A sucessão de escândalos políticos no Brasil, do INSS ao Banco Master, passando pelas investigações que agora atingem o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), deve deixar marcas profundas na corrida eleitoral de 2026.
A avaliação é da professora e cientista política Deysi Cioccari, que apontou, em entrevista à BandNews TV, um cenário de desgaste generalizado das instituições e crescimento do voto de protesto.
Para Deysi, o impacto eleitoral das investigações vai além do que parece à primeira vista. Casos como o que envolve o Centrão ativam três gatilhos sensíveis no eleitor brasileiro: a percepção de corrupção, de privilégio e de que decisões são tomadas nos bastidores, longe da população.
"Essa simples imagem de um banqueiro supostamente oferecendo vantagens a um dos principais nomes do Centrão reforça a percepção de que Brasília funciona para proteger grupos de poder enquanto a população fica distante das decisões reais", afirmou a especialista.
A federação entre PP e União Brasil, partido que também tem nomes ligados ao escândalo do Banco Master, amplia o raio de contágio político. Na avaliação da professora, todos os candidatos que se aproximarem dessas siglas devem sentir o efeito nas urnas, ao menos no curto prazo.
Crise de legitimidade em todos os poderes
Deysi identifica uma crise que extrapola o campo político. O que antes era uma disputa personalista entre um ex-presidente e um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) se tornou, segundo ela, um problema estrutural que atinge o Judiciário, o sistema econômico e o Congresso simultaneamente.
"A população olha para tudo isso e não se vê mais representada", disse. "O INSS foi o estopim de um sistema que, em um ano e meio, não produziu nada de eficiente."
O quadro é agravado pela economia. Com o custo de vida pressionado e o poder de compra estagnado, o eleitor tende a responsabilizar quem está no poder. "O eleitor não quer saber de dados técnicos. Ele vai olhar para o seu bolso e vai dizer: a minha qualidade de vida melhorou ou piorou?", explicou a cientista política.
A especialista também alertou para o risco de aumento da abstenção. "As pessoas vão olhar para a política nesse ano eleitoral e vão dizer: esse sistema não me representa, o Judiciário não me representa e nem a economia consegue me representar mais", projetou Deysi.
Direita larga com vantagem, mas cenário ainda é fluido
Ao traçar o panorama para 2026, a professora indica que a direita parte com vantagem. Os temas que mais preocupam o eleitor brasileiro – corrupção, segurança pública e economia – são historicamente mais desfavoráveis à esquerda.
"No imaginário do brasileiro, a corrupção está muito ligada à esquerda, pelos casos do mensalão e do petrolão. A segurança pública também nunca foi um tema em que a esquerda deu respostas eficientes", avaliou.
Nesse contexto, a cientista destaca a movimentação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para se descolar da imagem do pai e o aceno ao mercado financeiro como estratégia deliberada de sinalizar moderação e capacidade de gestão. "Isso mostra uma tentativa de assinar para a eficiência, de trazer um pouco de moderação para o mercado", disse.
Deysi avalia que o eleitor de 2026 é diferente do de ciclos anteriores. "Ele quer uma resposta de gestão, de eficiência de Estado. Ele vai perguntar: esse Estado funciona para mim? Está devolvendo tudo aquilo que eu pago de impostos?", resumiu a especialista, para quem, em ano eleitoral, a combinação de escândalos e economia fraca é "pólvora".
