideias e bandeiras ideológicas, o primeiro, na televisão, da vida política do país", sublinhando o caráter pioneiro do encontro.
Ao narrar sua trajetória profissional, o jornalista resume a força simbólica daquele momento: "Eu vivi o final da democracia em 1964 como jornalista, vi a democracia morrendo, depois vi a democracia renascendo em 1984 e depois vi ela se consolidar nos estúdios da Band no primeiro debate".
Na visão de Mitre, o encontro de 1989 ajudou a consolidar institucionalmente a nova etapa democrática.
1989: hiperinflação e volta do voto direto
O debate ocorreu em meio a um cenário de extrema turbulência econômica. No fim do governo José Sarney, o Brasil enfrentava uma hiperinflação que beirava 2.000% ao ano, corroendo salários e alimentando sucessivas tentativas de planos econômicos. A crise dava tom às propostas dos candidatos e tornava urgente o debate sobre estabilização e reformas.
O pleito de 1989 também marcou o retorno do voto direto para presidente após quase três décadas. A última eleição direta havia ocorrido em 1960, o que significava que apenas brasileiros com mais de 47 anos tinham experiência prévia de escolher o chefe do Executivo nacional.
Formato, participantes e regras do encontro
Batizado de Encontro dos Presidenciáveis, o primeiro debate da TV brasileira teve duas horas de duração e foi mediado pela apresentadora Marília Gabriela.
No estúdio, os jornalistas Fernando Mitre, José Paulo de Andrade e José Augusto Ribeiro conduziram as perguntas, ocupando papel central na dinâmica de confronto entre os projetos dos candidatos.
Dos 22 concorrentes ao Palácio do Planalto, nove estiveram presentes na Band naquela noite histórica: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Mário Covas (PSDB), Leonel Brizola (PDT), Paulo Maluf (PDS), Aureliano Chaves (PFL), Afonso Camargo (PTB), Guilherme Afif Domingos (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Roberto Freire (PCB).
Duas ausências de peso chamaram atenção: Ulysses Guimarães, do PMDB, que passaria a participar dos debates seguintes da emissora, e Fernando Collor de Mello, do PRN.
Collor adotou a estratégia de não comparecer a nenhum debate no primeiro turno, escolhendo aparecer apenas nos confrontos decisivos do segundo turno, já em um cenário de polarização com Lula.
As regras do encontro foram negociadas entre as campanhas e a direção da Band para garantir equilíbrio entre os participantes. No primeiro bloco, cada candidato teve um minuto para responder a uma pergunta idêntica formulada pelo programa: Se eleito, qual será a sua primeira medida ao tomar posse como presidente da República?
Nos blocos seguintes, as perguntas passaram a ser feitas pelos próprios presidenciáveis, com até 30 segundos para questionar e até dois minutos para responder, sem que o mesmo adversário pudesse ser escolhido mais de uma vez na mesma rodada.
Embates emblemáticos que marcaram a noite
Como tudo era inédito na televisão brasileira, o estúdio da Band virou palco de confrontos que expuseram com clareza o choque ideológico da época.
Ao vivo, candidatos ajustaram discursos e estratégias diante de um público nacional que, pela primeira vez, acompanhava em tempo real um debate presidencial televisivo.
- Mário Covas questionou Lula sobre as regras do PT para a entrada de capital externo no país. Lula respondeu que defendia o investimento estrangeiro desde que não sufocasse o capital nacional e garantisse aos trabalhadores brasileiros condições de trabalho semelhantes às oferecidas nos países de origem das empresas;
- Leonel Brizola cobrou de Roberto Freire propostas para impedir que a hiperinflação e o desgaste do governo Sarney inviabilizassem a transição. Freire defendeu um plano de emergência liderado pelo Congresso e sugeriu suspender o pagamento do serviço da dívida externa até a posse do novo presidente;
- O tema da reforma agrária gerou tensão entre Ronaldo Caiado, defensor da propriedade privada e da terra produtiva, e candidatos como Brizola e Roberto Freire, que denunciaram a violência contra trabalhadores rurais e citaram o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes.
Mais de 37 anos depois, o primeiro debate presidencial realizado pela Band permanece como referência histórica e simbólica.
Datas e o novo formato de 4 minutos
Em 2026, essa tradição ganha novos capítulos com uma agenda nacional de debates já confirmada. A emissora prepara uma cobertura especial que reúne confrontos estaduais e o primeiro encontro entre os candidatos à Presidência na corrida eleitoral.
- Debates estaduais - 9 de agosto (domingo), às 20h: confrontos simultâneos em 17 unidades da Federação, incluindo 16 estados e o Distrito Federal, entre postulantes aos governos locais;
- Debate presidencial - 23 de agosto (domingo), às 20h: primeiro debate do primeiro turno entre candidatos à Presidência da República.
A temporada 2026 também traz um formato redesenhado para estimular o confronto direto de ideias.
Nas rodadas em que jornalistas questionam ou em que os candidatos fazem perguntas uns aos outros, quem pergunta terá até 1 minuto, enquanto quem responde contará com 4 minutos que poderá gerenciar livremente entre resposta e tréplica.
Conforme aponta a direção de jornalismo do Grupo Bandeirantes, o novo desenho pretende reduzir o engessamento tradicional dos debates e ampliar o espaço para argumentação consistente.
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